Um jogo de chá nunca é apenas um jogo de chá

Ataques em série a obras de arte, proferidos por suffragettes em museus britânicos, são assunto de instalação e livro de artista de Carla Zaccagnini

Márion Strecker

N° Edição: 28

Publicado em: 16/02/2016

Categoria: A Revista, Review

Fotografias de monitoramento de militantes sufragistas detidas por atacarem museus e obras de arte. Feitas à revelia com a primeira câmera fotográfica adquirida pela Scotland Yard, em Londres, em 1914, as fotos mostram algumas militantes de olhos fechados e bocas fanzidas para dificultar sua identificação (© National Portrait Gallery, Londres)

Em 9 de abril de 1914, uma mulher identificada algumas vezes como Clara Lambert, entrou no British Museum, em Londres, e atacou com uma machadinha que levava escondida diversas vitrines do salão asiático, provocando a destruição parcial de um antiquíssimo jogo de chá de porcelana chinesa. Não foi um ato isolado. Outras mulheres na mesma época atacaram e danificaram obras de arte em outros museus ingleses, destruíram vitrines de lojas, jogaram ácido em caixas de correio e cortaram fios de sistemas de comunicação, entre outros atos que no Brasil de hoje seriam chamados de puro vandalismo. Entretanto, não foram atos de puro vandalismo. Essas mulheres faziam parte de um movimento político organizado que lutou e, por fim, conquistou o direito do voto feminino. Na Inglaterra, o direito de voto foi obtido por todas as mulheres acima de 21 anos apenas em 1928.

Essas mulheres eram conhecidas como suffragettes, e são tema de um filme em longa-metragem ora em cartaz, As Sufragistas (2015), de Sarah Gavron, que por sinal nem menciona os simbólicos e espetaculosos ataques a obras de arte (leia resenha aqui). O movimento sufragista também ecoou no Rio de Janeiro, então capital da República, e resultou no direito ao voto feminino no Brasil em 1932.

Entre os artistas que tiveram obras atacadas na Inglaterra estão Giovanni Bellini, George Frederick Watts e Diego Velázquez. A pintura Vênus ao Espelho (1647-1651), de Velázquez, sofreu sete golpes de faca de açougueiro, desferidos nas costas nuas da deusa por Mary Richardson, dentro da National Gallery de Londres, em 10 de março de 1914 (a imagem da obra danificada é a capa desta edição de seLecT). “A justiça é um elemento de beleza, assim como o são a cor e o traço sobre uma tela”, disse Richardson, que definiu as marcas dos seus golpes como “hieróglifos” com opotencial de expressar alguma coisa para as gerações futuras.

A Royal Academy, a Royal Scottisch Academy, a Dare Gallery, o Birmingham Museum and Art Gallery e, especialmente, a Manchester Art Gallery foram outras instituições atingidas pela fúria militante. Até uma múmia egípcia teve a vitrine atacada no British Museum. Nesse caso, nem se sabe o sexo da múmia, que ficou intacta. Talvez a múmia não fosse o alvo, mas sim o fato de estar num museu britânico.

Para identificar essas mulheres e prevenir novos ataques, a Scotland Yard adquiriu sua primeira câmera fotográfica, à qual as suffragettes, fotografadas contra a vontade, reagiram com olhos fechados e bocas franzidas. Hoje, as fotos são parte do acervo da National Portrait Gallery de Londres.

Um jogo de chá nunca é apenas um jogo de chá, nota a artista visual Carla Zaccagnini, autora de uma instalação que está sendo apresentada no Masp e que o museu paulista intitulou como Histórias Feministas. Em resumo, na instalação de Carla Zaccagnini, no mezanino do subsolo do museu, aparecem os contornos das obras atacadas pelas suffragettes em dimensão real, no caso de haver a informação disponível, ou apenas com numerações. Além do campo delimitado, o visitante terá acesso a 29 áudios, para ouvirem iPods fornecidos pelo museu. Com duração entre 48 segundos e 2min59s cada, num total de pouco mais de uma hora de gravação, Carla e a escritora Noemi Jaffe se revezam narrando histórias da época, os detalhes dos ataques, as prisões, os processos, os argumentos de defesa e quem foram as mulheres que protagonizaram essas histórias, além de fornecer informações sobre a situação feminina e especular sobre as escolhas temáticas das obras atacadas. O texto e a narração são mais do que interessantes.

“Eu estava estudando crimes relacionados com a arte, vandalismo, falsificação e roubo, porque me interessavam esses momentos em que a relação com a arte vai além do que a sociedade permite”, diz Zaccagnini em entrevista. “O que temna arte que faz com que as pessoas, de repente, se incomodem tanto com uma imagem a ponto de jogarem ácido? Elas carregam uma crença naarte que me parece muito fascinante.”

Entre as histórias, Zaccagnini lembra que o cháera um produto imperial da Inglaterra, colhido por mãos coloniais. Enquanto o povão seguia a regra do milk first, servindo o leite frio antes dochá quente para não rachar a louça vagabunda, os “círculos adequados” serviam o chá primeiro como símbolo de distinção, já que sua porcelana de qualidade superior resistiria.

“Muitas das obras que elas atacaram representam mulheres, algumas são mulheres nuas, outras são mulheres em momento de oração, tocando um instrumento ou lendo. Mulheres em papéis sociais aceitos naquele momento, ou personagens mitológicos cuja existência é definida em função de um papel masculino. Imaginar que alguém entra num museu com uma faca escondidana manga, um cutelo, uma machadinha, e que daí chega na frente de uma pintura, deixe esse negócio escorregar até a mão e projete o corpo em relação a essa pintura, isso tudo tem um dado com relação ao corpo que é muito potente e queo livro Elements of Beauty (livro de artista, 2012) deixava de lado. Foi aí que eu pensei em fazer essa instalação, um desenho do espaço que esses objetos ocupariam se eles estivessem expostos aqui. Esse desenho dá a noção do volume que isso tinha. O alcance desse ato.”

Histórias Feministas/Elementos de Beleza: Um Jogo de Chá Nunca É Apenas um Jogo de Chá, Carla Zaccagnini, Curadoria Fernando Oliva, até 13/3, Museu de Arte de São Paulo (Masp), Av. Paulista, 1.578, SP

 

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