A exposição é uma manifestação política

Estamos Aqui destaca a cena independente de arte que gravita o Ateliê 397, com “construção subtrativa" no Sesc Pinheiros

Cris Ambrósio

Publicado em: 19/01/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Gestos de construção subtrativa, de Edu Marin (Foto: Divulgação)

A palavra ocupação já foi muito mais próxima da ideia de invasão. O valor negativo e criminal, em sua ressignificação contemporânea, adquiriu conotação inversa: a ocupação faz contraponto à invasão. Ela toma um território que lhe pertenceria legitimamente, não fosse pelo direito a ela negado. A ocupação ocorre nos movimentos sociais ligados à terra e moradia, na conquista do protagonismo por grupos invisibilizados, no apoderamento de algo que transcende a propriedade material das coisas.

Ocupação Estamos Aqui é a exposição atualmente em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A organização é assinada pelo Ateliê 397, espaço independente de arte que comemora 20 anos de existência e, desde 2021, está instalado em um espaçoso galpão na Barra Funda, bairro com tradição fabril e operária que contrasta com o abastado centro financeiro que fica a poucos minutos do Sesc Pinheiros. A consideração desses entornos e da cidade como um todo, constituídos por desigualdades extremas e dinâmicas excludentes, é um dos motes para a curadoria de Thaís Rivitti e equipe, que se refere ao território em sentido amplo: a cidade e o corpo, ocupados por espaços independentes, coletivos, movimentos sociais e identidades não-normativas.

O portão de entrada, na área externa do prédio, introduz a exposição como manifestação política. O trabalho de Erica Ferrari pergunta, ao longo de muitos metros, “para onde vão os/as trabalhadores/as?”, sob um véu de tela fachadeira. Esse gesto de mostrar e esconder que se apresenta na obra inaugural da mostra irá se replicar de diferentes formas em Estamos Aqui; revelações estruturais da sala, apresentação dos discursos dos artistas em primeira pessoa nas fichas técnicas, trabalhos que contêm vozes dissonantes ou sugerem conflitos latentes.

No projeto expográfico, de Edu Marin, a montagem se vale da reutilização e desmonte de materiais do próprio Sesc. Paredes tiveram suas estruturas de metal expostas e janelas foram desencapadas do insulfilm, de forma que o ambiente tem suas fronteiras questionadas e a interação espacial enfatizada. Artistas da mostra também aderem ao procedimento, usando materiais de descarte ou se apropriando da edificação da sala. “Gestos de construção subtrativa” é um trabalho de Marin que consiste na a remoção do revestimento do piso, despindo o carpete e o assoalho, tornando visível seu interior, sobre a qual cria uma ilha onde dispõe ovos de plástico; se não estivéssemos vivendo uma crise alimentar, talvez seu efeito fosse puramente formalista. Em Estável, C.L. Salvaro decompõe virtualmente o forro do teto e cria um totem imaginário, ação mostrada em um monitor também no teto, assemelhando-se a um obelisco de demolição.

tentação da tela verde, de Bruno Baietto (Foto: Divulgação)

Em certos momentos, fica flagrante alguma rigidez institucional aferindo sobre a execução de um projeto que se ancora na experimentação com o espaço e o conteúdo. Um momento em que essa situação salta aos olhos envolve a televisão mostrando os vídeos do projeto A Revolução Não Será Televisionada e do coletivo BijaRi, que criaria uma sobreposição com a vista da cidade, caso não houvesse um tapume preto cobrindo o trabalho, em uma provável ação de pudor pós-Queermuseu.

Mas o confronto, pressuposto na noção de ocupação, não é diluído em todos os momentos. O trabalho de Bruna Kury, Mate o Branco Dentro de Você, exibe a frase sobre um espelho e oferece um caderno de capa preta para o visitante redigir sua interpretação da frase ou intervir como desejar. As anotações, já nos primeiros dias da mostra, disparavam rechaço ou apoio total, ignorando o convite à interpretação da sentença, diante do enfrentamento do próprio reflexo. As opiniões extremas à proposição de Kury expõem de maneira bem didática a polarização que torna a reflexão sobre a ocupação de territórios mentais e ideológicos necessária.

Ocupação Estamos Aqui
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195
Espaço Expositivo (2º andar)
Terça a sábado, 10h30 às 20h30. Domingos e feriados, 10h30 às 18h30. Até 24/4

Organização: Ateliê 397
Equipe curatorial: Thaís Rivitti (curadora), Caio Bonifácio, Erica Burini, Tania Rivitti.

Artistas participantes: A Revolução Não Será Televisionada, Alexandre Wahrhaftig, Guilherme Giufrida, Helena Ungaretti, Miguel Antunes Ramos, ali: leste, Aline Motta, Ana Matheus Abbade, BijaRi, Bruna Kury, Bruno Baietto, C. L. Salvaro, Chico Togni & Kadija de Paula, Edu Marin, Erica Ferrari, Foi à Feira, Guillermina Bustos, Heloisa Hariadne, Isabela Alves, Jaime Lauriano, Kauê Garcia, Laixxmo, Lícida Vidal, Luana Lins, Manuela Costa Lima, Mari Nagem, Natalie Braido, Pedro Gallego, Raphael Escobar, Raphael Franco, Rebeca Ramos, Sergio Pinzón, Serigrafistas Queer, Xiclet, Yiftah Peled

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