A favela venceu?

Personalidades periféricas e não periféricas analisam o slogan que viraliza livros, discos e série fotográficas, ponderando em que medida a arte pode, ou não, ser um meio de transformação da sociedade

Luana Rosiello

N° Edição: 55

Publicado em: 03/10/2022

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

É Verão o Ano Inteiro (2019), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

Historicamente, as favelas são representadas na mídia como a escala mais baixa da pirâmide social. Em novelas e séries, as periferias são palco para criação de núcleos problemáticos, baseados em ideias preconcebidas e personagens que reforçam estereótipos. Nos telejornais, são pauta de manchetes sensacionalistas. Nas artes, porém, diferentes nuances de estilos de vida da periferia são representadas por seus próprios agentes, defendendo, por meio da música e das artes visuais, uma narrativa real. Após tanto tempo com sua imagem desenhada por quem é de fora, a favela encontra brechas para expor sua voz e escrever sua história. Esta reportagem, ainda que em certo sentido possa repetir o padrão histórico problematizado, é escrita por uma repórter não periférica interessada em apurar o movimento de expansão e sedução praticado hoje pelos moradores das comunidades em relação ao que se convencionou chamar de “centro” ou “asfalto”.

“Por onde a gente passa é show, fechou. E olha onde a gente chegou”, cantam MC Guimê e Emicida na música País do Futebol. “É que a favela venceu”, afirmam DJ Matt D, Menor MC, MC GP e Vulgo FK, em trecho de Pandora. A ideia de uma vitória da favela, seja pelo uso de cobiçados itens de consumo, como correntes de ouro, tênis de marcas caras ou carros de luxo, seja pela saída da própria comunidade, é reforçada nas músicas e videoclipes do rap e do funk nacionais. Mas o fato de esses conteúdos serem consumidos por pessoas não periféricas, alheias ao contexto da luta de onde as músicas partem, indica, de fato, a vitória da favela? Há aqui uma narrativa política e implicações sociais efetivas ou tudo não passa de um discurso cultural que virou mercadoria?

A FLOR DEVIA NASCER DA TERRA
“Para mim, a favela vencer significa que ela acabou”, afirma o colunista da Mídia Ninja e apresentador do podcast FRONTeiras Gabriel Rocha Gaspar, em entrevista à seLecT. De saída, Gaspar explica que “a favela venceu” não é um conceito ou teoria, e sim um slogan e, como todo slogan, é uma mentira. Neste caso, a frase indica coletividade, partindo do princípio de que o favelado seria a representação da comunidade onde mora. “Se você falar ‘o favelado venceu’, pode até fazer sentido. A favela não é uma coisa feita para existir. Estamos falando de precariedade, um lugar de ausência do poder público, exceto da polícia”, complementa.

A relação periferia-centro posiciona essas comunidades como depósitos para o exército de reserva do capitalismo e, após serem destituídas de seus significados sociais e históricos, são alçadas a produto cultural. “O projeto que está em curso hoje, não só no Brasil, mas no mundo, com a plataformização do trabalho, faz com que a favela perca mais ainda. Essa coisa que estão chamando de “favela venceu”, que é o Kondzilla na Netflix, ou a Anitta no Coachella, sempre existiu. Novidade é chamar carroceiro de empreendedor. É ver que até no lixão nasce flor, apesar de que a flor devia nascer da terra, não do lixão”, afirma Rocha.

Fotografias da série Rituais Estéticos da Periferia (2020), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

A estética da favela virou cult e as “pessoas do asfalto” – as que vivem em bairros de classe média e nobres – tornaram-se descoladas e, supostamente, livres de qualquer preconceito. “Tudo começa pela periferia, por pessoas pretas que estão no corre há muito tempo. Só depois essas coisas são apropriadas”, afirma Dalila Coelho, jornalista e artista que produz fotografias analógicas a partir de rituais estéticos da periferia, à seLecT. “Acredito que não só as questões da estética feminina, como o bronzeamento e a nailart, mas também a barbearia, a moda, a música, nascem na periferia e depois viram hype.”

