Outra dimensão

Curador Gabriel Menotti fala sobre mostra dedicada à impressão de objetos 3D e afirma que a tecnologia é tratada "como uma fonte inesgotável"

Camila Régis

Publicado em: 23/02/2016

Categoria: Da Hora, Entrevista

Nasjonalpistolen (The Gun of The Nation), de Stahl Stenslie, é uma réplica de uma pistola calibre 22. Medindo 10,3, o artefato poderia funcionar, caso tivesse sido fabricada na escala adequada (Foto: Divulgação)

Basta uma pesquisa rápida em um site de buscas para encontrar impressoras 3D disponíveis para compra. Ao alcance de quem que tiver o dinheiro necessário para investir, a tecnologia de impressões tridimensionais explodiu nos anos recentes, possibilitando o escaneamento e materialização de praticamente tudo, de dentes a carros, passando por próteses médicas e instrumentos musicais. Esse fenômeno chamou a atenção do curador e pesquisador Gabriel Menotti. Professor adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo e PhD em Media and Communications pelo Goldsmiths College, no Reino Unido, Menotti organizou APROXIMADAMENTE 800cm3 DE PLA, exposição que poderá ser vista a partir de abril na Galeria de Arte da UFES, em Vitória – e também por meios digitais através do site da 800cm3.com.

Desenvolvida para a The Wrong (again) – New Digital Art Biennale, evento voltado para arte digital, a mostra consiste em imprimir e fabricar diariamente projetos que podem ser enviados por qualquer pessoa. A iniciativa vai continuar até que a matéria-prima disponível para as impressões – uma bobina de plástico PLA, que contém aproximadamente 800cm3 do material, que dá nome à exposição – acabe. Entre variações de escalas e deformações, os artigos impressos estão criando um gabinete de curiosidades que inclui esculturas geradas algoritmicamente, personagens de desenho animado, tomografias computadorizadas, e modelos tridimensionais de latas de lixo, feitas por mais de 30 artistas de todo o mundo.

Em entrevista exclusiva à seLecT, Menotti falou sobre o uso que se faz da técnica, a relação entre a impressão 3D e a imaterialidade do meio digital, e a ilusão da tecnologia com fonte inesgotável.

Primeiro, quero que você me conte como surgiu a ideia para a exposição.
Acredito no potencial das chamadas de trabalho como gatilho para processos curatoriais. É um modo do curador se abrir a referências em vez de tentar capturá-las a partir do seu repertório e campos de contato imediatos. A princípio pode parecer uma estratégia cômoda ou cínica, como outras formas de crowdsourcing, em que se bota os outros para fazerem o trabalho por você. Mas, se buscamos estabelecer cumplicidade com os diversos colaboradores que respondem ao apelo da chamada, ela pode se tornar uma maneira de superar os próprios pressupostos e ir além dos limites de conhecimento que julgamos definitivos. Nessa época em que os algoritmos de gerenciamento de conteúdo constroem filter bubbles cada vez mais impermeáveis, me parece crucial deixar-se encontrar pelo inesperado.

APROXIMADAMENTE 800cm3 DE PLA busca empregar tecnologias de fabricação digital fora das suas zonas de ação tradicionais, testando seus limites contra idiossincrasias de certos campos estabelecidos para a atuação e conhecimento humanos. Na exposição, o campo explorado é o sistema da arte, e o que está em questão é a escassez da matéria e a materialidade do processo de reprodução. Como o próprio nome indica, o projeto toma como ponto de partida o plástico, matéria-prima dos tipos mais populares de impressão 3D. Mais precisamente, uma quantidade restrita de plástico, uma bobina de alimentação padrão. Por meio da impressão, essa bobina pode se tornar uma infinidade de coisas – mas isso não quer dizer que ela dure para sempre, ou que possa ser infinitamente reciclada.

Pode parecer óbvio, mas a materialização necessita de matéria, que é escassa, que demanda energia para ser transformada. O discurso corrente sobre fabricação digital parece ignorar esse fato e tratar a tecnologia como uma fonte inesgotável de originalidade e abundância. É um eco da ilusão de imaterialidade que as mídias digitais nos prometiam uma década atrás. Hoje percebemos claramente que as redes de computador tem seus ônus ambientais e socio-econômicos, e com a impressão 3D não poderia ser diferente. Isso é particularmente relevante no contexto brasileiro, no qual essa tecnologia ainda é bastante cara e restrita. Um rolo de PLA custa proporcionalmente dez vezes mais aqui do que no Norte geopolítico, de onde vem um modelo de “cultura maker” para o século XXI que adotamos sem questionar muito. Ao restringir a quantidade de material disponível para o uso, APROXIMADAMENTE 800cm3 busca evidenciar e trabalhar essas contradições, nos incitando a ser mais responsáveis sobre a maneira como usamos e pensamos a tecnologia. O que é possível fazer com tão pouco?

Porque o interesse na temática das impressões 3D?
O interesse na impressão 3D surgiu, na verdade, do interesse no escaneamento 3D, uma tecnologia da década de 1990 que parece ter atingido um patamar crucial do seu desenvolvimento de um par de anos para cá. Ela não só cresceu em precisão como também se tornou extremamente acessível. O uso de processos baseados em fotografia digital, implementados em softwares livres / freeware e até aplicativos para celular (como 123D Catch, da Autodesk), tornou a virtualização de objetos e espaços extremamente simples de ser realizada. Esse desenvolvimento parece estar ligado ao grande avanço da indústria da fabricação digital nos campos da medicina protética e da preservação de bens culturais, que dependem de uma alta correspondência geométrica dos modelos fabricados com os seus referentes reais.

