A cidade após a pandemia

Artistas e coletivos apresentam projetos que pensam a cidade depois do coronavírus

Da redação

N° Edição: 47

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: A Revista, Destaque

La Puta Carra Loca (2019), do coletivo Al Borde (Foto: Divulgação)

Os membros do coletivo Al Borde, baseado em Quito, Equador, estavam de viagem marcada para o Rio de Janeiro, em julho, para participar do 27º Congresso Mundial de Arquitetos, mas, com o adiamento do evento para 2021, em consequência da pandemia, Pascual Gangotena, David Barragán, Marialuisa Borja e Esteban Benavides fazem sua visita em uma página desta edição.

Fundado em 2007, o Al Borde tem produzido trabalhos em contextos emergenciais, como o Protótipo Pós-Terremoto (2017), após o abalo sísmico na costa do Equador. “Nossos países sempre estiveram em crise, em geral políticas e econômicas, as crises de saúde nunca foram maiores ou tão contundentes como a atual”, diz David Barragán à seLecT. “Em todo caso, quando a pandemia passar e a economia começar a se movimentar, nós seguiremos em crise e, quando o mundo do Norte se estabilizar, nós continuaremos em crise.”

No contexto da pandemia, o Al Borde envia o registro de uma instalação da série de “arquiteturas perras” (arquiteturas cadelas), realizada para a Marcha de las Putas, um coletivo feminista e transfeminista do Equador. “Neste contexto de crise latente, na América Latina e no mundo cada vez se levantavam mais vozes, cada vez havia mais gente protestando nas ruas, o sistema estava esgotado, uma nova ordem era necessária e, de repente, estamos todos em casa. Estamos vivendo em um mundo onde o medo do contágio, o medo do outro, vai ser aproveitado pelo poder como um mecanismo de controle. Quando voltaremos às ruas para protestar?”, diz Barragán.

Direito à Inadimplência (2020) e Direito à Loucura (2020), de Raphael Escobar (Foto: Cortesia do artista)

A rua como espaço do protesto e da afirmação dos direitos humanos é também a proposição de Raphael Escobar, que desde 2009 trabalha com educação não formal em contextos complexos, vulneráveis e periféricos. Quando recebeu o convite para participar desta edição, o artista viu a oportunidade de desenvolver uma ideia antiga relacionada a liberdades individuais que não são admitidas dentro de uma sociedade capitalista. Na série Direitos, o Ateliê397, a Cracolândia e o Memorial da Resistência ganharam cartazes que reivindicam os direitos à inadimplência, à loucura e à preguiça. “É uma proposta anterior à pandemia, mas que se encaixa perfeitamente neste momento”, diz. Direito à Inadimplência (2020), reproduzido agora na seLecT, ganha uma dimensão ainda maior devido às dificuldades do Ateliê397 e de outros milhares de espaços artísticos e culturais Brasil afora, para se manter funcionando durante a crise.

A Cidade Após a Pandemia (2020), Grupo Contrafilé. Neste projeto, Cibele Lucena e Joana Zatz Mussi (Foto: Cortesia das artistas)

Acostumadas a trabalhar em conjunto, Cibele Lucena e Joana Zatz Mussi, do Grupo Contrafilé, formado em São Paulo há duas décadas, propuseram um “exercício de imaginação” que envolveu, ao todo, 18 participantes. “Nosso interesse é sempre escutar outras pessoas para pensar coletivamente”, diz Mussi. Para a obra A Cidade Após a Pandemia (2020), que reforça as potências do pensamento e do fazer coletivo, foram ouvidos não apenas parceiros de trabalho como os filhos das duas artistas: Gil Lucena, de 8 anos, e Sebastian Leona, de 10.

Cidade Pós-Pandemia (2020), de Ronald Duarte (Foto: Lis Cabral Duarte)

O carioca Ronald Duarte, cuja pesquisa engloba as relações entre o sagrado e o profano e se efetiva em grandes intervenções urbanas, completa este ciclo de projetos pós-pandêmicos com uma proposta ambiental enviada das profundezas da Mata Atlântica. Na fotografia Cidade Pós-Pandemia (2020), o artista apresenta uma pilha de tijolos, que remete tanto às construções maias ou incas quanto à geometria orgânica das favelas, coberta por plantas e musgos. Sobre as plantas estão raspados pequenos quadrados, que abrem portas e janelas na vegetação. Além das relações de escala – o micro que sugere o macro, assim como a parte, o tijolo, que sugere o todo, a casa ou a cidade –, a imagem materializa a implacável ação da natureza e do tempo sobre a cultura, sugerindo outra forma de conciliação.

Tags: , , , , , , , , ,

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.