A dança como potência transformadora e política

Convidado para a 6ª Semana da Dança UFSC, o bailarino ugandense Oscar Ssenyonga luta pela inclusão de todos os corpos e contra os sistemas opressores

Da redação

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Destaque, Entrevista

DanceAble (2017), de Oscar Ssenyonga (Foto: Metlogo/ Divulgação)

Convidado para a 6ª  Semana da Dança UFSC, o bailarino ugandense Oscar Ssenyonga luta pela inclusão de todos os corpos e contra os sistemas opressores. O espetáculo “Dictatorship Democracy” que será exibido on-line nesta sexta-feira (20), às 20h, no canal do evento no Youtube, é relato que conta a situação atual de Uganda, a resistência do presente e a liderança que deseja para o futuro

Oscar Ssenyonga escolheu o caminho do movimento. Aos 6 anos já era incentivado pela mãe a estudar as técnicas do corpo, das danças culturais do seu país. Cresceu no subúrbio de Kampala, na África do Leste, de onde viu boa parte dos seus amigos e conhecidos serem presos, mortos ou enlouquecerem num sistema totalmente opressor.

Decidiu fazer da sua técnica a principal arma para transformar a vida das pessoas, especialmente os corpos não assistidos, os discriminados e perseguidos. Fundador do Mamby Performing Arts Foundation e a Mambya Dance Company – MDC, o artista apresenta a performance “Dictatorship Democracy” que trata sobre o contexto que lida diariamente no seu país.

A apresentação será nesta sexta-feira (20), às 20h, no palco on-line da 6ª  Semana da Dança UFSC. Em entrevista, Oscar Ssenyonga fala sobre o seu trabalho, a luta e resistência que enfrenta, tendo como principal ferramenta o seu corpo.

DanceAble (2017), de Oscar Ssenyonga
(Foto: Metlogo/ Divulgação)

Você trabalha com questões sociais e políticas em seu país. Que corpo dança, sobre o que dança e quais são os seus desejos e críticas?
Oscar: Em meu trabalho lutamos pela inclusão de todos os corpos, como forma de preservar a dignidade humana, alimentar o espírito e produzir engajamento. Desejamos que a vida possa ser uma bênção para todos. Mas sabemos que, para isto, teremos que lutar contra pessoas, sistemas e governos que nos prendem em regimes opressores e conservadores.

Qual é o lugar da prática artística, principalmente da dança, em seu país? Existe estímulo por parte do Governo? É um caminho solitário e de resistência? Como funciona?
Oscar: Sou um crítico da visão estereotipada dos corpos negros erotizados e da dança africana como arte marginal /secundária. Busco a preservação das tradições e a construção de uma dança inclusiva, que acolha comunidades discriminadas como os portadores de necessidades especiais, os albinos e em especial os que são criminalizados. Em meu país a homossexualidade é sujeita a penas severas, que podem chegar à prisão perpétua. Então, sim, nosso caminho é solitário, de resistência e luta por igualdade de direitos.

Você trabalha com danças contemporâneas e africanas. O que te interessa na pesquisa como artista?
Oscar: Meu trabalho visa promover a compreensão dos corpos negros, utilizando elementos da dança como forma de viver e retribuir à sociedade, prevenindo e preservando heranças ancestrais. Em 2013 e 2014, na École Des Sables, dirigida por Germaine Acogny, estudei danças contemporâneas e africanas com Patrick Acogny, que me apresentou à desconstrução e outras ferramentas da coreografia. Essa experiência contribuiu significativamente para o aprofundamento do meu trabalho.
Dou continuidade ao Projeto de Dança Contemporânea Nhaka, que começou em 2010 com investigações e instigações de Nora Chipaumire. É uma pesquisa de longo prazo, focada nos corpos negros e nos produtos da sua imaginação, onde realizo um trabalho de desconstrução das danças tribais ugandenses e de incorporação de ideias, no intuito de preservar essa tradição.O projeto Nhaka utiliza uma plataforma colaborativa onde são produzidos textos literários e críticos, para a construção do livro digital de Bhuku.

Você poderia nos falar a respeito do Festival Internacional que você realiza em Uganda?
Oscar: O Festival Internacional Tuzinne – Onde os Direitos Humanos Dançam – tem como objetivo dar voz aos grupos vulneráveis em relação às suas experiências com os direitos humanos. Ao fazer a ponte entre artistas, companhias e público de dança, Tuzinne desafia o público a sair da visão passiva, encorajando-o a se abrir para a dança como uma forma de arte crítica.
O festival foi iniciado em 2016 e em novembro de 2019, quando se realizaria sua terceira edição, foi suspenso por ter sido considerado um evento simpatizante com a causa LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). Na estreia do evento, a polícia invadiu os camarins e retirou à força os bailarinos, produtores e diretores das companhias. Alguns foram agredidos e presos. Materiais de cenografia e figurinos foram apreendidos.

Como você usa a dança como exercício de inclusão? Qual resultado você já percebe do seu trabalho?
Oscar: Além de coreógrafo e bailarino, tenho formação em Artes Cênicas e sou bacharel em Moda-Design. Aplico estas formações no meu trabalho com as comunidades vulneráveis de Uganda e de outras localidades da África Oriental, usando a dança e as artes visuais como meio e processo.
Criei a Mambya Performing Arts Foundation e a Mambya Dance Company – MDC, onde atuo como coreógrafo e diretor artístico. Nessas instituições trabalhamos para formar jovens empreendedores, nas áreas de artes cênicas e visuais, proporcionando-lhes uma plataforma de expressão através da criação de apresentações que abordam questões sociais e políticas. A MDC já capacitou mais de 200 profissionais e artistas independentes. A MDC, cada vez mais, evolui no seu compromisso de promover intercâmbios e diálogos com dançarinos e coreógrafos de todo o mundo.

DanceAble (2017), de Oscar Ssenyonga
(Foto: Metlogo/ Divulgação)

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