Pela aventura

Em entrevista à seLecT, a física Marcia Barbosa fala sobre ser mulher na ciência e afirma que "cultivamos a imagem de que homens são os que detêm o conhecimento"

Camila Régis

Publicado em: 29/02/2016

Categoria: Da Hora, Entrevista

Marcia Barbosa, diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Foto: Julian Dufort para Lóreal Foudantion)

Marcia Barbosa é um nome importante para a ciência nacional. Além de ser diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a física especializada em fluidos complexos é também membro da Academia Brasileira de Ciências e dos Conselhos da Sociedade Brasileira e Americana de Física. O currículo robusto e a trajetória bem-sucedida não foram o bastante para que a pesquisadora passasse imune por comentários machistas (“você está muito bem posicionada na carreira para uma mulher”) em um contexto dominado por homens: as ciências exatas. O sexismo da área incentivou Marcia a pesquisar como se configura o cenário nacional para cientistas brasileiras a partir da análise de dez anos de bolsistas do CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Em entrevista exclusiva à seLecT, Marcia falou sobre ações afirmativas, direitos trabalhistas e como pais privam meninas, mas não meninos, de aventuras juvenis que podem estimular o interesse pela ciência.

Parece que muitos sabem quem foi Isaac Newton ou Albert Einstein, mas poucos lembram de nomes como Rosalind Franklin ou Marie Curie quando se pensa em grandes cientistas. Se isso ocorre de fato, qual é o motivo?

Mulheres são pouco lembradas como cientistas por diversas razões. Somos poucas na ciência. Na área de física no Brasil são 5% de mulheres no topo, o que é muito pouco. Isto justificaria em parte, mas somente em parte, a ausência de figuras femininas como exemplo. Outro fator é que vivemos em uma sociedade dominada por homens, portanto todos os perfis de sucesso são masculinos. As propagandas que querem mostrar pessoas poderosas e de sucesso, mostram homens. Cultivamos a imagem de que homens são os que detêm o conhecimento. Em resumo no construto social, mesmo quando exercendo a ciência, as mulheres são relegadas a uma posição coadjuvante. O mesmo ocorre em outras profissões, mas como na ciência as mulheres são uma minoria esmagadora, elas ficam na penumbra.

Qual o impacto da ausência de mulheres nas pesquisas científicas?

O impacto é enorme novamente por três motivos:
1 – A ciência precisa de mulheres. Hoje ciência se faz com diversidade. Os grandes grupos de altas energias, que descobriram o Bóson de Higgs, são uma mistura cultural e o avanço científico foi alimentado por essa diversidade. O Cern (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, maior laboratório de física do mundo e responsável pelo acelerador de partículas LHC, que descobriu o Bóson) é agora dirigido por uma destas mulheres, a italiana Fabiola Gianotti.
2 – A sociedade precisa de mulheres na ciência. A presença feminina faz com que as jovens possam se interessar por ciência e assim ampliamos o espectro de cientistas em potencial para 100% da população. Ao excluirmos mulheres estamos reduzindo em 50% as possibilidades de ter as melhores mentes para resolver os problemas.
3 – As mulheres precisam ver mulheres na ciência. Uma profissão sem mulheres passa uma mensagem para as jovens de que aquele não é um lugar para elas e, em um mundo tecnológico, ciência tem que ser o local para todos.

Em um texto de 2003 da revista da Fapesp, sobre a formação do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, foi dito que a respeito de cientistas mulheres: “Mas, como entraram só mais recentemente nesse universo, são minoria entre os pesquisadores mais titulados e, portanto, recebem menos recursos para bolsas e auxílios que exigem maior experiência e títulos. E são quase invisíveis em cargos de direção de centros e institutos de pesquisa ou de gestão de política científica e tecnológica. A Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, tem cerca de 10% de mulheres em seus quadros.” Esse cenário mudou no Brasil, nos últimos 10 anos?

A ideia de que para as coisas melhorarem basta esperar é falsa. Analisei dez anos de bolsas do CNPq e em dez anos NADA mudou. Olhei duas áreas, física e medicina. Os percentuais de bolsistas de 1A, 1B, 1C , 1D e 2 nestas duas áreas muito competitivas não mudaram. No entanto, em países onde existe uma política de ação afirmativa o percentual se ampliou. Se não se faz nada, nada acontece. Felizmente o CNPq fez algo. Hoje bolsistas de mestrado, doutorado e de produtividade em pesquisa tem acesso a uma licença maternidade caso tenham filho durante a bolsa. Esta medida é muito positiva. Além disso, o CNPq tem um programa, Promovendo a Igualdadede Gênero, que procura identificar barreiras e ressaltar biografias de mulheres de destaque. Finalmente, o órgão também elaborou verbetes sobre as nossas precursoras na ciência. São medidas incipientes, mas que demostram a preocupação dos gestores com a questão de gênero.

Mesmo nos dias de hoje, estudantes mulheres ainda se sentem inibidas em relação a seguir uma carreira na ciência? As razões que impediam que mulheres estudassem no passado ainda apresentam reflexos na atualidade?

Fico surpresa não por serem poucas a buscar a carreira científica, mas com o fato de existir alguma mulher interessada. Ainda jovens, pais afastam as meninas, mas não os meninos, de qualquer “aventura” juvenil que signifique perigo, agressividade ou sujeira. Ciência é risco, necessita agressividade e normalmente faz sujeira. As meninas são presenteadas com brinquedos pouco dinâmicos e criativos. Na adolescência ciência é associada com falta de feminilidade. Afastamos nossas jovens da ciência e ficamos surpresos como número pequeno de estudantes de física do sexo feminino.

Quais os principais fatores você apontaria para explicar a disparidade entre os gêneros nos campos do conhecimento científico?

Os obstáculos começam pela sociedade e continuam no meio acadêmico que interpreta a maternidade como uma questão do indivíduo e não como uma questão de Estado. A mulher com filho pequeno deve continuar a produzir da mesma forma que uma mulher sem o filho. Isso simplesmente não é possível.

No Brasil, existem cientistas mulheres que, ao longo dos anos, não tiveram o reconhecimento merecido? Quais você apontaria?

Tivemos muitas mulheres importantes e que não tiveram o reconhecimento. Na área de física, a Comissão de Relações de Gênero, da Sociedade Brasileira de Física escreveu um livro com a biografia destas precursoras. Entre as histórias maravilhosas está a de Alice Maciel da UFRGS que foi a primeira pessoa a realizar no Brasil um experimento de correlação angular. Foi pesquisadora no sul por muitos anos e aposentou-se cedo. Não sei se ela não teria ficado mais tempo na pesquisa se tivesse recebido maior reconhecimento em seu tempo.

Vendo um cientista como profissional, qual é o cenário para mulheres no sentido de plano de carreira, salários e maternidade?

Hoje existe licença maternidade para as bolsistas de doutorado. No entanto, o programa de pós-graduação é “punido”, pois o fato uma bolsista demorar mais tempo para terminar o doutorado reflete negativamentena avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A Capes precisa mudar esta política urgentemente.

Você já sofreu algum tipo de preconceito no ambiente de trabalho relacionado ao seu gênero?

Eu já sofri diversas formas de preconceito. Desde comentários do tipo: “você está muito bem posicionadana carreira para uma mulher” até sugestões de que uso o fato de ser mulher para ganhar discussões ( “o seu perfume atrapalhou o meu raciocínio, por isso perdi a discussão”).

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