A espiral dos livros

Quatro projetos arquitetônicos de excelência elaboram os papéis que as bibliotecas devem desempenhar no futuro

Juliana Monachesi

N° Edição: 3

Publicado em: 28/12/2011

Categoria: A Revista, Reportagem

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O futuro da arquitetura e o futuro das bibliotecas se misturam com frequência. Em novíssimos projetos arquitetônicos, concebidos para catalogar tanto livros quanto e-books, procura-se corresponder ao papel que as bibliotecas devem desempenhar hoje: áreas com acesso livre e igual à informação, liberdade de expressão e criação, troca e distribuição de conhecimento, preservação de patrimônio cultural e promoção da informatização. Conheça quatro desses cenários do futuro, que propõem a biblioteca como entidade inclusiva, centro aberto de aprendizagem ou centro comunitário.

A cidade de Seattle, nos Estados Unidos, realizou um referendo em 1998 para aprovar um ambicioso plano de revitalização do seu sistema de bibliotecas públicas, o que resultou na reforma e adaptação para a era digital de suas 22 instituições, na construção de quatro novas unidades e de uma nova Biblioteca Central. O projeto do Office for Metropolitan Architecture (Oma/Rem Koolhaas) foi escolhido em um concurso público de arquitetura para a criação da nova sede. A articulação estética de um espaço social, quando fica a cargo do arquiteto holandês Rem Koolhaas, costuma subverter o lugar convencionalmente destinado para cada coisa, além de integrar completamente forma e função.

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No prédio da Biblioteca Central de Seattle (2004), ele deslocou a área de atendimento para o terceiro piso, a Mixing Chamber, e criou uma estrutura em espiral para armazenar os livros, a Books Spiral, de modo que não haja interrupção na sequência linear da catalogação.

“A Biblioteca Central vai atrair aqueles que suspeitam que o subconsciente pode ser mais exato – mais racional, de fato – do que a faculdade do raciocínio onsciente. Se você já acordou alguma vez com a solução para um problema que havia te derrotado na noite anterior, você vai se sentir em casa neste prédio. Assim como qualquer um que queira saber para onde está indo a arquitetura”, escreveu o crítico Herbert Muschamp no New York Times, em maio de 2004, às vésperas da inauguração da biblioteca.

Em um artigo entusiasmado, que começava afirmando que, “se uma cidade americana pode erigir um projeto cívico corajoso como este, o sol ainda não se pôs no Oeste”, Muschamp (1947–2007) – um dos mais influentes críticos de arquitetura de sua geração – notou ainda que o aspecto cintilante de vidro e aço da fachada multifacetada da biblioteca de Seattle sugeria que Koolhaas a havia transformado em uma “discoteca do avesso”.

Já a New Yorker classificou-a como “a mais importante biblioteca a ser construída em uma geração, e a mais arrebatadora”. Segundo o crítico de arquitetura da revista, Paul Goldberger, o edifício de Seattle seria uma reinterpretação da monumentalidade tradicional que celebra a cultura do livro tão apaixonadamente quanto a New York Public Library. No entanto, Seattle resolve a segmentação das coleções em andares diferentes com a Books Spiral e transforma o ambiente de interação entre bibliotecários e público em uma sala hightech cheia de computadores, a Mixing Chamber.

E a digitalização não termina aí. Desde outubro último, qualquer usuário cadastrado na Biblioteca Pública de Seattle pode baixar livros digitais da coleção em seu Kindle. A biblioteca já disponibilizava diversos itens para empréstimo digital em seu website (para PC, Mac, celular etc.), mas o recente acordo com a Amazon sinaliza uma mudança de protocolo: o futuro da leitura como a conhecemos depende de intrincadas negociações entre autores, editoras, governos e as todo-poderosas pontocom que comercializam livros. Resultado: a circulação de mídia para download no sistema de bibliotecas públicas de Seattle aumentou quase 160% em outubro, comparada ao mesmo mês de 2010.

