A arte como antídoto para a cidade sitiada

Pintura de Velázquez e gravura do século 17 tematizam o cerceamento de cidades e fazem pensar em que cidade queremos depois da pandemia

Christian Dunker

N° Edição: 47

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: A Revista, Colunas Móveis, Destaque

A Rendição de Breda (c1636), de Velázques (Foto: Picasa Review Bot / Creative Commons)

Muito antes da modernidade, a experiência do cerco fazia parte da experiência daqueles acometidos quer pela peste, quer pela guerra. A Rendição de Breda é a única tela de Velázquez que tem por assunto um fato histórico. Entre 1622 e 1625, os espanhóis, liderados por Spindola, cercaram a cidade holandesa de Breda, defendida heroicamente por Justino de Nassau. A tela retrata o momento no qual o líder dos Países Baixos vai se ajoelhar para entregar a chave da cidade, agora rendida, mas é delicadamente impedido pela mão do espanhol, que reconhece, dessa maneira, a bravura dos resistentes habitantes daquela cidade. Nem toda perda é uma derrota.     

Alexandria (30 a.C.), Jerusalém (70 a.C., 1099, 1187), Constantinopla (1204), Lisboa (1147), Veneza (1797) e Stalingrado (1942) são exemplos de cercos que marcaram a história da arte, da poesia e da literatura. Uma gravura de 1671, de autor desconhecido, hoje em Amsterdã, retrata o fim do cerco dos portugueses contra as tropas de João Maurício de Nassau, da mesma casa de Orange, à qual pertencia o líder da resistência em Breda. Disposta em cinco planos e duas perspectivas não complementares, a gravura retrata: a cidade alta, perfeitamente murada; a cidade baixa, com paliçada incompleta; ocas indígenas, ao lado de uma guarnição de negros com espetos, no alto dos quais pendem cabeças holandesas; um confronto entre massas difusas, indígenas e, em primeiro plano, o confronto entre portugueses empunhando mosquetes contra mamelucos armados com uma espécie de facas. Ao longe, quase que a olhar tudo isso com distância há um navio da Companhia das índias Ocidentais atracado na marina. Aqui a perda é uma derrota, mas, quando a arte faz testemunho desse acontecimento, ela se torna antídoto potencialmente transformativo. 

Gravura de autor desconhecido (1671) (Foto: Reprodução)

No canto esquerdo da tela de Velázquez vemos um pequeno espaço em branco, reservado para uma assinatura que nunca veio a acontecer. Sem os historiadores da arte, a tela do espanhol permaneceria anônima, como a gravura do holandês. Se o assunto do fim do cerco é o mesmo, o tema parece diferente: o reconhecimento mútuo no primeiro e a desumanização dos perdedores no segundo. As imagens assuntam, ou seja, interpelam o nosso olhar de modo diverso: humildade de quem olha de baixo para cima, no primeiro caso; arrogância de quem olha de cima para baixo, no segundo. As duas imagens impõem uma temporalidade diferente ao olhar: concêntrica pivotante, rumo ao encontro central no primeiro; distribuída, periférica e elíptica no segundo. Como se pudéssemos apreender tudo de uma vez, se captamos a essencialidade do centro, deduzindo a lógica subordinativa e espiralada em Velázquez e tivéssemos de impor uma sucessão e um deslocamento do olhar em busca de totalidade, no caso da gravura de Pernambuco. 

Há tempos tenho me perguntado, como psicanalista, mas também como aprendiz de curador, em museus e exposições, como certos encontros com a arte tornam-se tão produtivos e transformadores, para determinados pacientes, e por que outros tantos, ainda que expostos a doses regulares de cultura e repertório, parecem tornar-se mais sábios, mas ainda assim pouco capazes de usar a arte de modo “terapêutico”. A expressão é deveras herética porque a arte não deveria ser mais nem menos terapêutica, nem educativa ou moral, muito menos serva de narrativas políticas ou históricas. Em certo sentido, a experiência com a arte começa quando nos separamos da obsessão com sua eficácia e utilidade e passamos para uma experiência que tem a peculiaridade de ser definida pelos seus próprios termos.    

Contudo, conseguir apreender a experiência em seus próprios termos é uma operação necessária para outra operação, talvez homóloga, ou seja, a transformação ética que esperamos de uma psicanálise. Isso não tem uma relação necessária com as virtudes da expressão, nem com as regras da representação de si, do outro e do mundo. A cidade que queremos depois da pandemia é também o olhar que pudermos construir e a história que poderemos contar sobre o cerco que vivemos. Se o cerco é o confronto de cada um com seus muros, o antídoto pode passar pelas janelas da arte.

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