Quando o mundo deixará de ser machista?

Maria Rita Kehl, Elaine Robert de Moares e Noemi Jaffe respondem à pergunta feita pela #select28

Maria Rita Kehl (Foto: Damião A. Francisco/CPFL Cultura)

Desde as primeiras batalhas feministas, em meados do século 20, muita coisa mudoupara as mulheres do mundo ocidental. Direito ao voto, acesso ao mercado de trabalho, emancipação e possibilidade de constituição de uma vida independente. Mas ainda há muito por fazer. As mulheres continuam sendo menos contratadas para altos cargos e ganham menos que seus correlatos masculinos. Um estupro é cometido a cada 11 minutos no Brasil, considerando só os casos denunciados. A agressão doméstica segue uma realidade, e 50,3% dos assassinatos de mulheres no País são cometidos por familiares, dos quais 33,2% são seus companheiros ou ex. Diante desse quadro, especialistas respondem a uma questão que continua na pauta do dia.

Eliane Robert de Moraes
Professora de literatura brasileira na USP, publicou diversos ensaios sobre o imaginário erótico nas artes e na literatura e organizou a a Antologia de Poesia Erótica Brasileira (Ateliê, 2015)
O mundo deixará de ser machista quando nós, mulheres, formos todas respeitadas. O mundo deixará de ser machista quando formos todas respeitadas nos espaços privados e nos espaços públicos. Todas, sem exceção: as que usam biquíni e as que usam burca. E também as que usam outras vestimentas. E ainda as que preferem não usar nada. O mundo deixará de ser machista quando as mulheres usarem biquínis ou burcas ou qualquer outra vestimenta ou mesmo nada por desejo próprio. E o mundo esquecerá que um dia terá sido machista quando o respeito dos homens e das instituições pelas mulheres for não mais uma obrigação, mas um desejo de todos. Todos, sem exceção. Vai ser festa.

Elaine Robert de Moraes (Foto: Divulgação)

Elaine Robert de Moraes (Foto: Divulgação)

Noemi Jaffe
Escritora, professora e crítica literária
Penso que um dos sintomas mais claros e talvez menos explorados do machismo atual – especificamente do machismo brasileiro – seja a existência tão naturalizada das empregadas domésticas. Por que elas continuam existindo e por que são todas mulheres? Por que as mantemos? Por um lado, as mulheres que assumem esse trabalho o fazem, em sua maioria, porque não tiveram acesso suficiente ao estudo e isso porque engravidaram cedo demais, foram abandonadas pelos maridos, precisaram ajudar a sustentar a família etc. E, além disso, mantêm o emprego porque precisam sustentar a casa sozinhas, não têm com quem deixar os filhos, não podem continuar ou começar os estudos. E nós, que as empregamos, também o fazemos porque não temos condições de cozinhar, limpar a casa e trabalhar, e, muitas vezes, não temos com quem deixar nossos filhos. Além do mais, muitas não têm ajuda dos companheiros para executar as tarefas domésticas. É um círculo vicioso perverso e cômodo. Penso que o Brasil e o mundo serão melhores quando essa profissão não existir mais ou, se continuar existindo, que seja altamente profissionalizada, bem paga e praticada por homens e mulheres.

Noemi Jaffe (Foto: Divulgação)

Noemi Jaffe (Foto: Divulgação)

Maria Rita Kehl
Psicanalista
1. Resposta darwiniana: quando houver muito menos mulheres que homens no mundo e cada um deles perceber que, na concorrência pela nossa atenção, os machistas não terão vez.
2. Resposta freudiana: quando os homens se curarem dos sintomas infantis da angústia de castração e entenderem que ter ou não ter pênis não confere nem mais nem menos valor a ninguém.
3. Resposta marxista-leninista: quando as mulheres enfrentarem os desrespeitos vindos dos pais, maridos, filhos e patrões, conscientes de que nada têm a perder a não ser os seus grilhões.

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