#tbt seLecT #28

Relembre a edição de 2016 pelas vozes de Maria Rita Kehl, Lisette Lagnado, Eduardo Galeano e Ana Maria Maia

Da redação

N° Edição: 28

Publicado em: 29/07/2021

Categoria: #tbt, Destaque

Egalité (2004), de Minerva Cuevas (Foto: Divulgação)

Publicada em ano de Olimpíada, a seLecT #28 dedicou suas páginas ao #feminismo, estampando em sua capa detalhe da obra Elementos de Beleza (2015), de Carla Zaccagnini, que mostra o registro de uma tela de Diego Velázquez após ser atacada por militante sufragista na National Gallery de Londres. Na análise sobre o projeto de Zaccagnini, em exibição naqueles fevereiro e março de 2016 na mostra Histórias Feministas, no Masp, Márion Strecker relata que “entre os artistas que tiveram obras atacadas na Inglaterra [por integrantes do movimento sufragista no início do século 20] estão Giovanni Bellini, George Frederick Watts e Diego Velázquez. A pintura Vênus ao Espelho (1647-51), de Velázquez, sofreu sete golpes de faca de açougueiro, desferidos nas costas nuas da deusa por Mary Richardson, em 10 de março de 1914. ‘A justiça é um elemento de beleza, assim como o são a cor e o traço sobre uma tela’, disse Richardson, que definiu as marcas dos seus golpes como ‘hieróglifos’ com o potencial de expressar alguma coisa para as gerações futuras”.

Em ano de Jogos Olímpicos e de debates sobre “vandalismos” cometidos em nome da justiça historicamente devida a grupos sociais oprimidos, seLect #28 pergunta, na seção Fogo Cruzado, Quando o Mundo Deixará de Ser Machista?, a que a psicanalista Maria Rita Kehl rebate: “1. Resposta darwiniana: quando houver muito menos mulheres que homens no mundo e cada um deles perceber que, na concorrência pela nossa atenção, os machistas não terão vez. 2. Resposta freudiana: quando os homens se curarem dos sintomas infantis da angústia de castração e entenderem que ter ou não ter pênis não confere nem mais nem menos valor a ninguém. 3. Resposta marxista-leninista: quando as mulheres enfrentarem os desrespeitos vindos dos pais, maridos, filhos e patrões, conscientes de que nada têm a perder a não ser os seus grilhões.”

“Há muitos feminismos, das Guerrilla Girls a Malala (Yousafzai). Posso parafrasear (Eduardo) Viveiros de Castro (quando se refere ao ser índio), dizendo que todo mundo é feminista, exceto quem não é. Ou seja, transcende vagina e ovários. Ser mulher, hoje, reúne várias condições ‘menores’: a voz dos refugiados, por exemplo. Para mim, esse é o feminismo mais lindo que poderia surgir”, defende Lisette Lagnado em entrevista à Márion Strecker, intitulada A Fala é o Falo. “Dentro do guarda-chuva do feminismo coloco todas as outras lutas, como o racismo e a homofobia, além dos desastres ecológicos. O meio artístico deve sempre se manter alerta contra o intolerável”, afirma, sempre visionária, a curadora.

Em seguida, assinando a seção Curadoria, Paula Alzugaray destaca, como Lagnado, a existência de um Feminismo em Campo Expandido: “A poética de Laercio Redondo abriga várias mulheres marcantes que passaram por longos períodos de apagamento. Ainda que reconheça no fato de Lota ter sido mulher e homossexual duas fortes razões para o seu desaparecimento, o discurso do artista não se filia a um pensamento feminista estruturado apenas sobre questões de sexo e de gênero e mostra-se mais interessado na defesa das singularidades humanas. Em direção parecida, o olhar de Virginia de Medeiros está voltado para a desconstrução da noção tradicional de gênero, em seu sentido binário, assim como a pintura de Thiago Martins de Mello está para a liberdade arquetípica e a dissolução do sujeito oprimido – seja ele índio, negro, imigrante, homossexual, travesti ou mulher. Aquele que não se enquadra no discurso oficial. Desde as paisagens de Redondo, Medeiros e Martins de Mello, se avistam feminismos em campos expandidos, ligados a causas políticas que atravessam gêneros, disciplinas e campos do pensamento”.

A seção Literatura celebra o lançamento de Mulheres (2016), de Eduardo Galeano (1940-2015), dedicado a artistas, cientistas, índias, guerrilheiras, prostitutas, santas e ativistas – célebres e anônimas, publicando seis textos do derradeiro livro do escritor uruguaio, acompanhados por desenhos de Flávia Ribeiro. Um exemplo: “Rigoberta Menchú nasceu na Guatemala, quatro séculos e meio depois da conquista feita por Pedro de Alvarado e cinco anos depois da conquista feita por Dwight Eisenhower. Em 1982, quando o Exército arrasou as montanhas maias, quase toda a família de Rigoberta foi exterminada, e a aldeia onde seu umbigo tinha sido enterrado para que surgisse milho foi apagada do mapa. Dez anos mais tarde, ela recebeu o prêmio Nobel da Paz. E declarou:– Recebo esse prêmio como uma homenagem ao povo maia, embora chegue com quinhentos anos de atraso. Os maias são gente de paciência. Sobreviveram a cinco séculos de carnificina. Eles sabem que o tempo, como a aranha, tece devagar”, são as sábias palavras do autor de As Veias Abertas da América Latina, que em 2021 tem seu cinquentenário comemorado.

Portfólio estampa a obra de Bárbara Wagner, que Ana Maria Maia analisa detalhadamente, recuando até as séries fotográficas Brasília Teimosa (2007) e Estrela Brilhante (2010), em que subverteu o cânone do retrato. “Diante de sujeitos cada vez mais soberanos em suas construções identitárias, além de, obviamente, ainda imbuídos de refutar estigmas, estereótipos e guetos, seguir praticando retrato permite, em contraparte, corromper a ideologia do cânone. Ou seja, aproveitar-se da sua linguagem consolidada e dos seus circuitos de recepção para disseminar processos e visualidades que lhe escapam e devolvem ao terreno fértil, embora perigoso, da criação”, escreve Maia.

Feminismo, a edição #28 da seLecT, parece que foi escrita hoje. Releia aqui.

Capa SeLecT #28

Tags: , , , , , , ,

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.