A boca que fala, a boca que engole

Matéria e palavra interagem e se perturbam nas obras de Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Lygia Pape e Lenora de Barros

Ana Abril

N° Edição: 46

Publicado em: 20/04/2020

Categoria: A Revista, Curadoria, Destaque, Reportagem

Still do vídeo No País da Língua Grande, Dai Carne a Quem Quer Carne (2006), de Lenora de Barros (Foto: Cortesia da artista)

Um sujeito pleno precisa ser homem, ter um lugar de fala autoritária e ser comedor de carne. Estas são as três condições que, segundo o filósofo franco-argelino Jacques Derrida, definem o indivíduo com direitos políticos e percepção egoica. A boca é peça elementar em dois dos três requerimentos: a boca que fala e a boca que mastiga carne. Linguagem e matéria se embaralham na boca.

Carne Na Tábua ( 1969), da fase visceral de Anna Bella Geiger (Foto: Eduardo Ortega)

Uma interação multiforme entre o processo discursivo e a materialidade do trabalho de arte caracteriza as obras da fase visceral de Anna Bella Geiger, entre 1965 e 1969 – muitas delas expostas em uma grande individual no Masp e no Sesc Avenida Paulista até 1º/3. Nesse processo, a artista rompe com o suporte tradicional e com a abstração informal. No impulso dessa ruptura encontra-se a necessidade de se manifestar contra o regime militar brasileiro. Unicamente através da visceralidade de seus novos trabalhos – como Corpo Humano – Estômago (1965) e Garganta (1967) –, Anna Bella Geiger consegue uma relação satisfatória, que não é prévia nem hierárquica, entre discurso e matéria. Conceito e suporte se retroalimentam quando a artista cria as placas matrizes da gravura em forma de órgãos. O peso do metal é real e material, assim como a ideia por trás das gravuras: a fragmentação e reorganização do corpo por meio dos órgãos simbólicos.

Órgão Ocidental – Tronco ( 1966), da fase visceral de Anna Bella Geiger (Foto: Eduardo Ortega)

Dessa forma, a artista carioca explora uma discussão teórica fundamental, especialmente quando se fala do corpo: qual é a relação entre o material e o discursivo? Em seu livro Problemas de Gênero (1990), Judith Butler expõe que discursos reiterados produzem a realidade – no caso, o sexo e o gênero. Surgida nos anos 1990, a corrente teórica do novo materialismo vai além e complica a subordinação do material ao discurso, perguntando-se sobre a agência da própria matéria. Na prática artística visceral de Anna Bella Geiger pode-se identificar a expressividade da matéria. Na organicidade da carne ensanguentada, no azul das veias e no anatomismo da fase visceral aparece um forte simbolismo que é o discurso político. O cérebro significa pensamento; o estômago, digestão; a carne na tábua, morte e tortura; e a garganta, lugar de fala.

A boca como contadora de histórias transgeracionais é proposta em Por Um Fio (1976). A fotografia de Anna Maria Maiolino faz parte da série Fotopoemação e exemplifica a centralidade da boca no percurso dessa artista. Assim como para Derrida, a criação da identidade para Anna Maria Maiolino encontra seu locus na boca que fala e na boca que come. Isso, porque a artista considera que o sujeito se forma em sua relação com os outros e a boca é fenda relacional, a conexão entre o Eu e o Outro. Por isso, o fio que conecta Anna com Vitalia, sua mãe e Veronica, sua filha, passa pela boca.

