A desforra de Mefisto

Fogo-Fátuo traz encontro marcado entre um escritor em crise e o diabo, três vezes por semana no Sesc Santana

Juliana Monachesi

Publicado em: 28/04/2012

Categoria: Da Hora, Review

Helio Cicero e Samir Yazbek em cena de Fogo-Fátuo (Foto: Divulgação)

Em meio a um bloqueio criativo, um escritor marca encontro com o diabo em um teatro da zona Norte de São Paulo. Diante de uma platéia ainda iluminada pelos canhões de luz, Mefisto entra em cena vestindo roupas do avesso, a meticulosa alfaiataria à vista no forro do sobretudo, que ele logo tira e põe de lado, e do casaco. Um espectador atrasado se detém próximo das primeiras filas, parece procurar um lugar vago, e termina por interpelar a soturna presença no palco.

Começa assim a peça Fogo-Fátuo, escrita por Samir Yazbek em parceria com seu colega da Companhia Teatral Arnesto nos Convidou, o ator Helio Cicero, que já protagonizou cinco obras de Yazbek, entre as quais se destacam O Fingidor, que recebeu o Prêmio Shell 1999 de Melhor Autor, e As Folhas do Cedro, vencedora do Prêmio APCA 2010 de Melhor Autor. A nova peça é encenada por Cicero, que contracena pela primeira vez com o autor da peça. A estreia nos palcos de Samir Yazbek é resultado de uma provocação de Helio Cicero, que o incentivou a interpretar Fausto.

A premissa do texto de Yazbek – ao revistar o mito de Fausto, tema de autores como Marlowe, Goethe, Fernando Pessoa e Paul Valéry – é que se o encontro entre Mefisto e o autor disposto a vender a alma ao diabo para obter reconhecimento se repetisse nos dias de hoje, o próprio diabo estaria igualmente em crise, porque o mundo atual já é bem servido de maldade, perversidade e corrupção sem sua ajuda.

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Samir Yazbek e Helio Cicero em cena no Sesc Santana (Foto: Divulgação)

Um bom ponto de partida, mas que se perde em um texto sisudo demais, que se leva muito a sério, como se estivesse prestando um serviço moral ao público, ao instruí-lo sobre as causas da ruína da sociedade contemporânea. Além disso, o tormento do escritor não chega a convencer, e a postura circunspecta, por vezes delicada, do diabo parece indicar que o próprio personagem não está convencido de qual seja o seu papel na encenação. O público ri quando não há nada de engraçado e os personagens fazem piada quando poderiam ser levados a sério. O desfecho é ambíguo (não no bom sentido) e faz pensar que Mefisto, o Outro, deve estar se sentindo vingado.

Serviço
O QUÊ: Fogo-Fátuo
ONDE: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, Jd. São Paulo, tel. 0/xx/11/2971-8700)
QUANDO: Sextas e Sábados, às 21h; domingos, às 18h. Até 27 de maio
QUANTO: R$ 20 (inteira); R$ 10 (usuário matriculado no Sesc e dependentes, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino); R$ 5 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes). 337 lugares

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