Cidadão como fator-chave

Na cidade dinamarquesa de Aarhus – que tem um dos sistemas públicos de biblioteca mais avançados do mundo –, um projeto de construção iniciado em junho último vai desembocar, no fim de 2014, na mais nova biblioteca do futuro, o Urban MediaSpace Aarhus, da firma Schmidt Hammer Lassen Architects. “A ideia do Urban MediaSpace Aarhus foi gerada em um grande processo de engajamento cidadão, resultando em um conjunto de sete valores. O edifício deveria ter o Cidadão como Fator-chave (1), promover Aprendizagem e Diversidade Permanentes (2), Cooperação e Rede (3), Cultura e Experiência (4), ligando Cidadão, Tecnologia e Conhecimento (5), ser uma Organização Flexível e Profissional (6), e um Ícone Sustentável para Aarhus (7).

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“Haverá livros e tecnologia no prédio, é claro, mas a visão que embasou a sua concepção trata de realizar objetivos e planos maiores, refletidos também nos valores do edifício”, explica o diretor do sistema de bibliotecas públicas de Aarhus, Rolf Hapel, em entrevista à seLecT. Desde meados dos anos 1990, as bibliotecas públicas da Dinamarca oferecem acesso a bancos de dados e inúmeras publicações disponíveis na internet a seus usuários, tanto no espaço físico da biblioteca quanto, conforme os recursos para pagar as licenças necessárias, no local de trabalho ou residência dos usuários. No país, já no fim dos anos 1980, foi implementado um sistema de automação em todas as bibliotecas públicas, um pioneirismo tecnológico que possibilitou que surgissem, dez anos depois, bibliotecas virtuais e portais temáticos que funcionam como serviços cooperativos coordenados pelos próprios bibliotecários.

A mais popular entre as bibliotecas virtuais da Dinamarca, a Biblioteksvagten.dk, é um serviço de perguntas e respostas operado por bibliotecários de 71 instituições públicas, que permite contato direto com os funcionários para obter respostas a questões sobre qualquer tópico que seja encontrado nas coleções e recursos eletrônicos do sistema dinamarquês de bibliotecas.

Biblioteca mash-up

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Tornar uma biblioteca mais inclusiva passa pela incorporação às suas funções tradicionais – armazenamento e democratização do acesso a material de estudo, pesquisa e lazer – de outros serviços que podem, inclusive, ser fornecidos por terceiros, à maneira de uma prática comum hoje na internet: a importação para um site pessoal de scripts fornecidos por outros sites. Blogs disponibilizando conteúdo do YouTube, por exemplo, sem a necessidade de importação desse conteúdo, são a forma mais conhecida dessa prática.

O termo mash-up, originalmente aplicado à música, define hoje uma série de rotinas de colagem de programas e aplicativos dentro de um site e que rodam de forma independente. A grande vantagem é que existem outras pessoas mantendo aquela parte de conteúdo em seus websites originais e com isso assegurando que também o (mesmo) conteúdo que está visível no seu website está atualizado e funcionando bem.

“Nós adotamos esse termo para a biblioteca física, trazendo parceiros para fornecer serviços. Por exemplo, arquivos históricos locais enviam voluntários para ajudar os usuários, ou um serviço municipal de busca de emprego, oferecido por outros agentes desse serviço dentro da biblioteca”, conta Rolf Hapel. A opção por agregar programas e scripts fornecidos por quem tem experiência com eles e de incluir acervos de videogame, música e filmes às opções de itens para consulta e empréstimo no sistema de Bibliotecas Públicas de Aarhus aumentou o número de visitantes às 19 unidades municipais.

“O que podemos ver ao longo dos últimos cinco ou seis anos é que o número de empréstimos de material físico tem diminuído um pouco (o índice em 2010 foi de 4,9 milhões de empréstimos para uma população de 300 mil habitantes em Aarhus) e o número de downloads está aumentando”, diz Hapel. O número de visitantes à biblioteca também está aumentando, segundo ele, e isso se deve ao fato de que as bibliotecas estão ampliando sua programação e atividades educacionais. “Temos muitas atividades de ensino, principalmente de uso de internet, com uma gama variada, também uma grande quantidade de atividades culturais, que muitas vezes são organizadas por outros, daí a ideia de uma biblioteca mash-up”, diz.

