A casa e seu duplo

Espelhamentos entre expografia e dramaturgia na exposição individual de Ilê Sartuzi no auroras

Paula Alzugaray

Publicado em: 19/08/2021

Categoria: Destaque, Reviews

prelúdio (or curtain call), 2021 (Foto: Julia Thompson)

Ilê Sartuzi ocupa a casa da avenida São Valério nº 426, em São Paulo, com uma proposição dramatúrgica. Comecemos por pensar que os elementos que constituem a linguagem do teatro – os atores, os gestos, a máscara, os objetos de cena, os movimentos particulares ou de conjunto, a luz, a interpretação, o texto, a entonação, o palco – são aqui reorganizados, obedecendo a uma lógica rítmica particular. Animados, comportam-se como personagens de uma obra de literatura fantástica, que tem por título A. E A, de Novo.

O ritmo é marcado pela repetição – anunciada no título –, motor conceitual do trabalho. Os elementos se desdobram em duplos e triplos, assumindo novas configurações nos diversos cômodos da casa que, por sua vez, é o duplo do espaço teatral. A expografia é pensada como sequência de jogos cenográficos; a exposição é desenhada em cenas e atos.

cortina, 2021 (Foto: Julia Thompson)

Limite físico entre os planos da vida e da ficção, cortinas vermelhas pontuam o foyer da casa na pequena pintura em óleo sobre tela e veludo. Entre duas escadas, o visitante-espectador tem autonomia para escolher por qual ato – ou andar da casa – iniciar o seu percurso. O Retrato TSF-3/ ??-123 (2021), pintura que reinterpreta a estrutura do retrato histórico burguês, apresentando dois manequins em poses clássicas, é um elemento de atração incontornável que convida para o andar de baixo.

retrato TSF-3 / ??-123, 2021 (Foto: Julia Thompson)

Primeiro ato
Na biblioteca da casa, as cortinas que abrem e fecham para o vazio, na coreografia mecânica do objeto autômato Prelúdio (Or Curtain Call) (2021), introduzem o dispositivo de linguagem preponderante no roteiro: a comunicação interrompida, o significante vazio – também anunciado no título cifrado da exposição.

O subtexto desse prelúdio poderia ser lido no Primeiro Manifesto do Teatro da Crueldade (1932), de Antonin Artaud: “Suprimimos o palco e a sala, substituídos por uma espécie de lugar único, sem divisões nem barreiras de qualquer tipo e que se tornará o próprio teatro da ação. Será restabelecida uma comunicação direta entre o espectador e o espetáculo, entre ator e espectador, pelo fato de o espectador, colocado no meio da ação, estar envolvido e marcado por ela. Esse envolvimento provém da própria configuração da sala”.

Na sala de estar – espaço expositivo central do auroras –, o espectador emancipado atravessa instalações que insistem na presença do palco (o objeto animado Teatrinho, 2021) e da casa (a escultura em resina Casa, Cabelo, 2021), mas afirmam a ausência do corpo, substituído por uma pele de látex. Os atores estão atrás da lareira. Em Discussão I (Variação) (2021), as personagens retratadas na tela em frente à escada resumem-se agora a duas máscaras de resina e circuitos eletrônicos, suspensas, declamando um texto desconexo e estranhamente familiar. Eternas variações de um mesmo tema.

  • casa cabelo, 2021 (Foto: Divulgação)
  • Vista da exposição com discussão I (variação), 2021
 (Foto: Divulgação)

Ato 2
O primeiro andar da casa é um duplo do andar térreo. Os mesmos elementos ocupam a cena, num espelhamento distorcido da configuração do andar inferior. Diferença e repetição. No primeiro quarto (possivelmente, um dia, o quarto das crianças), o loop do Carrossel (2021) favorece um movimento de regressão. Infância, sonho, psicanálise, brincadeira de esconde-esconde, filme de terror: a casa de resina escondida dentro do armário e as pernas de boneca convertidas em anêmona.

  • carrossel, 2021 (Foto: Divulgação)
  • pernas sol, 2019 (Foto: Divulgação)

No final do corredor, o arco dramático. No quarto do casal, ambiente que poderia representar o ápice da estrutura narrativa da família burguesa, desenrola-se Discussão I (2021): uma cena demasiadamente prosaica e humana, interpretada pelos dois manequins protagonistas do enredo da exposição. Eles discutem a relação, como inanimados, sem sair do lugar. O texto que sai da boca dos atores Lucienne Guedes Fahrer e Silvio Restiffe, projetados nos bonecos, nos atira de volta ao loop do carrossel, ressoando as palavras da discussão do primeiro ato, em outro modo construtivo, mais monótono e previsível.

discussão I, 2021 (Foto: Julia Thompson)

“O espetáculo será cifrado do começo ao fim, como uma linguagem. Com isso, não haverá elementos perdidos, todos os movimentos obedecerão a um ritmo e, cada personagem, sendo tipificada ao extremo, sua gesticulação, sua fisionomia, suas roupas surgirão como outros tantos traços de luz”, continua o Primeiro Manifesto.

Epílogo
A circularidade dos percursos e a rotina do espaço doméstico foi explorada anteriormente por Ilê Sartuzi em Night and Day (2020), em que a câmera transita por um quarto, entre a luz do dia e a penumbra da noite. Aqui, o confinamento do apartamento cede para a dramaturgia da casa moderna. Mas pode-se entrar somente à noite, entre 18h e 21h. Nesse espaço de tempo, a casa é experimentada em seu reverso e revela, com nitidez desconcertante, a luz vermelha que deveria permanecer oculta, mas insiste em vazar pelas bordas de uma porta.

sinal, 2021 (Foto: Julia Thompson)

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Serviço
Ilê Sartuzi

A. E A de novo
Até 2/10
Sexta e sábado das 18h às 21h
Ou com agendamento (à noite)

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