A criação da identidade individual e nacional por meio da boca e do ato canibal é sinônimo da Antropofagia brasileira. O movimento intelectual e artístico surgido nos anos 1920 teve grande influência em Anna Maria Maiolino. A artista, nascida na região da Calábria, na Itália, emigrou para Caracas e depois para o Rio de Janeiro. O nomadismo, marcado pelo consumo de diferentes culturas – italiana, venezuelana e brasileira –, cuja digestão cria uma subjetividade única, culmina no interesse da artista pelo movimento antropofágico. No filme em Super-8 In Out (Antropofagia) (1973), Maiolino faz um primeiro plano de duas bocas, uma masculina e outra feminina, cuja expressão linguística é impossibilitada pela entrada e saída de objetos – como fios, fumaça e um ovo. Novamente, matéria e palavra se perturbam mutuamente e criticam a preexistência de uma sobre a outra. A pergunta que surge é: o que acontece quando entram palavras e sai matéria?

É o Que Sobra, da série Fotopoemação ( 1974) de Anna Maria Maiolino (Foto: Cortesia Galeria Luisa Strina)

Cala a boca Derrida
O que se ingere pela boca não é só o alimento que nutre, mas também desejos simbólicos impostos pelo capitalismo neoliberal. Nesse consumo, a mulher tem um duplo papel fundamental. Primeiro, como objeto a ser devorado e, segundo, como agente de consumo. A sedução, que tanto se relaciona com a feminidade, é chave para a objetificação e para a ativação de apetites. Esse é o tema abordado por Lygia Pape na instalação Eat Me: A Gula ou a Luxúria? (1976), apresentada pela primeira vez na Galeria Arte Global, em São Paulo. O trabalho consiste de uma série
de objetos kitsch (entre os quais se encontravam calendários de mulheres nuas, dentaduras e batons vermelhos), alguns estampados com palavras como “querido” e “promessa”, colocados em uma sacola de papel, que depois era posta à venda para o público. A instalação tem sido recriada com diferentes variantes, mas sempre consistindo na venda barata de objetos triviais que, de uma forma ou de outra, estão conectados com o corpo ou a sensualidade da mulher.

  • Still de Eat Me (1975), de Lygia Pape (Foto: Reprodução)
  • Poemas Visuais: Língua Apunhalada ( 1968), de Lygia Pape (Foto: Reprodução)

Em texto na revista Malasartes (1975-76), Lygia Pape utiliza, em referência a esse trabalho, a noção de “epidermização” para conceituar o aspecto sensorial da instalação em oposição à criação discursiva. Contudo, o uso de palavras sobre os objetos e o forte mercantilismo tropológico da ação questionam se realmente existe um contraste entre o palpável e o ideal ou, melhor dito, uma “intrinsec/ação” entre ambos.

O som viscoso da carne sendo mastigada e tragada exala da boca de Lenora de Barros na videoperformance No País da Língua Grande, Dai Carne a Quem Quer Carne (2006). A carne não é de frango nem de boi, mas é a aveludada massa da própria língua. O trabalho nasceu como uma peça sonora na “Bienal da Antropofagia”, a 24ª edição curada por Paulo Herkenhoff, e o título vem da frase “no país da cobra grande”, extraída do Manifesto Antropófago (1928). Inicialmente, Lenora de Barros fazia uma brincadeira sonora com o “erre” retroflexo da palavra carne: “Eu queria expressar com a linguagem a mastigação da carne”, diz a artista à seLecT. Dessa forma, ela joga com o duplo significado da palavra língua em português, como órgão e como idioma. Novamente, a própria movimentação material da boca não pode ser desvinculada do discurso linguístico e simbólico. Alfaboca (2004), da artista argentina Ivana Vollaro, é uma série de cinco clipes poéticos, em que Lenora de Barros é colaboradora. O vídeo mostra uma conversa entre as duas artistas, um papo alfabético que permite discermir as confluências e digressões entre o espanhol e o português. Em seus trabalhos com e sobre a cavidade oral, Lenora de Barros cala a boca de Derrida: e se a língua for engolida? E se a fala não for autoritária, mas uma brincadeira, um jogo linguístico para comparar línguas latino-americanas? E se a conversa acontecer entre duas artistas mulheres?

 

Frame do vídeo Alfaboca (2004) de Ivana Vollaro em colaboração com Lenora de Barros que é capa da seLecT #46

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