A beleza será convulsiva

Paula Alzugaray

Publicado em: 06/01/2013

Categoria: Ensaio, Reportagem

Se a fotografia – em forma de notícia – torna seu objeto mais “real” para quem está longe, não raro uma catástrofe vivenciada de perto se assemelhará, de maneira misteriosa, à sua representação

Beleza_convulsiva

No fim dos anos 1960, a revista francesa Paris Match tornou-se o carro-chefe do fotojornalismo mundial e seu slogan prometia: “O choque das fotos, o peso das palavras”. Esse foi o ápice de uma fórmula consagrada pela Life no pós-guerra, em que a foto grafia mandava no texto.

Isto é, em que o texto servia como “ilustração” para a imagem. Mas todas as fotos esperam sua vez para ser explicadas ou deturpadas por suas legendas. Em muitos casos, a reação do leitor depende de como a imagem é identificada (ou falsamente identificada), observou Susan Sontag em seu último livro (Diante da Dor dos Outro), publicado em 2003, no qual analisou as oportunidades oferecidas pela vida moderna de ver – à distância, por meio da fotografia – a dor de outras pessoas.

Sontag argumentava que fotografias de guerras e desastres, por mais que virem o estômago ou partam corações, não falam por si mesmas. Elas precisam de legendas para que leituras equivocadas, recordações enganosas e novos usos ideológicos não se produzam. Ainda assim, quando se refere à coleção de fotografias amadoras que foram expostas em Nova York logo após o atentado do World Trade Center, ela arrefece: para ver as fotografias dos detritos na exposição Nova York é Aqui, o público não tinha necessidade de legendas.

Vinte e cinco anos antes, o artista Antoni Muntadas afirmou que uma imagem jornalística não precisa de uma legenda, mas de muitas. Se uma fotografia tem um ponto de vista, a legenda lhe confere outros. Esse é o subtexto da obra On Subjectivity: The Best of Life (Sobre a Subjetividade), em que o artista desafiou a objetividade de legendas tradicionalmente neutras e informativas, ao confrontar uma série de fotografias apropriadas da Life com comentários criados por colaboradores do trabalho. Alguns anos depois, a cineasta Agnès Vardá criou um programa para a televisão francesa intitulado Une Minute Pour Une Image (Um Minuto para uma Imagem).

Tratava-se de um minuto de transmissão de uma imagem com um comentário em off, provindo de um convidado, que poderia ser um escritor, um fotógrafo ou um feirante. Os comentários provocados pelos trabalhos de Muntadas ou de Vardá vieram na forma de análises, críticas, citações, mas também de invenções. Negando-se a descrever, para atestar a “realidade” da imagem, essas legendas eram releituras que abriam possibilidades ao imaginário.

Mas muito antes da Paris Match, de Muntadas, de Vardá e de Sontag, André Breton havia desafiado a literatura descritiva inventando uma narrativa baseada no choque e no acaso. O surrealismo tem seu primeiro grito na frase final do romance Nadja, de 1928: a beleza será convulsiva ou não será.

Se a fotografia – em forma de notícia – torna seu objeto mais “real” para quem está longe, continua Sontag, não raro uma catástrofe vivenciada de perto se assemelhará, de maneira misteriosa, à sua representação. Por isso, o atentado das Torres Gêmeas foi classificado de tão irreal – ou surreal – quanto um filme, por quem estava lá. O atentado ao WTC, a última catástrofe de dimensões multimidiáticas analisada por Sontag em seu livro, é o ponto de partida deste ensaio visual, que pontua fatos que beiraram a ficção, ocorridos nesses primeiros dez anos do século 21. A eles incorporamos o exercício proposto por Muntadas e Vardà.

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Destruição em câmera lenta

O aviso veio no fim dos anos 1990, mas os Estados Unidos não se sensibilizaram, se negaram a assinar o Protocolo de Kyoto e sua indústria de cinema seguiu investindo pesado em filmes sobre a iminência do fim do mundo, precipitado por desastres naturais. No filme 2012 (acima), o membro de uma equipe de pesquisadores descobre que o centro da Terra está superaquecido e que o fim está próximo. Entre geleiras derretendo e placas tectônicas se deslocando, a subjetiva de um jato que avança em direção às duas torres, já em desabamento. Até o dia 11 de setembro de 2001, o fim do mundo americano era coisa de cinema…

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Fim de Semana Pirotécnico

Família sai para curtir o domingo na cidade de Amuay, na Venezuela, mas, em vez de sol, é aquecida por uma bola de fogo expelida pela explosão de uma refinaria de petróleo (acima). No passeio bucólico sob a luz de explosivos, no lugar de ar puro, as pessoas aspiram óleo queimado. Desastres dessa magnitude têm, afinal, um efeito nostálgico, evocando a lembrança dos singelos filmes de ação – do gênero Transformers – que acalentaram nossa mais tenra infância.

*Publicado originalmente na edição impressa #8.

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