A Estética do Frio

Angélica de Moraes

Publicado em: 08/11/2011

Categoria: Ensaio, Reportagem

Um Brasil escapa ao clichê do calorento trio elétrico baiano e propõe que se integrem a geada, a neblina e a cerração aos índices de brasilidade

Frio

Vitor Ramil é um compositor que escreve ou um escritor que compõe? Difícil dizer. Seja usando a melodia da palavra ou a palavra encadeada em frases melódicas, o artista gaúcho envolve e seduz. Até mesmo quando se aventura no campo da crônica de viés sociológico. Foi assim que, em 1992, resolveu botar no papel sensações e ideias que surgiram no calor carioca de um fim de tarde e repercutem cada vez mais na atual produção cultural.

Ele estava, de calção e chinelos, assistindo ao Jornal Nacional na tevê. Primeiro, viu matéria sobre um trio elétrico no carnaval baiano, arrastando multidões seminuas, que pulavam sem parar. A notícia foi dada em tom de normalidade, mas Ramil não conseguiu se imaginar no espírito daquela festa. Na matéria seguinte, as imagens foram apresentadas como raras, fora do comum: a chegada do frio no Sul.

“Seminu e com calor, reconheço imediatamente aquele universo como meu. Mas as imagens são apresentadas num tom de anormalidade, de curiosidade, de quase incredulidade, como se estivessem chegando de outro país – fala-se em “clima europeu” –, o que faz com que eu me sinta estranhamente isolado, mais do que fisicamente distante”, relata no livro Estética do Frio (Ed. UFRGS, 1992).

As observações do compositor acabaram repercutindo. Porque tocavam nesse nó cego do pertencimento cultural, comum a várias regiões do Sul brasileiro, onde o frio age durante vários meses do ano. A música foi a plataforma inicial, mas o cinema e a literatura estão cada vez mais atentos a a essas particularidades. Nesse viés, há Satolep (Cosac Naify, 2008), bela ficção memorialística de Ramil sobre sua cidade natal, Pelotas (RS), com personagens fantasmáticos envoltos em neblina e frio.

Vale frisar que o entendimento da diferença regional não tem o objetivo de reviver ranços separatistas. Ao contrário. Os artistas que espontaneamente se reuniram (ou podem ser reunidos) em torno da estética do frio buscam a integração. Há neles o combate aos clichês reducionistas da cultura de massas, que relega boa parte da diversidade cultural brasileira a algo estrangeiro, tachado até de europeu para melhor caricaturar a estranheza postiça. Porque há realidades regionais que nunca vão caber na imagem hegemônica de um país suarento e compulsivamente alegre. Nem na quimera tecno-xamânica da cultura globalizada. Mas que também não cabem na noção igualmente reducionista do gaúcho mítico, com certificado de origem controlada conferida e vigiada pelos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs).

Historiadores como Sandra Jatahy Pesavento e Tau Golin (A Ideologia do Gauchismo, Porto Alegre, Ed. Tchê, 1983) demonstraram que o mito ufanista do gaúcho não passa de um constructo ideológico, uma invenção a serviço de um projeto político irradiado do latifúndio das estâncias (fazendas).

Para Golin e Pesavento, essa mitologia começou a ser forjada após a dispersão dos povos indígenas das Missões Jesuíticas pelo Tratado de Madri (1750) e pela necessidade de aglutinar as populações marginais catequizadas em projeto cujo motor era a mão de obra rural barata e bucha de canhão nas várias guerras de fronteira. Nem a indumentária emblemática do gaúcho, a bombacha, escapa à revisão histórica. Golin afirma que a adoção desse vestuário como característico do pampa remonta “à Guerra da Crimeia (1853-1856), quando as fábricas inglesas produziram milhares de uniformes para o exército da Turquia. Todavia, o conflito terminou antes do esperado e os ‘pantalones turcos’ ficaram encalhados. O mercado rio-platense foi a salvação para tão grande prejuízo”. E conclui: “O gaúcho só passou a usar bombachas porque o mercantilismo inglês não admitia saldo negativo em seu caixa”. Duro golpe nos que ainda acreditam na xenófoba visão cultural regionalista.

Publicado originalmente na edição impressa #2.

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