Uma bienal humanista

Refugiados e povos indígenas são conclamados a participar da 57ª Bienal de Veneza em obras que fazem ode à liberdade

Janaina Cesar
A Sacred Place (2017), instalação imersiva e performativa de Ernesto Neto, que explora relações entre natureza e cultura e tem participação dos índios da tribo amazônica Huni Kuin (Foto: Dario Lasagni)

Em um momento não muito propenso ao entusiasmo, a 57ª edição da Bienal Internacional de Arte de Veneza mira aspectos mais positivos da sociedade. Viva Arte Viva apresenta-se como um reduto contra o individualismo e usa a arte para propagar energia positiva. A curadora francesa Christine Macel a define como um lugar de liberdade e reflexão. Centrada na figura do artista, a mostra é uma celebração ao humanismo e à capacidade do homem de não se deixar dominar por situações que possam condicioná-lo espiritual, intelectual e politicamente.

Ninguém menos que os refugiados e os povos indígenas para enfatizar o significado dessa exposição. Destaca-se, no coração do Pavilhão Central, nos Giardini, o dinamarquês Olafur Eliasson com Green Light, projeto de cunho social que envolve o público e cerca de 80 refugiados na construção de lâmpadas realizadas com materiais reciclados. Já Tracy Moffatt, no Pavilhão da Austrália, apresentou a série My Horizon, formada por uma coleção de fotos e vídeos. Um deles, Vigil, é uma série de close-ups de atores de Hollywood montados com sequências de fotos de barcos de refugiados que estão afundando. Com seu ritmo acelerado, Vigil é um curta de corte afiado, em que as imagens são poderosas e quase sufocantes. Os atores, e nós, são os espectadores da desgraça humana.

Chão de Caça (2017), instalação de Cinthia Marcelle no pavilhão brasileiro. (Foto: Cortesia da Artista)

 

Ernesto Neto, um dos artistas contemporâneos brasileiros mais importantes no cenário internacional, leva pela primeira vez na história os índios Huni Kuin, do Acre, para dentro da mostra de Veneza e apresenta ao mundo a beleza da espiritualidade indígena. Durante a vernissage, o artista brasileiro e seis índios convidaram o público para participar de uma performance coletiva – a dança da jiboia. Neto expõe em uma das salas do Arsenale uma grande tenda que chama atenção não somente pela sua dimensão e potência visual, mas porque abre possibilidades sensoriais ao público, começando pelo convite a tirar os sapatos dentro da Bienal.

Há outros quatro brasileiros na mostra: Erika Versutti, Paulo Bruscky, Ayrson Heráclito e Cinthia Marcelle, que ocupa sozinha o pavilhão do Brasil e que recebeu o prêmio de menção especial em 13 de maio. A artista mineira apresenta a obra Chão de Caça. “É uma floresta mental, quase um delírio, onde prevalece o questionamento entre liberdade e confinamento que vai além do sistema carcerário, chegando ao confinamento mental e do próprio sistema capitalista”, diz a artista à seLecT.

Com Free Orgasm/ Free Peep Show/ Free Narcissistic People Disorder/ Pole Dance, o pavilhão da Coreia apresentou uma ode absoluta à liberdade sexual. Interessante o pavilhão suíço, com a mostra Women of Venice inspirada na obra Femmes de Venise, de Alberto Giacometti. O artista, durante a vida, sempre recusou representar o país no pavilhão suíço. Nesse mundo de paradoxos também se encontra o caminhão de Erwin Wurm, que foi transformado em torre em uma instalação na parte externa do pavilhão austríaco.

Serviço
57ª Bienal Internacional de Arte de Veneza
Até 26/11
labiennale.org

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