Mesmo na primeira década dos anos 2000, quando se tornou tendência entre a juventude de classe média ouvir a dupla de funk carioca Cidinho & Doca, o funk e o que ele representa continuaram sendo censurados pela sociedade. Essa estigmatização, segundo o livro Cria de Favela, escrito pela jornalista e deputada federal Renata Souza, que também é integrante da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e atuou como chefe de gabinete da vereadora Marielle Franco, foi acompanhada por sua glamourização, algo que acontece quando uma prática tida como exótica é incorporada pela indústria cultural. Gabriel Rocha Gaspar corrobora a tese: “Não tem nada de diferente entre o sucesso do Kondzilla e o sucesso do produtor estadunidense Berry Gordy, nos anos 1960. É um empresário negro em um ambiente branco. Então, isso significa uma vitória do povo preto? Não, significa a vitória de um preto, e isso é sistemicamente previsto. A favela só vence no dia em que não existir mais cadeia, no dia em que existir total e absoluta igualdade de oportunidades, no dia que acabar a relação centro-periferia”.

Fotografias da série Rituais Estéticos da Periferia (2020), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

VEM PRO BAILE
A música é um mecanismo de identidade, pertencimento e crítica social para pessoas que vivem ou crescem na periferia, uma vez que traz à tona vozes criminalizadas e silenciadas por representações hegemônicas, tornando-se uma ferramenta de comunicação. ”Eu vejo a arte como um caminho de transformação. Onde eu moro e a música que faço, que é música eletrônica de favela, servem para mudar o pensamento da galera. E eu tô onde? Tô na favela, então, são essas as coisas que a gente tá precisando discutir agora, tá ligado?”, afirma o rapper mineiro FBC à seLecT.

Para contornar os estigmas relacionados ao funk, o cantor lançou, em parceria com o produtor VHOOR, BAILE, disco de Miami Base, produzido na Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte, com referências do funk carioca. Além de um ritmo contagiante, as músicas fazem críticas às condições de vida dos moradores da periferia mineira, denunciando questões como o crime, a violência e a atuação polêmica da polícia. “Durante o processo criativo de BAILE, priorizamos um raciocínio político e atual. Temos esse dever de falar sobre questões sociais, denunciar a violência policial nos bairros, a criminalização do baile funk, e várias outras lutas sociais. Não podemos deixar essas denúncias de lado”, diz o produtor.

É Verão o Ano Inteiro (2019), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

Ao longo de dez faixas, o disco estabelece uma narrativa, partindo do ponto de vista de um personagem central, Pagode, pai de família, morador da favela, trabalhador, que frequenta o baile da UFFÉ. A história começa quando, na saída do baile, Pagode é surpreendido pela polícia, que o prende acreditando que uma arma encontrada por perto pertence a ele, quando, na verdade, foi escondida por outro personagem, Paulinho, que assiste à cena e nada faz. A história desenrola-se com Pagode de volta à comunidade e reencontrando um antigo amor, Jéssica. Os dois frequentam bailes juntos até que, um dia, Pagode a vê dançando com outra pessoa o passinho que ensinou a ela. O disco acaba com a milícia invadindo a comunidade.

Segundo VHOOR, as músicas de BAILE foram estrategicamente pensadas para acessar outros contextos, afirmando a todos que o funk é uma manifestação cultural, e que um trabalho de qualidade definitivamente pode nascer de realidades periféricas. “É necessário ocupar certos espaços para sermos validados como produtores de cultura. Para nós, artistas da periferia, é importante chegar nesse público (de outras classes sociais), é isso que nos mantém financeiramente e possibilita o desenvolvimento do nosso trabalho. Mas, no geral, a gente ainda não ganhou nada. A favela, para nós, não venceu tanto (risos). Por isso temos de incomodar.”

