A cor virulenta

Na obra apresentada por Lucia Koch na Galeria Nara Roesler, no Rio de Janeiro, o trabalho acontece a partir do deslizamento de um acrílico sobre outro, criando interferências e efeitos imprevisíveis

Tiago Mesquita

N° Edição: 21

Publicado em: 26/11/2014

Categoria: A Revista, Crítica

Dupla Dupla {LA217 + AZ544 + VI 713 + MA 1204} (2014), acrílico montado em janela, de Lucia Koch (Foto: Everton Ballardin/ Cortesia da artista / Galeria Nara Roesler)

São diversos artistas para quem as cores não são atributos só dos corpos, mas de sua relação com efeitos luminosos. Enxergaríamos os objetos de acordo com a incidência da luz, o comportamento da atmosfera, a mansidão das massas de ar e os ânimos que se interpõem entre o olho e os sólidos.

O trabalho de Lucia Koch nos faz ver essas relações. Mais que isso, interfere diretamente na luz, criando estados alterados de percepção. Então é um trabalho de contaminação da luz e da nossa percepção. Em algumas das intervenções da artista, as cores são inseridas nos lugares por onde a luz entra. Lucia aloca acrílicos, filtros de correção e vidros pintados nas janelas, claraboias e vãos. A cor torna a iluminação menos neutra, menos anônima. É uma interferência no ambiente que o torna menos familiar. Na verdade, é uma interferência a mais, que nos faz perceber como os efeitos de luz constituem o modo como vemos os objetos e as pessoas.

Nesse sentido, muitas vezes a cor dos corpos vítreos tem um papel semelhante ao de corantes de laboratório. Químicos que os cientistas usam para identificar fenômenos imperceptíveis. Só que, diferentemente desses cientistas, a ação de Lucia Koch não pretende iluminar o que já existe, mas instituir outras relações. Fazer com que a cor, ao pousar sobre as coisas tingidas de luz, estabeleça outro estado de percepção, como se o mundo fosse tomado por um sol artificial.

Em sua exposição recente, Lucia Koch mostra objetos encerrados em si mesmos. Eles guardam pouca relação com o ambiente. Diferente de boa parte de sua produção, os trabalhos poderiam estar em outro lugar, com outro grupo de objetos, sem perda significativa de sentido. A aparência dos trabalhos é ordinária. São esquadrias de janelas e portas de alumínio, das mais comuns; aquelas encontradas nas lojas de material de construção, que aparentam a maior neutralidade. Elas são preenchidas com acrílicos coloridos, mais ou menos leitosos, alguns mais translúcidos, outros mais transparentes.

Os trabalhos têm algo da suficiência autorreferente da pintura de cavalete, relacionando-se, inclusive, com a metáfora da janela associada ao quadro. Diferente da relação que temos com o quadro na pintura, não se trata de um mergulhar para dentro da moldura, em um mundo independente, com relações internas, fechadas em si mesmas e miniaturizadas. Aqui percebemos as sombras da moldura, o efeito de um vidro nas outras superfícies, a variação de luz nos vidros.

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Dupla {AM309 + FM1012AD} (2014), acrílico montado em janela, de Lucia Koch (foto: Everton Ballardin/ Cortesia da artista / Galeria Nara Roesler)

Ou seja, o trabalho é feito de tudo que preferimos ignorar quando olhamos compenetrados para um tableau. É o quadro como objeto, análogo à estrutura da janela. Em cada esquadria encontramos uma ou mais duplas de cor. Mas, mesmo quando o trabalho tem mais de duas cores, elas sempre trabalham em dupla. Estão uma ao lado da outra, uma sobre a outra. As cores são muito distintas e pouco naturais. Como elas são estruturas transparentes ou translúcidas, o brilho escapa da superfície e contamina a nossa visão dos elementos avizinhados. Uma cor interfere na outra, assim como interfere na nossa percepção da estrutura do objeto.

Na medida em que escorregamos as partes móveis da janela para um lado e para o outro, ou deslizando um acrílico sobre outro, as relações coloridas se modificam. A relação dá-se pela sobreposição ou justaposição dessas cores. Lucia evita relacionar cores que se anulem ou que criem efeitos previsíveis. Por isso não utiliza tons neutros, cores complementares. Ela também modifica a consistência dos matizes, sua textura e transparência. As cores devem se comportar de maneira distinta em cada um dos trabalhos.

Em uma parede, dois trabalhos com composição cromática parecida são colocados lado a lado e acabam se mostrando muito diferentes. Seja pelas relações sugeridas pela janela, seja pelas propriedades que as cores acabam por se revelar em relação. A cor acaba se mostrando como um corpo que só ganha sentido na relação com outros corpos. Sozinha ela não diz nada. Quando sobrepostas, as cores nem se diluem uma na outra nem criam contrastes pronunciados. A interpenetração de diferentes vermelhos, âmbares, azuis e cinza criam vermelhos acinzentados, marrons azulados, cores sem caráter definido.

A artista lida com interferências que não alteram os objetos, mas a nossa relação com eles. Como se a cenoura que sempre foi associada a uma cor, quando exposta a um filtro desses, se tornasse lilás. Por isso é como se não tivéssemos mais a medida para determinar a saúde e a qualidade do legume. As relações entre cores nesses quadros de Lucia Koch também não são definitivas. Aliás, acho que é isso que faz os planos serem móveis. As cores não são propriedades das coisas, são qualidades que estão com elas. Nesses trabalhos, toda cor local, todo atributo sensível é arbitrário. Como se não existissem, o céu é azul e a grama é verde. Nos trabalhos, o céu está azul, a grama está verde. Não existem adjetivos finais, tudo se torna impuro.

A seção Vernissage é um projeto realizado em parceria com galerias de arte que prevê a publicação de um texto sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição.

#Publicado originalmente na #select21

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