Esse potencial mimético, aliado ao emprego da tecnologia em campos notadamente “sérios”, tem colaborado para disseminar uma outra ilusão a respeito da impressão 3D, relacionada à sua capacidade de não apenas mediar, como até de substituir o real. É uma ilusão reminiscente da mística da “homologia automática”, que Arlindo Machado identificou na nossa relação com a fotografia. Como a princípio não parece haver nenhuma intervenção humana na captação do modelo, a tecnologia de replicagem 3D parece operar como um canal neutro por onde a realidade se deixa reproduzir. Encarada como um efeito direto do objeto escaneado, a réplica virtual ganha estatuto de documento. Ao se atualizar por meio da fabricação 3D, ela dá uma espécie de salto ontológico, passando de um isto-foi para um isto-é. É por isso que ela tem uma grande capacidade de interfaceamento técnico e pedagógico. Por outro lado, isso também pode causar bastante confusão. Aquilo que faz da réplica 3D uma peça eficiente também a torna um simulacro perigosamente sedutor. Tomamos a produção da semelhança pela realização do próprio real. Mas ora, basta prestar um pouco mais de atenção na réplica 3D para perceber que ela não é o seu “original”, mas sim, literalmente, uma imagem.

Outra consequência controversa do efeito de real da replicagem 3D é a articulação dessa prática na preservação ou reescritura da história a partir da sua capacidade de refazer e reelaborar artefatos. Existem vários projetos artísticos que aderem a essa ideia, aplicando a tecnologia em algum tipo de narrativa épica, como a recuperação de monumentos destruídos por estados párias ou usurpados pelos grandes impérios de outrora. Um problema desses projetos é que corroboram o mito do protagonismo da tecnologia, emprestando a ela uma aura de reverência que beira o fetichismo. O outro é que reforçam classificações estabelecidas de valor cultural, segundo as quais existem alguns objetos que merecem ser materializados, ou cuja preservação merece ser disputada, a despeito de outros. APROXIMADAMENTE 800cm3 DE PLA busca questionar esse pressuposto ao disponibilizar a tecnologia para a produção de absolutamente qualquer coisa que seja submetida ao projeto, na base de o que chegar primeiro. Desse modo, tentamos abrir uma brecha na hierarquia museográfica para aquilo que é infraordinário, menor, mundano, recuperando a noção de curiosidade como princípio norteador da exposição.

Tom Burtonwood enviou o scan de uma lata de lixo de Huddersfield, cidade no nordeste da Inglaterra. A réplica ficou com 9.2cm (Foto: Divulgação)

Tom Burtonwood enviou o scan de uma lata de lixo de Huddersfield, cidade no nordeste da Inglaterra. A réplica ficou com 9.2cm (Foto: Divulgação)

O texto sobre a mostra diz que “objetos virtuais estão sendo selecionados a partir de uma chamada aberta e fabricados diariamente, com uma quantidade fixa de material”. Como funciona esse processo de seleção? Fabricados onde e como?
A chamada está sendo divulgada principalmente online, em grupos envolvidos com modelagem e escaneamento tridimensional. Os modelos podem ser enviados para o email 800cm3@gmail.com. A seleção está sendo bastante abrangente. A maior parte dos modelos enviados é impresso, a menos que haja algum problema técnico que inviabilize o processo.

A fabricação dos objetos está acontecendo no Baile, uma espécie de laboratório de arte e comunicação do departamento de comunicação da UFES que foi um dos pavilhões da bienal de artes digitais The Wrong (Again). Os objetos eram impressos diariamente e ficavam à mostra em um armário de equipamentos do laboratório, que foi convertido em um literal “gabinete de curiosidades” pela duração da exposição. Com o fim da The Wrong em janeiro, a mostra entrou em suspensão para voltar em abril na Galeria de Arte da UFES. Ainda estou vendo se será viável mover a impressora e toda a estrutura de fabricação para a galeria, pela duração da exposição por lá. Se não, a fabricação continuará acontecendo no Baile, e os modelos serão levados de lá para a galeria diariamente.

Entre os objetos que já foram impressos, algum te surpreendeu? Qual?
O que me surpreende de fato é a variedade do que foi enviado. Tem modelos de todos os tipos, inclusive alguns que pareciam querer abusar da dinâmica do projeto para gerar atritos. Lembro que fiquei impressionado como alguns dos primeiros modelos recebidos eram de dejetos, de coisas destruídas ou rejeitadas. Teve scans de lata de lixo, de ruínas e até das fezes do próprio artista. Pode ser que a intenção de quem mandou tenha sido provocar, mas também pode ser que essas pessoas tenham aproveitado a permissividade do projeto para verem fabricadas coisas que, em outro contexto, não teriam valor nem motivo para serem feitas.

A mostra ainda está recebendo propostas de modelos de impressão?
Sim, até o plástico acabar. Atualmente estamos na metade do rolo. A mostra entre em cartaz novamente a partir de abril na Galeria da UFES, sem data definida para terminar. Mas o projeto continua: os modelos que forem recebidos até lá vão entrando na nossa fila de impressão, para serem produzidos durante esse próximo capítulo. Os modelos que já foram fabricados também estarão nessa segunda exposição, e atualmente podem ser vistos no site 800cm3.com.

Serviço
Galeria de Arte UFES
Universidade Federal do Espírito Santo
Avenida Fernando Ferrari, 514 – Goiabeiras, Vitória
A partir de abril e sem data para encerramento

 

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