Arte-Emergência

Agentes das visuais colocam em campo ações emergenciais voltadas a artistas e à população atingida pela pandemia

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: Vol. 10, N 51, Julho/ Agosto/ Setembro 2021

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Entregadores Antifascistas fazem o delivery das quentinhas de domingo, no projeto Lute Como Quem Cuida, da Cozinha Ocupação, Centro de São Paulo (Foto: Edouard Fraipont)

A história é recente e conhecida. Mal começou 2020 e as dificuldades econômicas do país foram ao limite, chegava ao Brasil o coronavírus. Com a necessidade de isolamento social, o meio cultural, que já tivera seu ministério rebaixado a secretaria, teve de deixar o palco. Museus e galerias fecharam as portas de suas mostras no lockdown. A crise sanitária e econômica sem precedentes nos últimos cem anos levou muitos ao desespero – e artistas e agentes do meio cultural à ação. De instituições privadas e públicas a coletivos e espaços independentes, iniciativas sociais espalharam-se pelo país.

Grandes instituições, como Itaú Cultural, Instituto Moreira Salles e diferentes Sescs pelo Brasil, quase imediatamente criaram editais voltados para múltiplas vertentes artísticas. Destinados à exibição na internet, fosse nas redes sociais ou por streaming, os produtos dessas chamadas buscavam suprir a abstinência de programação em casa e abrir possibilidades de expansão de público e
criação de conteúdos on-line.

“Diante do cenário que a pandemia pintou para a classe artística e os profissionais da cultura, com o fechamento de cinemas, casas de espetáculo e museus, o Itaú Cultural procurou agir rapidamente. Três semanas depois do início da suspensão social, lançamos Arte como Respiro: Múltiplos Editais de Emergência, por meio do site, para acolher e abrir frentes de trabalho”, diz Eduardo Saron, diretor da instituição, à seLecT. Com prêmios no valor de R$3 mil, a iniciativa teve 1.100 projetos contemplados e exibidos on-line.

O Instituto Moreira Salles criou o #Quarentena, com um braço que vem convidando artistas a produzir especialmente para seu site, como forma de incentivar a produção, que já apresentou obras de nomes como Grace Passô e Denilson Baniwa. Já o Sesc lançou o edital Poti-Cultural, no Rio Grande do Norte, que teve duas edições no ano passado, premiando e exibindo ao todo 80 trabalhos digitais.

Ilustração com imagens de Pisco Del Gaiso, Daniele Queiroz, Carol Quintanilha, Amanda Perobelli, Leo Caobelli, Danilo Arenas, Victor Moriyama, Guto Garrote, Grasi Barbaresco, Murilo Salazar, Índio, Joelington Rios e Georgia Niara (em ordem cronológica), do projeto 150 Fotos para São Paulo

Fome de quê?
Depois, começaram a surgir no Instagram campanhas de doação de obras revertidas em auxílio monetário e alimentos para a população carente. Uma das pioneiras foi a #ArtChallengeCestou. “O Eduardo Lyra, da ONG Gerando Falcões, fazia toda sexta-feira um post chamando as pessoas a doarem cestas básicas, com a #Cestou”, diz a artista Graziella Pinto. “Ele me convidou a participar, e como eu tinha um trabalho lindo parado no ateliê, resolvi vendê-lo e doar o dinheiro para o projeto. Aí me veio a ideia de desafiar outros cinco artistas a fazerem doações, incluindo Sandra Cinto e Albano Afonso. Eles aceitaram na hora e começaram a chamar outros nomes, e viralizou”, completa a artista, organizadora da empreitada que arrecadou mais de R$ 400 mil com a venda de obras. Além da Gerando Falcões, o projeto ajudou também artistas necessitados, que tinham a opção de resgatar até 50% do valor da venda, doando a outra parte para a ONG.

Na mesma pegada, campanhas como 150 Fotos para São Paulo e 150 Fotos pela Bahia venderam imagens a preços camaradas para a compra de cestas básicas para pessoas em situação de vulnerabilidade nesses estados. Fotos para Rondônia destina sua verba líquida “à articulação de suporte ao enfrentamento à Covid-19 pelos povos indígenas de Rondônia, sul do Amazonas e noroeste de Mato Grosso”, como diz o site do projeto.

Da parte das galerias, espaços de pequeno e médio porte de vários estados uniram-se no projeto P.ART.ILHA, que teve cinco edições desde abril de 2020. Nelas, quem comprar um trabalho ganha 50% do valor para adquirir outra obra na mesma galeria, ajudando a aquecer o mercado. Parte das vendas é destinada a uma ONG diferente a cada edição. “É uma ação que surgiu com o objetivo de auxiliar e apoiar o setor e acabou por introduzir uma mudança de paradigma nas relações do mercado de arte: galerias de vários estados do Brasil trabalhando de mãos dadas, com um objetivo único”, diz Niura Borges, dona da Mamute.

