A arma mais potente

Paula Alzugaray

Publicado em: 27/07/2015

Categoria: Reportagem, visuais

Desordem de um mundo em conflito é o grande tema da Bienal de Veneza, que faz 120 anos e tem, pela primeira vez, um curador africano na direção artística   

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Legenda: Forbidden fruit picker (2015), de Wangechi Mutu.

O curador africano Okwui Enwezor oferece ao público da 56ª Bienal de Veneza uma série de filtros para ver o mundo e “questionar a aparência das coisas”. Eles são vários, sutis e sobrepostos mas, ao menos, dois podem ser discernidos: a vivacidade e a desordem. Sob o conceito da vivacidade reúnem-se os trabalhos incompletos, performáticos, em processo de realização ao longo da mostra. Entre eles, “Das Kapital”, projeto que consiste na leitura e interpretação diária do livro de Karl Marx, até 22 de novembro. Já sob o filtro da desordem aparecem as obras realizadas à luz dos conflitos regionais, das desfigurações territoriais e geopolíticas, de relações humanas corrompidas por valores bélicos e militarizados.

A primeira sala do Arsenale – estaleiro que teve papel central na construção do poder naval de Veneza e hoje é sede da principal exposição curatorial da Bienal de Veneza, “All the Worlds Futures” (Todos os Futuros do Mundo) – é um statement desse estado belicoso das coisas. Reúne neons de Bruce Nauman (anos 1970) e a instalação “Nymphéas” (2015) do algeriano Adel Abdessemed, que se adequa perfeitamente à imagem figurada de um “jardim da desordem”, um dos filtros de Enwezor. Trata-se de uma coleção de esculturas fabricadas com facões e peixeiras, no formato de plantas rasteiras. Outro autor que explorou com maestria as estéticas da guerra é o alemão Harum Farocki, falecido no ano passado, que e é homenageado aqui com um “Atlas” composto por 87 de seus filmes.

Na crítica ao belicismo, há muito pessimismo e melancolia, mas também há saídas sugeridas. Na maior parte das vezes, por intermédio da música e da experimentação sonora. Nesta que é a curadoria com a maior frequência de artistas africanos e procedentes de países não ocidentais da história dos 120 anos de Bienal de Veneza, entendemos o mundo como um contingente dividido entre duas artilharias: as armas e os instrumentos musicais. “A música é a arma mais potente”, diz a letra de canção executada por conjunto africano em vídeo instalação da dupla Carsten Höller & Mans Mansson.

Outros artistas que propõem saídas musicais aos problemas do mundo são o francês Christian Boltanski, que escapou de seu tema preponderante – a morte e a memória – para encantar os sentidos com “Animatas” (2014), uma instalação sonora montada no deserto do Atacama, no Chile, com pequenos sinos que são tocados pelo vento. Uma das obras mais lindas de toda a exposição. Com sinos também trabalha o iraquiano Hira K., em “The Bell” (2007–2015), uma tocante videoinstalação documental em dois canais que explora como iraquianos recuperam o metal de bombas detonadas para produzir sinos. Um exemplar fica disponível para o toque do público, que pode assim rivalizar com a potencia sonora do centenar de igrejas da laguna veneziana.

Com 136 artistas de 53 países, a 56ª edição traz, por um lado, um improcedente número de 159 trabalhos realizados especificamente para o evento. Por outro, faz pequenas perspectivas históricas de cineastas como Sergei Eisenstein e Chris Marker e traz trabalhos novíssimos do veterano Georg Baselitz. Seguindo uma tendência bastante contemporânea entre as bienais, esta não é uma edição composta só por artistas visuais, mas também por pensadores, escritores, compositores, coreógrafos, cantores e, especialmente, músicos.

All the Worlds Futures – 56ª Bienal de Veneza, Itália/ até 22/11.

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