A cara do Brasil

Construída a partir de uma arqueologia de períodos variados, a coleção do jornalista Celso Fioravante traça um retrato original do País em cerca de 500 obras

Luciana Pareja Norbiato
Celso Fioravante no sofá de sua sala, sob o retrato a óleo Mulher com Cachorro, de Samson Flexor (Foto: Paulo D'Alessandro)

No centro da capital paulista, em um prédio tombado pelo patrimônio histórico, mora o jornalista Celso Fioravante. E ele não está sozinho. Há um minijardim botânico numa sacada do apartamento decorado com belos móveis modernistas, sem ostentação. Além das plantas, que o jornalista reproduz das mudas destinadas às duas casas que está construindo na Ilha de Marajó, outros moradores lhe fazem companhia. São as cerca de 500 obras de arte que ele vem amealhando ao longo de quase 20 anos.

“Sempre tive um interesse latente pelas artes plásticas, desde a universidade (Jornalismo na PUC-SP), mas comecei a colecionar quando comprei minha primeira obra, uma Vânia Mignone. Foi em 1997, quando comecei a trabalhar com artes visuais na Folha de S.Paulo”, conta Fioravante à seLecT. Sua coleção reside completa no apartamento. São cerca de 150 obras penduradas em paredes superlotadas, como o belíssimo retrato Mulher com Cachorro, da fase pré-abstração geométrica de Samson Flexor. Guardadas no escritório ficam as outras perto de 350, compostas em grande parte de papéis. “Começar a colecionar é fácil. Difícil é parar.”

Fioravante compra obras em galerias e feiras, como todo colecionador, mas adquiriu um know-how particular em leilões, dos quais prefere participar pessoalmente, deixando os lances via internet em último caso. Internet e redes sociais, aliás, são para Fioravante a causa da banalização da arte do presente. “Não me interesso por nada da produção atual. Meu foco são artistas que tenham mais de 60 anos e de preferência não estejam conectados no Facebook e no Instagram, que não frequentem vernissages e que, quando eu encontrar, tenham algo realmente novo para me contar ou me mostrar”, diz.

Para ampliar e manter sua coleção, Fioravante usa seus rendimentos de jornalista e dono do Mapa das Artes, agenda mensal que desde 2002 faz a rota das galerias nas versões impressa e online. Não gosta de ganhar obras e não costuma aceitá-las (“Ganhei 1% do que as pessoas pensam”), pois prefere escolher os trabalhos. Também não troca trabalho por obra (“Trabalho é a única coisa tenho para vender”). O que significa limitação orçamentária, ao contrário dos colecionadores de peso. “Me interesso por aquilo que é possível, não vou me interessar por um vaso de flores do Guignard, ou um Portinari, porque para mim são inacessíveis. Me interesso por obras que me digam alguma coisa, por artistas com os quais eu conviva e tenha afinidade, não necessariamente contemporâneos.”

Paredes da sala de estar forradas de obras de períodos e estilos variados (Foto: Paulo D'Alessandro)

Paredes da sala de estar forradas de obras de períodos e estilos variados (Foto: Paulo D’Alessandro)

Essa é uma das razões pelas quais seu acervo pessoal tem uma dinâmica própria de representação da brasilidade. Além da restrição de caixa, Fioravante tem a curiosidade do jornalista que quer conhecer todos os meandros do circuito de arte e se interessa por diversos aspectos da cultura nacional. Por isso, a abrangência e a variedade das peças são grandes.

“A coleção de Celso tem uma pluralidade fascinante”, diz a curadora Denise Mattar à seLecT. “Ele não está fazendo uma coleção especulativa, por isso não se deixa prender a estilos ou técnicas. Instigantemente livre, sua coleção vai do antigo ao moderno, da arte indígena ao contemporâneo, estabelecendo conexões entre os artistas e revelando ligações entre obras.”

Linhas temáticas e curadorias
Na mesma medida em que identifica linhas temáticas como Corpo e Sexualidade e Misticismo e Religião dentro de sua coleção, Fioravante distribui pequenas curadorias pela casa. Na sala, há um recorte da produção dos concretos e neoconcretos, com obras como a tela Sem Título de Raymundo Collares (1966) e Composição, de Ivan Serpa (1951). Uma parede do escritório traça o que ele chama de Retrato do Brasil. “É onde há alguns dos meus preferidos: Rubens Gerchman (Lindoneia), Nelson Leirner (Atlas, da série Right You Are If You Think You Are, 2003), Lygia Pape (Sem Título), Oswaldo Goeldi (O Ladrão), Leda Catunda (Bola Mundo) e alguns novos de que eu gosto, como Tonico Lemos Auad (Sem Título) e Peter de Brito (Bijouterize, 2007).” Na pequena sala de estar, uma profusão de obras que vão de academismo anônimo a Zed Nesti (Rosto de Mulher com Máscara, 2013), passando por dois delicados trabalhos do japonês Nobuhiko Suzuki, deixam abertas possibilidades de leitura. No banheiro de visitas, um rodo de borracha, de Rodrigo Cass.

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Foto: Paulo D’Alessandro

Quem cuida da catalogação e da conservação das obras (fonte de despesas enormes) é o próprio colecionador. Quando percebe que está perdendo o controle – o que, segundo ele, acontece uma vez por ano –, chama o amigo e assistente João Luis Chiquito para ajudar.

Fioravante declara não ter noção do valor total de sua coleção, mas afirma que mais perdeu dinheiro do que ganhou. Mesmo assim, conseguiu bons negócios e tem peças importantes. “Pinturas de Antonio Maluf e Judith Lauand, um Nelson Leiner dos anos 1970, um guache de Raymundo Collares e uma pequena e rara escultura de Sergio Camargo podem ser as mais valiosas, mas elas só terão algum valor quando estiverem à venda e houver algum comprador interessado nelas”, afirma.

Sobre as aquisições, reconhece que o mercado de preços altos, como o brasileiro, não facilita. “Houve uma hipervalorização da arte brasileira que não corresponde ao crescimento do mercado. Não surgiram colecionadores aos milhares para justificar essa valorização, o que acho totalmente contraproducente. É uma diferença brutal que inviabiliza que eu compre hoje como eu comprava das galerias.”

Mas o valor monetário não parece ser um dado crucial quando o jornalista compra uma obra. “O que eu gosto na minha coleção – e de ver em outras coleções – é quando elas fogem do óbvio.” Ao dar dicas para quem quer começar a colecionar, Celso Fioravante é enfático: “Compre aquilo que você gosta de ver, que te entusiasma, e não fique preocupado se o artista é conhecido ou desconhecido. Siga seu instinto e não tenha medo de comprar obra de um artista que ninguém conhece, porque, se o artista for consistente, um dia ele vai acontecer”.

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