O projeto Cesta Aberta, da Casa do Povo, promoveu a distribuição de alimentos frescos à população do entorno, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo (Foto: Robson Gonzaga)

Ações no território
Outro exemplo é o Fundo Colaborativo para Artistas e Criadores, que se apropria da expertise de seis espaços independentes para enviar recursos para artistas de todo o país. “A pergunta que nos levou a criar o Fundo foi: ‘O que podem fazer as instituições de arte diante de situações extremas como uma pandemia?’ Espaços autônomos trabalham próximos aos artistas, o que nos torna lugares de experimentação, pesquisa, troca, aprendizado. Trabalhamos em rede naturalmente”, diz Bernardo Mosqueira, diretor artístico do Solar dos Abacaxis (RJ), à seLecT. A primeira iniciativa do Fundo é o Brotar, programa que começou com a seleção de seis artistas, como Letícia Barbosa (Carnaíba, PE) e Sallisa Rosa (Goiânia). Eles recebem R$ 800, são divulgados no Instagram do projeto e indicam outros seis artistas, até chegar ao total de 36 contemplados. Além do Solar, integram o Fundo o Chão SLZ (São Luís), Galeria Maumau (Recife), JA.CA (BH), Pivô (São Paulo) e Casa do Povo (São Paulo).

Se já era ativa antes da pandemia, esta última intensificou ainda mais suas iniciativas em diversas frentes, que vão desde a distribuição de alimentos frescos à população de seu entorno, o bairro do Bom Retiro (SP), até informações para obtenção do auxílio emergencial e produção e distribuição de máscaras. “Desde abril de 2020, a Casa do Povo deu uma guinada para priorizar ações no território. Reafirmamos nossa vocação como instituição aberta ao bairro e passamos a escutar melhor o que os nossos vizinhos precisavam para nos tornar mais úteis. Acabou sendo uma oportunidade para formar uma rede de solidariedade com as organizações culturais e sociais dos arredores, comerciantes e moradores. Isso dificilmente teria acontecido com essa potência não fossem essas trágicas circunstâncias”, explica a organização do espaço, que reafirma sua vocação coletiva e social no trabalho com parceiros como Lanchonete<>Lanchonete (RJ), Jamac (SP) e Ocupação 9 de Julho, que também aumentou o ritmo durante a pandemia.

Cesta Aberta (Foto: Robson Gonzaga)

A Cozinha Ocupação fazia um almoço mensal com insumos orgânicos de produtores locais. Com a pandemia, passou a ser semanal. Todo domingo um chef é convidado para cozinhar e trocar seus saberes com a equipe de moradorxs militantes que forma a Cozinha Ocupação 9 de Julho. “Hoje, nos almoços de domingo, são produzidas cerca de 600 quentinhas por semana, das quais 200 são oferecidas pelo delivery dos Entregadores Antifascistas, ao valor de R$ 30 cada, o que viabiliza a doação das outras 400 para os
moradores das ocupações e das comunidades periféricas parceiras”, conta o coletivo à seLecT.

No fluxo
Um epicentro da atuação de diversos coletivos artísticos é a Cracolândia, região no entorno da Estação da Luz onde vive um aglomerado da população de rua consumidora de crack, o chamado fluxo. Experimentado na redução de danos na região e trabalhando no terceiro setor há 15 anos, o artista Raphael Escobar teve de repensar estratégias junto aos coletivos com os quais trabalha, como o Tem Sentimento, de costureiras cis e trans, e a Cia. Mungunzá de Teatro, entre muitos outros. “Logo que a pandemia começou, primeiro nos isolamos, pelo medo de contaminar o pessoal da rua. Mas, com o tempo, vimos que precisaríamos voltar a agir”, diz Escobar.

O projeto Cesta Aberta, da Casa do Povo, promoveu a distribuição de alimentos frescos à população do entorno, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo (Foto: Robson Gonzaga)

Além da distribuição de quentinhas, os agentes da região passaram a distribuir os materiais de prevenção à Covid-19, com máscaras confeccionadas pelo Tem Sentimento. Todo o trabalho é remunerado, seja com verba pública, doações ou parcerias com instituições da região, como o Sesc Bom Retiro e o Museu da Língua Portuguesa, “menos a Pinacoteca e o Memorial da Resistência, que nunca se ofereceram para nenhuma atividade”, conta Escobar. “A gente busca uma economia solidária, com todo mundo recebendo pelo trabalho que faz, e todos os trabalhos são feitos pelos coletivos da região”, continua o artista. Para garantir uma renda mais consistente a cada seis meses, o artista juntouse a outros 40 nomes, que vão de Renata Felinto a Dentinho e Jaick MC, no coletivo Birico, que vende impressões fine art de obras produzidas por seus integrantes.

No momento atual, os coletivos e espaços independentes são aqueles que mantêm viva a rede de solidariedade, e o P.ART. ILHA é das poucas iniciativas encampadas por galerias e ainda em curso. O #ArtChallengeCestou prossegue, mas num ritmo mais lento. As instituições voltaram à política anterior de editais, mais esporádicos. “Parece que, no início da pandemia, muitas doações foram feitas como forma de aplacar uma culpa burguesa, e depois o pessoal esqueceu”, diz Raphael Escobar. No âmbito público, a Lei Aldir Blanc destinou R$ 3 bilhões para agentes de cultura de todo o Brasil, mas de forma ultrapulverizada, abarcando tanto o auxílio emergencial para trabalhadores da cultura quanto o subsídio a projetos e instituições. Para a Casa do Povo, “talvez a pergunta seja menos ‘quem’ precisa se colocar mais para que o auxílio à população seja ampliado, mas ‘como’ cada instituição de arte – e não só de arte – pode, dentro dos seus propósitos e da sua missão, colaborar de alguma forma”. Tempos difíceis pedem mobilização.

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