A artista, o confeiteiro e o canteiro de obras

Débora Bolsoni associa construção civil e confeitaria, apontando para questões de gênero, gosto e classe implícitas nesses materiais

Leandro Muniz

N° Edição: 46

Publicado em: 16/03/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Portfólio

Detalhe de Duas Ladeiras (2000) de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)

Um quebra-molas feito de paçoca, pipocas de cerâmica espalhadas pelo chão ou sopa de beterraba servida fria em cumbucas de alumínio, durante a abertura da exposição. A comida – diretamente ou suas representações – é assunto recorrente nas obras de Débora Bolsoni. Na série Baldios (iniciada em 1999, em processo), o assunto ganha um sabor especial: Bolsoni cria esculturas nas quais cimento e azulejos são formalizados como peças de confeitaria. O resultado, além das analogias entre os materiais, embaralha lugares sociais de gênero e coloca em questão a relação entre gosto e classe social.

Bolo (1999) da Série Baldios de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)

Sobre uma pilha de brita, a artista aplica massa corrida com bico de confeitar, formando um desenho em forma de espiral, em alusão ao Spiral Jetty (1970), do artista norte-americano Robert Smithson; uma esfera revestida de ladrilhos é apoiada sobre base de terra; ou ainda, dois blocos de tijolo baiano são recobertos por camada de cimento e decorados com caquinhos. Mestre em Artes Plásticas pela USP, em 2013, Débora Bolsoni cresceu no subúrbio do Rio de Janeiro, entre a paisagem natural e o ambiente de construções inacabadas e contínuas, características das regiões periféricas das grandes cidades do País. Esses contextos se refletem no caráter simultaneamente empírico e reflexivo de sua produção.

  • Quebra-mola De Paçoca (2007) de Débora Bolsoni em processo de produção (Foto: Cortesia da artista)
  • Duas Ladeiras (2000) de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)
  • Afresco Circulatório (2012) de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)
  • Pedra Roseta (2008) da Série Baldios de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)
  • Pipocas (2008) de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)
  • Spiral Jetty (2019) da Série Baldios de Débora Bolsoni (Foto: Julia Thompson)

Bolsoni cria analogias entre a massa de concreto e a massa de confeiteiro, os materiais de revestimento de parede e os de cobertura de bolos, assim como aqueles usados puramente para decoração, indicando o gosto – tanto no sentido de paladar quanto no de predileção – que esses materiais carregam. Esses jogos de linguagem estabelecem uma lógica interna para o trabalho e indicam reflexões sobre a vida cotidiana, seus condicionamentos sociais e políticos.

Gosto médio
“Uma referência para mim é o livro Invenções do Cotidiano, de Michel de Certeau, no qual ele pensa em nichos de discursos. Isso veio em um momento em que eu tentava entender o saber e fiquei considerando os saberes dos meninos, os saberes das meninas etc.”, conta Bolsoni à seLecT. “Construção familiar, culinária e comércio também esbarram nas questões de masculino e feminino. Eu sou uma mulher trabalhando com materiais de construção, Makita, concreto, azulejo, e isso não é recorrente. É uma constatação banal, é ridículo, mas é um fato.”

A artista Débora Bolsoni durante a produção da obra Quebra-mola De Paçoca (2007) (Foto: Cortesia da artista)

Além do embaralhamento entre signos de masculinidade e feminilidade, os Baldios confundem códigos da história da arte com a doceira e o canteiro de obras, indicando também uma leve crítica aos processos da construção civil, afinal, os revestimentos cerâmicos comprados nos museus de azulejos carregam histórias da construção civil e de demolições. Com as mudanças de gosto que acompanham os movimentos da especulação imobiliária e a consequente destruição da memória, os azulejos decorados de 15 x 15 cm foram substituídos por pastilhas, por exemplo. Algo parecido acontece com a comida, com o que entra e sai da moda e do gosto médio.

Entre os trabalhos análogos aos Baldios, podemos mencionar o Buffet de Ficção (2002). Em uma das sobrelojas do Edifício Copan, com os colegas do Olho SP – grupo de pesquisa e produção coordenado por Sônia Salzstein junto aos alunos do Departamento de Artes Plásticas da USP, com participantes como Ana Luiza Dias Batista, Rodrigo Matheus e Laura Andreato –, Bolsoni apresentou um canteiro de obras comestível. Barrinhas de pés de moleque e geleia de mocotó formavam uma espécie de azulejaria, pães de diversas colorações foram assados em formato de elementos vazados e tijolos e, durante a abertura da exposição, bebia-se batida de tamarindo servida dentro de uma caixa d’água – o que dava à bebida aparência de água turva.   

O coquetel-obra Buffet De Ficção (1999) de Débora Bolsoni (Foto: Cortesia da artista)

O olhar para esses materiais, configurações e usos – e a apresentação deles no codificado sistema da arte – é uma forma de dirigir a atenção para aquilo que está nas margens, como questionamento da cultura oficial. Também há uma boa dose de provocação no gesto de Débora Bolsoni, ao mostrar aquilo que está no avesso das construções, ainda incompleto, inacabado, em contraste com as paredes brancas das galerias e o chão de cimento queimado dos museus.

O interesse por objetos e experiências vernaculares é um dos núcleos da obra de Bolsoni, em geral com atenção a “saberes materiais” que não são considerados no universo das artes plásticas, ainda que sejam dominantes nos usos cotidianos do cidadão médio. Se os Baldios podem assumir múltiplas escalas, materiais e formas, ultrapassando qualquer aprisionamento em um “estilo”, podemos dizer que um dos modus operandi centrais da produção de Bolsoni é associar os usos sociais dos materiais, as posições das esculturas no espaço e seus sentidos linguísticos, gerando uma reflexão simultaneamente crítica e bem-humorada. Um deleite para os olhos, para a boca e para o pensamento.

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