A cidade é a casa

Edição #47 da seLecT é dedicada ao tema cidade e busca reconhecer o papel do artista nos novos modos de viver junto durante o isolamento social

Paula Alzugaray

Publicado em: 29/05/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Editorial

Intervenção de Vj Mozart, do coletivo @projetemos, 2020

No último evento cultural que presenciei, dias antes de entrar em quarentena, domingo 8 de março, não poderia imaginar que assistia ao desenrolar de acontecimentos que se sucederiam nas cidades de todo o mundo a partir daquele dia, com a explosão do coronavírus, nem as peculiaridades que assumiria no Brasil. Afinal, a Covid-19 por aqui veio acompanhada de uma verdadeira pandemia de ignorância que não começou agora, mas que explicitou nossas carências de políticas sociais, culturais e científicas. UTIs lotadas, elevado número de mortes de enfermeiros, que evidencia suas condições precárias de trabalho, o avanço do coronavírus pelo interior do Amazonas, dinheiro preso na Ancine que poderia salvar o cinema nacional, o desmonte do Iphan, as demissões nos museus…

Nenhuma imagem do País é mais contundente que a pensada pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, quando afirmou na Folha de S.Paulo em 15 de maio último: “Estamos em plena capotagem, no tempo veloz, mas paradoxalmente esticado dos desastres em curso”.

#aúltimafoto de @paula.alzug, no dia 8/3/2020. Contos Imorais – Parte 1: Casa Mãe, de Phia Menard.

Naquele dia 8 de março, que parece ter sido vivido em outra vida, assisti à peça Contos Imorais – Parte 1: Casa Mãe, encenada durante o MITsp 2020. Nela, a performer Phia Menard empenhava-se na incansável e solitária construção de uma casa de papelão que, de frágil abrigo, vinha a se configurar em um Parthenon – a sede do conselho que governou a cidade de Atenas no período homérico. O esforço civilizatório da personagem, no entanto, não era páreo para o levante da natureza, precipitado em violento temporal. A espetacular exposição da fragilidade e o derradeiro desabamento dos pilares de sustentação do edifício-símbolo da política ocidental, naquela tarde, serviram de preâmbulo ao estouro irreversível das muitas crises já em processo.

Agora, desde o frágil abrigo de nossas casas tornadas epicentros das cidades e dos espaços públicos que aparecem como uma miragem nas telas, lutamos por novas maneiras de atuar juntos. Reconhecer o papel do artista na (re) construção deste novo viver junto é o primeiro passo desta edição #47, que conta com a coedição parceira de Giselle Beiguelman e a confluência de muitas vozes. Como síntese desse processo de buscar potências entre fragilidades, escolhemos para a capa um trabalho do Coletivo Projetemos, lançado sobre a cidade do Recife.

 

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