A Cidade Floresta no Xingu

Coluna Móvel de Anna Dietzsch publicada na seLecT #51

Anna Dietzsch

Publicado em: Vol. 10, N 51, Julho/ Agosto/ Setembro 2021

Categoria: A Revista, Colunas Móveis, Destaque

IIustrações do projeto Cidade Floresta (2020), que assume como ponto de partida a tecnologia urbana de povos ameríndios, 2020 (Foto: Divulgação)

Em 2019, a convite do povo Kamayurá, fui ao Xingu com um grupo de estudantes da Escola da Cidade, de São Paulo. Voamos para Brasília e de lá rumamos para a cidade de Canarãna, no estado de Mato Grosso. A viagem até o Território Indígena do Xingu (TIX) fizemos em pickups, vencendo as planícies por estradas de terra. Durante mais de cinco horas cruzamos o reino da fronteira agrícola brasileira, com monoculturas extensivas que se estendiam, à esquerda e à direita, até encontrar o horizonte.

Não é à toa que essa região, parte da nossa “indústria mais lucrativa” é também conhecida como o Abraço da Morte. Monoculturas de soja, amaranto e outros grãos substituíram os ricos biomas de transição de cerrado e floresta, cansaram o solo, secaram nascentes e extraíram a umidade do ar. Fogos hoje se espalham com facilidade e a boa safra depende de insumos químicos que vão empobrecendo a terra e poluindo as águas. Um ciclo vicioso mortal em nome do desenvolvimento de uma indústria que, associada aos fluxos de capitais globais, concentra lucros a um custo coletivo altíssimo.

No entanto, “do outro lado” dos campos de soja, dentro da reserva indígena, 16 etnias seguem suas vidas dentro de um contexto ambiental diverso e preservado. Seguindo tradições e práticas de agroflorestamento tradicional, abrem roças e constroem casas usando a floresta sem esgotá-la. A escala de atuação é, obviamente, diversa, mas os princípios apontam caminhos para a revisão de nossas práticas extrativistas. Nesse lugar nasceu o conceito da Cidade Floresta; a convicção de que precisamos transformar nossas cidades, para que deixem de ser plataformas de esgotamento daquilo que chamamos de “natural”, para se tornarem fortes aliadas para a sua existência. O conceito estruturador é simples: (re)construir a natureza ao (re)construir cidades. O que isso implica, no entanto, é a mudança de paradigmas enraizados como valores universais ou imutáveis, que no contexto da crise climática se mostram como empecilhos ao desenvolvimento no longo prazo.

O projeto Forest City: A Generation of Care in the Amazon conta a história de como a economia do lucro puramente monetário teve de se transformar para enfrentar a crise climática, apoiando-se em estratégias de recursos compartilhados. Começamos com a ideia de que “natureza” e “cidade” não são espaços excludentes, mas plataformas interdependentes, como os complexos urbanos sofisticados construídos pelos povos ameríndios com a natureza e na natureza, antes da chegada europeia.

Assumimos que a produção alimentar não prescinde da floresta, ou do contexto natural, como mostram as modernas (e tradicionais) práticas de agroflorestamento, permacultura e pecuária sustentável. Nessas, a produção alimentar está intimamente associada ao manejo e à reconstrução do ambiente natural, criando ciclos virtuosos de enriquecimento biológico. Para se ter uma ideia quantitativa, um hectare de terra cultivado com agroflorestamento pode render de duas a três vezes mais soja, milho ou arroz do que aquele em plantações de monocultura.

Guiados pelos corpos d’água preservados, e as condições pluviométricas na área, propusemos um sistema de pequenas bacias de retenção para humedecer o solo enrijecido e com o agroflorestamento criar corredores verdes ligando o TIX às reservas indígenas Xavantes e à rede de cidades da região. Centros educativos e de promoção da nova agricultura foram desenhados para estruturar o sistema logístico e unir os conhecimentos tradicionais àqueles produzidos pelas universidades do país.

O uso de energia reciclável foi pensado com base em fazendas solares, aproveitando o alto índice de incidência solar da região, assim como no uso de miniturbinas hidráulicas. Sistemas de transporte fluvial em diferentes escalas, movidos a energia solar, foram usados para diminuir a dependência do transporte terrestre, evitando a abertura de novas estradas e o desmatamento. Com o uso de sistema seco de esgoto, evitamos a poluição dos lençóis freáticos e criamos insumos para a produção agrícola. O plástico descartado, tão problemático em sistemas biológicos ricos, serviu como matéria-prima para a fabricação do mobiliário urbano e novos edifícios foram construídos com o bambu e a madeira produzidos pelo agroflorestamento, assim como com as técnicas derivadas do uso da terra, seguindo os nossos antepassados ameríndios e europeus.

A Cidade Floresta no Xingu foi um esforço coletivo de um grupo de pessoas em Nova York e São Paulo e celebra o encontro produtivo entre a floresta, a sabedoria indígena e a tecnologia ocidental. O time foi composto por 14 profissionais, entre os quais Zuzanna Jarzyńska, Victor Lo, Mariana Majima e Thanawat Phituksithkasem. O encontro entre “cidade” e “natureza”, visando transformar o processo de urbanização extensiva em um processo de naturalização extensiva.

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