A escrita dos céus austrais

O Cruzeiro do Sul muda com o tempo. É uma clara expressão do dinamismo constante da natureza

Marcelo Gleiser

N° Edição: 2

Publicado em: 08/11/2011

Categoria: A Revista, Reportagem

Tags: , ,

Na serigrafia A noite (1998), Iran do Espírito Santo apaga as cores e formas da bandeira brasileira

Quando retorno ao Brasil a passeio ou a trabalho, duas coisas fazem meu coração bater mais rápido: de dia, o canto do bem-te-vi; de noite, a visão do Cruzeiro do Sul. Não há como escapar, ao menos longe da poluição urbana, daquelas cinco estrelas, arranjadas como que por algum escultor celeste, na forma de cruz. Ou quase. Afinal, temos a quinta estrela fora dos eixos, chamada de épsilon Crux, a menos brilhante. Em termos de brilho, as cinco estrelas seguem uma ordem perfeita, decrescendo da mais brilhante na base da constelação, a alfa Crux ou Acrux, em sentido horário até a última, a épsilon Crux. O fato de serem cinco e não quatro estrelas parece-me providencial: lembrança de que a perfeição é apenas um conceito, algo a que podemos aspirar a atingir, mas que, na realidade, é inatingível.

Acho que todo brasileiro sabe, ou deveria saber, que, se traçarmos uma linha reta ao longo do eixo mais longo do Cruzeiro, começando da estrela mais “alta” a gama, Crux ou Gacrux, até a que está na base, a alfa Crux ou Acrux, e continuarmos por 4,5 vezes essa distância, chegamos ao Polo Sul celeste. Por milênios, a constelação serviu como um marco, orientando os viajantes do Hemisfério Sul. Obviamente, seu impacto não se restringe ao Brasil. O Cruzeiro do Sul aparece também nas bandeiras da Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Samoa. Mais recentemente, reapareceu até na bandeira do Mercosul.

Estrelas são a escrita dos céus. Desde tempos imemoriais, muito antes da invenção da bússola, que as constelações representam uma espécie de mapa dual, ao mesmo tempo direcional e mítico. Para as culturas pré-científicas, os céus eram sagrados, a morada dos deuses. Portanto, interpretar o céu e seus movimentos significava interpretar as intenções divinas. A astrologia, que fez (e ainda faz) parte de inúmeras culturas, pode ser vista como uma forma de dialeto soletrado nas constelações, comunicação entre os deuses e as pessoas. Os céus servem de oráculo, determinando o futuro das pessoas, ou ao menos sugerindo certas tendências nas diversas áreas da vida de cada um.

Já os aborígines australianos, por exemplo, viam no Cruzeiro do Sul um enorme gambá sentado, representando o deus celeste Mirrabooka. Uma imagem da constelação, esculpida em pedra, foi encontrada em Machu Picchu, no Peru. Para os Incas, a constelação se chamava Chakana, ou Ponte Celeste. Os maoris da Nova Zelândia a chamavam de Te Punga, a âncora que segurava a Via Láctea na sua posição. Inúmeras culturas austrais deram ao Cruzeiro do Sul uma interpretação mítica única, que atendia às suas necessidades. O notável é a universalidade do apelo exercido por essa constelação, um emblema de identificação inquestionável das culturas do Hemisfério Sul.

Do ponto de vista científico, é sempre bom lembrar que constelações são acidentes: mesmo se percebemos as estrelas como que impressas na abóbada celeste, esta abóbada bidimensional – para nós parecendo o interior de uma gigantesca bola – não existe. O espaço é tridimensional e as estrelas não residem no mesmo plano. Fora isso, as estrelas estão em movimento. Para nós, podem parecer paradas, mas na realidade não estão. Suas velocidades radiais (na nossa direção) chegam a centenas ou mesmo milhares de quilômetros por segundo! Não percebemos isso devido às suas enormes distâncias. Tal qual um avião, que parece mover-se lentamente nos céus mesmo se voando a velocidades de 600 km/h, quanto mais distante o objeto, mais lento nos parece.

A Terra também tem vários movimentos. Fora seu giro diurno e sua órbita anual em torno do Sol, ela também tem um movimento chamado precessão dos equinócios, nome complicado que, simplesmente, diz que a Terra é como um pião desequilibrado, inclinado cerca de 23,5 graus em relação à vertical. Essa precessão é extremamente lenta, demorando 26 mil anos para completar uma volta! Isso significa que nossa percepção dos céus também gira, e o que hoje está nos céus do Hemisfério Sul esteve nos céus do Hemisfério Norte no passado e poderá estar no futuro. Por exemplo, o Cruzeiro do Sul era perfeitamente visível para os gregos de 1000 a.C., mesmo que pouco acima do horizonte. Hoje já não é. A escrita dos céus, portanto, muda com o tempo, uma clara expressão do dinamismo constante da Natureza. Se conseguirmos sobreviver pelos próximos 10 mil anos, teremos de redesenhar a bandeira nacional.

*Marcelo Gleiser é professor titular de física e astronomia no Dartmouth College, EUA. Seu livro Criação Imperfeita, foi traduzido para 12 línguas.

*Publicado originalmente na #select2.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.