Uma agenda para as ideias

Paula Alzugaray

Publicado em: 29/09/2011

Categoria: Reportagem

Economia criativa: novas tecnologias dão origem a novos modelos de gestão

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Ilustração de Guto Lacaz

Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Com essa sacada, 140 músicos de dez big bands paulistas uniram-se em um projeto colaborativo, o Movimento Elefantes, a fim de viabilizar a produção de um CD e um DVD. Movidos por um princípio em comum, eles lançaram em junho um CD coletivo com tiragem de 2 mil cópias integralmente financiadas pelo público. O princípio é simples: quando a estrutura girava em torno das gravadoras, o artista que seguia outro caminho era considerado independente. Mas esse termo perdeu a validade. Hoje eles se consideram músicos dependentes uns dos outros, dos parceiros e do público. Por que ninguém pensou nisso antes? No mesmo mês de junho, a banda de rock brasiliense Móveis Coloniais de Acaju colocou R$ 30 mil no caixa para a viabilização do 12º Festival Móveis Convida, evento criado para promover o intercâmbio entre as bandas do Distrito Federal, de outros estados e países. Em 11 edições, o Móveis Convida já apresentou mais de 500 artistas.

A contrapartida para seus investidores são CDs, ingressos, camisetas, bonés ou até mesmo acesso vip para o backstage. Estamos diante de artistas sem patrocinadores, mas plenos de apoiadores e colaboradores, quase sempre conquistados em plataformas on-line de captação de recursos, ou crowdfunding – sites que funcionam como bolsas de ideias. Entre eles, o Catarse e o Embolacha. A viabilização dos projetos dessas bandas dá-se a partir da percepção de que a economia mudou e com ela a forma de girar a roda. Ao experimentar modelos de autogestão ou de gestão compartilhada, elas conseguem realizar o que antes da revolução digital não existia nem em sonho.

Quantas pessoas não puderam realizar seus talentos porque não tiveram apoio? Pois agora elas reinventam suas maneiras de trabalhar. Crowdfunding, The Hub, Co-working e outras formas de compartilhamento de infraestruturas são indicativos de que vivemos um tempo de economia criativa, um conceito que nasceu em meados dos anos 1990, na Austrália, a partir do reconhecimento da contribuição do trabalho criativo para a economia daquele país. A tal da Economia Criativa é algo que hoje brota espontaneamente em todo o planeta – sempre no contexto desses novos modelos de produção e distribuição –, mas que também pode ser semeado, regado e fomentado, como vem sendo feito no Reino Unido, na China, na Colômbia, no Líbano e, agora, no Brasil, que acaba de conceber uma Secretaria de Economia Criativa dentro Ministério da Cultura.

Da moda à arquitetura, do circo aos games, do artesanato às nanotecnologias, do turismo ao entretenimento. Qualquer campo criativo que, mais que produtos, gere experiências entra no escopo da economia criativa. Na prática, o conceito prevê o encontro entre campos culturais, a diluição de suas fronteiras e, em última instância, a ampliação do campo da cultura. “Economia Criativa é essa realidade fluida, extremamente dinâmica, com um potencial extraordinário, que vai crescer de forma exponencial graças às inúmeras possibilidades de colaboração que surgem pelas novas tecnologias”, diz Lala Deheinzelin, que há seis anos movimenta discussões sobre o tema e hoje assessora a Secretaria da Economia Criativa do MinC.

Falamos de uma economia que não é produzida com matérias-primas tangíveis ou perecíveis, como petróleo, minerais, gás, mas com valores intangíveis, como conhecimento, criatividade, imaginação, inovação, experiências, valores – tudo aquilo que ainda não tem medidas de valor claras. “Além de serem abundantes, os recursos intangíveis são os únicos que se renovam e se multiplicam com o uso. Se você tem um ambiente criativo, você gera mais criatividade. Quanto mais conhecimento, mais conhecimento. É algo que se multiplica em progressão geométrica”, diz Deheinzelin.

Cultura, vocações criativas, comércio, tecnologia e ferramentas participativas são competências que estão na agenda da nova pasta do governo. “O relatório da Conferência do Comércio e Desenvolvimento da ONU apresenta um quadro de crescimento da Economia Criativa em até 7% ao ano, em vários países. Como um país como o Brasil, com seu enorme insumo de criatividade, não aparece ainda nesses relatórios?”, questiona a socióloga Claudia Leitão, atual secretária de Economia Criativa. “Teremos no MinC, pela primeira vez, uma discussão sobre desenvolvimento por meio da arte e da cultura. A secretaria tem o papel de costurar, criar relações transversais. Penso em Edgar Morin, que diz que complexo não é difícil, complexo é o que é tecido junto.”

A percepção de que vivemos uma cultura de transversalidades e a determinação em transformar a criatividade em recurso econômico são dois grandes ganhos desse novo pensamento que quer virar política pública. Não são novidade, mas valorizam algo que já ocorre informalmente há tempos no Brasil. O Móveis Coloniais de Acaju que o diga, pois há mais de uma década se autodefine como uma “banda-empresa”, que administra a própria carreira, gera seus recursos e produz seu próprio festival. Para isso, conta com um time de dez integrantes com competências múltiplas. “Todos nós temos formação superior e experiências variadas em outras áreas. Cada um traz para a banda a experiência de fora – o publicitário, o jornalista, o economista, os músicos, os designers, aquele que trabalhou com o pai em alguma outra coisa…”, conta Paulo Rogério, que toca sax tenor.

A formação do Móveis é totalmente ilustrativa do perfil de um profissional de Economia Criativa. Um especialista nessa área pode entender de direito, comércio internacional, economia, cultura, política ou tecnologia da informação. Ainda não há um curso universitário no Brasil, mas já existem iniciativas pontuais que se dedicam a promover sinergias entre campos criativos, como a Escola São Paulo, criada, em 2006, como espaço para informação e discussão de temas contemporâneos. Em 2010, a escola incluiu formalmente o assunto Economia Criativa em sua programação, difundindo considerável produção teórica e intelectual que se produz no Brasil sobre o tema, como o trabalho da economista Ana Carla Fonseca Reis, autora de livros como Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável (Manole, 2006), primeira obra brasileira sobre o tema e vencedora do Prêmio Jabuti 2007; e Economia Criativa Como Estratégia de Desenvolvimento: Uma visão dos países em desenvolvimento (Itaú Cultural, 2008). “O futuro vai ter mais oportunidades para os profissionais ‘trans’, os híbridos. Os profissionais da Economia Criativa não têm uma definição única”, endossa Lala Deheinzelin. “O futuro vai ser ‘trans’. Tranversal, transetorial, transdisciplinar, sem fronteiras. Tomara que seja transparente também”, diz ela.

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