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Em São Paulo, uma iniciativa recente demonstra que também por aqui estamos enfrentando os desafios da era digital: o projeto piloto de uma “biblioteca viva” – em que acervos de livros e audiovisual coabitam um espaço de convivência e inclusão social – está em andamento na Biblioteca de São Paulo, instituição-modelo instalada no Parque da Juventude, onde se situava o presídio do Carandiru, na zona norte da cidade. A ideia de uma biblioteca viva – com prateleiras baixas para que os visitantes não dependam da ajuda de um bibliotecário e onde não há necessidade de fazer silêncio – pode ser vivenciada no pavilhão de 4 mil m2: crianças jogam games on-line com os colegas, ao lado de usuários assistindo a filmes e outros navegando em redes sociais e no YouTube nos cem computadores com conexão rápida que a biblioteca oferece.

“A Biblioteca de São Paulo foi pensada para reunir os principais concorrentes da leitura – a música, o cinema, a internet e os jogos eletrônicos, tudo num mesmo espaço. A ideia é utilizar os concorrentes como atrativos para o público e assim apresentar a leitura como uma atividade prazerosa, não apenas associada ao estudo. Além disso, ela oferece uma programação diversificada, com oficinas, cursos, seminários sobre os mais variados temas: peças e intervenções teatrais, saraus, música e toda uma gama de atividades. A Biblioteca foi projetada pensando principalmente em quem ainda não é leitor”, explica o secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo.

O projeto da BSP que recebeu o prêmio 2010 (categoria Edifício Institucional) do Instituto de Arquitetos do Brasil de São Paulo, é assinado pelo escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos, que concebeu o projeto do Parque da Juventude. Originalmente, o edifício que abriga a biblioteca seria um pavilhão de tecnologia, que estava sem uso desde a inauguração do parque, em 2007. Quando o setor de bibliotecas do estado saiu em busca de um espaço para implementar o projeto piloto, o prédio foi adaptado pelo escritório, em parceria com os arquitetos Marcelo Aflalo e Dante Della Manna.

Na opinião de Matarazzo, a biblioteca do século 21 deve colocar a pessoa, e não o acervo, no centro das atenções: “A função da biblioteca pública como guardiã de acervos deve ser superada. Ela deve ser proativa e estar inserida em sua comunidade; ser convidativa e moderna. Isso significa, também, oferecer uma variedade grande de produtos, sem preconceitos: do livro clássico à revista popular”.

Arquitetura passeante

Uma biblioteca do futuro não tem de, apenas, oferecer a midiateca e a videoteca mais atualizadas do planeta, nem tão somente ser um “edifício inteligente”. O conceito de futuro, na Biblioteca Virgilio Barco, de Bogotá, na Colômbia, está em uma arquitetura que apela tanto para os sentidos quanto para a inteligência.

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Inaugurada em 2001, a biblioteca é um dos últimos projetos do célebre arquiteto colombiano Rogelio Salmona (1929–2007), notável por seu sistema construtivo que valoriza luz natural e águas. Formado por três grandes corpos – a grande sala de leitura, o auditório e o anfiteatro ao ar livre –, o edifício é uma das joias da cultura colombiana.

A grande sala de leitura é um espaço semicircular de três níveis, conectados por rampas e circundados por canais e espelhos d’água, que criam uma condição de iluminação e sonoridade especiais ao ambiente do estudo. Graças ao seu engenhoso sistema de iluminação – formado por grandes janelas, abóbadas e espelhos d’água que funcionam como refletores de luz –,o edifício pode prescindir de iluminação artificial durante a maior parte do dia.
A fluidez da circulação é outro ponto alto da arquitetura. O edifício tem três níveis com espaços comunicados por rampas internas e externas, que se prolongam em jardins, pontes e passeios elevados, concebidos “para ver o céu mutante de Bogotá”, segundo Salmona. Esses generosos corredores, tanto internos quanto externos, permitem a visão do céu, mas também da panorâmica da cidade, do parque e da cordilheira de montanhas andinas que margeia Bogotá. Permitem, mais que tudo, que o usuário experimente uma “arquitetura passeante”.

(Colaborou Paula Alzugaray)

#Publicado originalmente na #select3.

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