Feminismo fora da cartilha

Com arco narrativo pedagógico, filme conta a história do movimento sufragista de forma monótona

Nina Gazire

Publicado em: 10/02/2016

Categoria: A Revista, Review

As atrizes Anne-Marie Duff e Carey Mulligan interpretam as operárias militantes Violet Cambrigde e Maud Watts (Foto: Divulgação)

Existem várias maneiras de se contar histórias. Sobre o movimento feminista conta-se que este se dá por meio de ondas. Mas como saber qual foi – realmente – a primeira onda em um mar infinito? No filme As Sufragistas (Suffragettes), Maud Watts, interpretada por Carey Mulligan, é mulher, jovem, pobre, mãe, submissa ao marido. Trabalha em condições precárias em uma lavanderia e vê sua vida mudar completamente ao, acidentalmente, se envolver em uma das ações de guerrilha de uma colega de trabalho que apedrejou uma vitrine para chamar a atenção das autoridades para a causa do voto feminino.

Ainda sobre o modo de se contar uma história – quiçá montar um filme – pode-se dizer que a estória de Maud Watts se enquadra no estilo conhecido como Coming of Age (estilo de narrativa cronológica). Tendo o Movimento Sufragista como pano de fundo, mobilização que lutava pelo direito ao voto feminino e que reverberou as demais lutas feministas que arrebataram o século 20, o filme centra-se na tomada de consciência de uma jovem mulher sobre sua condição de oprimida ao seu desejo despontado para uma vida livre, adulta. A não ser pela personagem fundadora do movimento WSPU (Women’s Social and Political Union), Emmeline Panckhurst, interpretada por Meryl Streep em uma breve aparição de interpretação um tanto quanto afetada, as demais personagens são fictícias, porém não menos válidas. Há uma escolha pela fantasia como arma para revelar o real.

Tal arco narrativo justifica a opção da diretora britânica Sarah Gavron por um filme de estrutura pedagógica e, por isso, monótono. Não há intenção de contar fielmente a história do movimento sufragista ou fazer um biopic (filme biografia), mas imaginar de maneira didática como o feminismo pode mudar a vida das mulheres, mais especificamente das mulheres inglesas. Cada ação do filme desemboca de maneira previsível em uma reação, não deixando espaços para surpresas ou fatos relevantes, como, por exemplo, como se deu realmente a conquista do voto para mulheres na Inglaterra. Portanto, quem espera saber um pouco mais sobre o movimento sufragista pode se decepcionar. Apesar disso, cenas violentas da prisão das personagens, com torturas, violência doméstica, pedofilia e greve de fome podem chocar aqueles que imaginavam a luta pelo voto feminino feito apenas por pacíficas mulheres em trajes vitorianos segurando cartazes com o bordão “Votes For Women!”

As Sufragistas, 2015, direção Sarah Gavron, com Carey Mulligan, Meryl Streep, Helena Boham-Carter. Em cartaz nos cinemas brasileiros

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