Dez Fartos Anos

Quem são e o que pensam os colecionadores que surgiram nos anos mais pungentes da economia e do mercado de arte brasileiro

Paula Alzugaray e Luciana Pareja Norbiato

N° Edição: 27

Publicado em: 14/12/2015

Categoria: A Revista, Reportagem

Camilla Barella (em foto de Roberto Wagner) começou a colecionar em 2008, com foco em artistas de sua geração, como Marcelo Cidade, autor da instalação Mercado Negro
 Desde que a primeira feira internacional de arte contemporânea despontou no Brasil, em 2005, muita água rolou. Da aparição da SP-Arte para cá, dezenas de novas galerias surgiram, outras cresceram significativamente em volume de negócios. A arte contemporânea brasileira ampliou sua presença internacional e valorizou como nunca antes na história.

Em 2009, quando os EUA estavam no auge de sua crise financeira e o mercado de arte do Hemisfério Norte simplesmente entrou em pausa, as galerias brasileiras nadavam de braçada. Dois anos depois, surgia a ArtRio, atraindo as maiores grifes do mercado internacional, como a Gagosian e a White Cube, que se estabeleceu no país por três anos, impulsionada pelo otimismo da política econômica.

Os indicativos positivos do setor deram gás para o surgimento de três publicações especializadas – seLecT nasceu em 2011 – e um ambiente institucional independente, coisa que não se conhecia nas grandes capitais brasileiras do século 20. Até mesmo um fundo de investimento em arte contemporânea apareceu no País.

Tudo isso levou à ampliação da base local de colecionadores. O colecionador privado brasileiro foi, de fato, o grande protagonista dessa história. Ele é responsabilizado, pela Pesquisa Setorial Latitude, por impulsionar 70% dos negócios das galerias de arte brasileiras nos últimos dois anos. Ao longo da década, eles não só investiram mais a cada ano como se tornaram muito mais numerosos.

O efeito obsessivo e altamente viciante que o colecionismo engendra, somado ao reconhecimento da arte contemporânea como valoroso meio de investimento, levou a um ritmo vertiginoso de aquisições. Grandes coleções se formaram.

Pedra Fundamental

Arte brasileira foi o primeiro passo na coleção dos paulistanos Camilla e Eduardo Barella. Nisso, eles se identificam com dez entre dez colecionadores brasileiros, de diversas gerações, para quem a produção artística local é invariavelmente o foco inicial. Com o casamento, em 2008, Camilla, 32, e Eduardo Barella, 35, iniciaram sua coleção de maneira bem despretensiosa. Começaram comprando trabalhos para as paredes de casa, até o ponto em que isso virou uma obsessão e eles passaram a adquirir obras de dimensão espacial mais significativa. A pedra fundamental da coleção propriamente dita – ponto em que o conjunto perdeu o aspecto meramente decorativo e começou a ser encarado como coleção – foi uma obra de André Komatsu que eles viram em uma exposição no México. “A obra de Komatsu foi definitiva porque nos deu a percepção de que estávamos realmente colecionando. Foi quando compramos um projeto que estava em outro país, e nem existia materialmente”, diz Camilla à seLecT.

A coleção do casal Barella é bastante representativa da geração de artistas que se consolidou na primeira década dos anos 2000. Não seria exagero afirmar que é uma espécie de radiografia do boom do mercado brasileiro. Entre eles figuram Marcius Galan, Marcelo Cidade, Adriano Costa, Jonathas de Andrade, Paulo Nazareth, Carla Zaccagnini, Cinthia Marcelle e Renata Lucas. Em estreita comunicação com os brasileiros, a coleção inclui a notável presença de artistas off-mainstream de Cuba, Oriente Médio e Leste Europeu. Entre eles, o romeno Ciprian Muresan, o turco Ahmet Ogut, o cubano Adrian Melis, a romena Marieta Chirulescu e o polonês Wilhelm Sasnal. “É uma coleção com foco conceitual e processual. Não gostamos de conviver só com trabalhos bonitos, preferimos que sejam provocativos, questionamentos sociais, que estimulem outros sentimentos além de plenitude estética”, diz Camilla.

Assim aconteceu também com o carioca Mariano Marcondes Ferraz, 50, que começou a colecionar arte concreta brasileira há cerca de 20 anos e chegou à arte internacional pelo viés da abstração geométrica. “Gosto do minimalismo e das linhas retas, me lembram minha forma organizada de ser”, diz Marcondes Ferraz à seLecT. “Coleciono arte internacional também e não tenho um foco específico, mas continuo mantendo algo geométrico”, diz o empresário, que só este ano comprou obras de Daniel Buren, Dan Walsh, Peter Halley, Los Carpinteros e fotografias de Meyerowitz, Frank Thiel e Darren Almond, entre outros.

