A cidade betaglobal: meninos negros-louros

Ivana Bentes

Publicado em: 07/06/2012

Categoria: Especial Rio+20, Reportagem

Disputadas pela Nike, pela TV Globo e pelo Estado, as favelas cariocas são quilombos urbanos conectados e laboratórios de produção subjetiva

Betaglobal

Legenda: A favela da rocinha integra um novo mapa-múndi do país. (Foto: divulgação)

O Rio de Janeiro está em disputa. A cidade que sempre foi uma metanarrativa sobre o Brasil vem passando por profundas transformações nos últimos anos que a colocam no centro do capitalismo 2.0, cognitivo, afetivo e comunicacional. Rio, Cidade Betaglobal, está no centro de uma disputa simbólica. A passagem do Brasil fordista, nacional-desenvolvimentista, para a periferia global, em que as bordas invadem o centro e que tem de se reinventar não pela falta nem pelo negativo (violência, pobreza, crise da cidade), mas pela potência.

Duas megaoperadoras simbólicas atuam nesse imaginário: a Central Única das Favelas (Cufa), com uma rede de atividades extensa em todo o Brasil, e o AfroReggae. Duas das mais bem-sucedidas experiências de transmutação simbólica da cidade, capazes de juntar numa mesa de negociação ex-traficantes, polícia, governo, banqueiros, mídia e universidade.

Com estratégias intuitivas e paradoxais, são experiências de transição entre o “movimento”, a narcocultura da favela e do tráfico, e os movimentos sociais e culturais, apontando para uma nova forma de “corporação social” que vai hackeando o papo do social e do cultural das empresas, dos governos, da mídia. Hackeando e sendo usados pelas corporações, mas inventando, errando e acertando, criando condições de possibilidade para o surgimento de novos movimentos.

São apenas o lado mais visível (que alguns desqualificam como “king ONGs”) de uma mutação subjetiva que se espalha por centenas de coletivos, Pontos de Cultura, produtores culturais, agências como a “Redes para a Juventude”, “Observatórios” de favelas, DJs, formadores livres, agitadores e outros sujeitos do discurso que tomam posse da cidade.

Favela é a força do Rio! Não mais os pobres assujeitados e “excluídos” de certo imaginário e discurso, mas uma ciberperiferia, a riqueza da pobreza (disputada pela Nike, pela Globo, pelo Estado) que transforma as favelas, quilombos urbanos conectados, em laboratórios de produção subjetiva. A carne negra das favelas, os corpos potentes e desejantes, a cooperação sem mando, inventando espaços e tempos outros (na rua, bailes, lan houses, lajes), estão sujeitos a todos os tipos de apropriação, exatamente como qualquer um de nós.

É que as favelas não são fábricas de pobreza, mas o maior capital nas bolsas de valores simbólicas do Rio de Janeiro e do País, pois converteram as forças hostis máximas (pobreza, violência, Estado de exceção) em processo de criação e invenção cultural. O Rio é um termômetro da difícil e paradoxal tarefa de calibrar essa euforia pós-Lula, do presidente Macunaíma que turbinou a perifa com os “gestores de subjetividade”, que revertem e monetizam a potência das favelas e periferias para o turismo, corporações, bancos e agenciadores da “economia criativa” e do consumo.

A disputa é outro “comum”, é repudiar a guerra contra os pobres (remoções, criminalização, repressão). É afirmar uma diferença radical: a dos garotos e garotas das favelas dançando e colocando toda a sua energia e intensidade nas disputas pelos becos, lajes, praças e compartilhando e inventando coreografias geniais para a “dança do Passinho” em vídeos pela internet. É ver a resignificação do funk pelas meninas, que transformam o discurso sobre cachorras e popozudas em reivindicação neofeminista sobre a posse do seu corpo e o comportamento sexual libertário e desabusado da periferia. Minhas últimas resistências estéticas ruíram depois que vibrei com “Os Hawaianos”, no Complexo do Alemão. Os meninos negros-louros que rebolam até o chão, as gírias, a inteligência popular brasileira reinventa o Brasil Canibal, versão 2.0, local, global, fabulando um mapa-múndi do País, desconcertante.

Feijão, ex-dono de boca e chefe do tráfico em muitas favelas do Rio, hoje coordenando o Centro Cultural Wally Salomão do AfroReggae, no meio da favela, foi meu cicerone em Vigário Geral. Ele nos levou para conhecer a “Faixa de Gaza” local, que faz a divisa entre Vigário Geral e Parada de Lucas, duas favelas que ficaram mais de 25 anos em guerra. Conta histórias incríveis, fala do seu passado, narra de forma performática o que afinal era ter “poder” e estar entre os inimigos nº 1 do Brasil, mesmo com um exército de meninos às vezes sem dentes, desnutridos e assustados.

De tanto contar as histórias de crime, ressignificadas por uma carreira atual de gestor cultural e ator de filmes (fez o traficante Tiziu em 5x Favela, Agora por Eles Mesmos), Feijão, de forma lapidar, sintetizou a radicalidade da disputa simbólica vinda das favelas cariocas; um ex-traficante fabulador de histórias, que num insight genial e constituinte, entre risadas, se autoproclama: “Hoje eu sou o Monteiro Lobato daqui”.

Ivana Bentes é pesquisadora da Escola de Comunicação da UFRJ. Participa das Redes Mídias Livre, Cultura Digital e Universidade Nômade.

*Publicado originalmente na edição impressa #5.

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