A mudança para a Europa em 2007 distanciou-o um pouco do convívio diário com a arte brasileira, os artistas e as galerias locais. Diretor e membro do conselho de uma empresa multinacional de commodities, logística e distribuição de petróleo, derivados e mineração, Marcondes Ferraz diz viver no avião. “Às vezes, entre Mônaco, Genebra e Londres.” Quando deu esta entrevista à seLecT, estava entre o Rio de Janeiro e Dubai.

Mariano Marcondes Ferraz entre obras de Valdirlei Dias Nunes (à esq.), Marcelo Mosqueta (à esq., abaixo) e Peter Halley (à dir.), em foto de Patrice Moullet

Mariano Marcondes Ferraz entre obras de Valdirlei Dias Nunes (à esq.), Marcelo Mosqueta (à esq., abaixo) e Peter Halley (à dir.), em foto de Patrice Moullet

Mas mesmo com o vultoso investimento na produção estrangeira, ele garante que seu foco continua sendo arte brasileira. “Compro regularmente em feiras e sempre fico à procura dos artistas brasileiros mesmo nas feiras internacionais.” Marcondes detém hoje um acervo de notável diversidade, com núcleos que foram identificados pelo crítico Felipe Scovino em livro sobre a coleção, como: Modernidade construtiva; Herança neoconcreta; Política e identidade; Experimentações pictóricas: em trânsito; e Fora de ordem.

De uma geração anterior, o empresário cearense Silvio Frota, 62, começou nos anos 1980, com sua esposa Paula, uma coleção de arte moderna e contemporânea. “Quando comecei, ainda não existiam feiras no Brasil, mas elas são muito importantes para a difusão da arte. Eu sempre vou, pois servem para balizar o mercado, apesar de não comprar em feiras”, diz Frota à seLecT.

Em 2007, ele iniciou uma coleção de fotografias que é hoje reconhecida como uma das mais importantes e completas do Brasil, com mais de 2 mil obras de 170 fotógrafos brasileiros – modernos e contemporâneos. Em ambas as coleções, seu foco é exclusivamente nacional e na coleção de fotografias, o objetivo é a abertura de um espaço em abril de 2016. “É um presente que estamos preparando para a cidade de Fortaleza. O museu vai ter 2,5 mil metros quadrados, com loja, biblioteca, café e um auditório com oficinas de fotografia.”

Fator Risco

É fato que grandes e boas coleções se consolidaram nos anos 2000. Mas 2015 talvez marque o início de um novo ciclo no colecionismo brasileiro. Embora as leis da oferta e da procura indiquem que épocas de recessão econômica trazem oportunidades de bons negócios para quem não é diretamente afetado pela crise – leia-se a classe AAA –, este ano tivemos uma sensível redução nas vendas em galerias e feiras. A hipervalorização da arte contemporânea brasileira também alterou hábitos de um comprador que estava acostumado a alugar novos espaços para conter coleções que não paravam de crescer. “Por volta do ano 2000, nós comprávamos bem mais que hoje. O motivo são os preços que subiram muito”, reconhece Silvio Frota.

Silvio Frota abrirá sua coleção de 2 mil fotografias para visitação pública. Espaço tem inaguração prevista para abril de 2016, em Fortaleza

Silvio Frota abrirá sua coleção de 2 mil fotografias para visitação pública. Espaço tem inaguração prevista para abril de 2016, em Fortaleza

Camila Barella concorda e percebe que, com o tempo, perdeu a ansiedade e a insegurança. “Não existe mais essa ideia de que se perdermos aquela obra específica de um certo artista nunca mais vamos achar outra. Sempre vem o trabalho certo na hora certa. Essa maturidade nós adquirimos. A gente respeita mais o nosso ritmo, que não é dos mais rápidos. É cíclico, tem épocas que você compra um pouco mais, um pouco menos.”

Mas, para que a roda continue a girar e novas coleções de peso venham a se formar, Camilla Barella opina que o mercado terá de se reajustar. “A crise vai ser positiva para reprecificar algumas coisas aqui dentro do Brasil que estavam muito fora de contexto”, diz a colecionadora, que passou a comprar no exterior, quando comparou os preços que eram praticados aqui e lá fora. “Reprecificar pode ser muito positivo para a carreira dos artistas. É muito importante criar novas coleções no Brasil, e isso começa quando você tem preços mais acessíveis. As galerias têm de propiciar esse ambiente. Por mais que haja uma força de colecionadores estáveis que mantêm o mercado, isso sozinho não é saudável. Acredito muito que devemos construir novas gerações de colecionadores.”

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