Negligenciar o funk enquanto cultura popular é negar a vivência da juventude favelada, sintoma do preconceito linguístico e do uso discriminatório que o mercado brasileiro faz do estilo e de seus cantores. Nesse sentido, só é qualificado como cultura aquilo que o mercado absorve e a indústria cultural aplaude. “É natural que as músicas negras, ditas folclóricas e feitas pelos nativos, sejam ouvidas. Quando é bom, a galera com poder econômico vai se apropriar. Isso aconteceu com o samba, com o rock e vai acontecer com o funk, na verdade, já está acontecendo”, afirma FBC.

Enquanto artistas, a dupla acredita que o importante é não deixar que se apropriem de seu discurso, e que os meios de produção e os recursos resultantes do trabalho voltem de maneira justa a eles. “O trabalho partiu todo de nós, e estamos mantendo com a gente e, se passar disso, está errado. Enquanto estiver aqui, estaremos no controle”, completa o cantor, em entrevista à seLecT.

É Verão o Ano Inteiro (2019), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

ARTE COMO TRANSFORMAÇÃO
Um movimento de revisão dos modelos e princípios institucionais levou às salas expositivas de museus, nos últimos anos, um número maior de artistas mulheres, negros, indígenas e periféricos. Similar ao ramo musical, muitos artistas que, em sua produção, discutem questões identitárias e de pertencimento atingem o sucesso e acabam em grandes galerias de arte ou em salões de festa de famílias ricas. A “tendência” no campo das artes visuais segue a mesma lógica: é esse público que possibilita o crescimento financeiro e profissional de artistas favelados. Enquanto não sabemos se isso simboliza uma mudança efetiva de pensamento e atitude, projetos buscam gerar uma mudança significativa na vida de pessoas negligenciadas pelo sistema, abrindo espaço para mais possibilidades de vitória da favela. O projeto Expresso, idealizado por Daniela Machado, que em sua adolescência cumpriu medida socioeducativa na Fundação Casa, parte da vontade de desmitificar a detenção para menores de idade e criar um lugar de desenvolvimento pessoal. “Daniela percebeu que estava trabalhando para retroalimentar uma elite, uma captação de recursos para pessoas que já possuem recursos. Ao ver essa lacuna, ela propôs, a Guilherme Teixeira e eu, criar esse projeto que visa mudar a vida de pessoas que orbitam em volta do dito centro”, conta Carollina Lauriano, curadora do Expresso, à seLecT.

Rituais Estéticos da Periferia (2020), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

Um grupo de 30 adolescentes, com idades entre 12 e 18 anos, que cumprem medida socioeducativa na cidade de São Paulo participou do projeto, que finalizou sua primeira etapa em dezembro de 2021. A iniciativa artística e cultural envolveu ateliês de arte, formados por sete artistas-educadores, selecionados estrategicamente pelos curadores para dar visibilidade e engajamento ao projeto: Ana Raylander Mártir dos Anjos, Bruno Dunley, Élle de Bernardini, Igi Lola Ayedun, Jaime Lauriano, Moisés Patrício e Raphael Escobar. Os artistas trabalhavam diretamente com os adolescentes, designados no projeto como jovens artistas: Anny Fereira, Andrey, Camilly, Du, Caíque C., DJ Monstro, Elisa, El Lipy, Estephany, E 07, Favela, G.Estevam, Hariel, Kauê Artes, Mateus Oliveira, Marcos O, Marquinhos, Marketing, Mascarado, Mg Da Sp, MC GH da Capital, João Poeta, MC mw.Oficial, Michele, Santiago, Tereza, Thiago Henrique, Vitória, Wendy e Xico.

“Vemos o projeto como uma formação muito mais ampla. Arte é um ponto de partida para que esses jovens encontrem seus lugares no mundo, tenham perspectivas de futuro e, principalmente, entendam seus direitos e deveres. Todos os processos defendem a potência da arte como esse lugar de transformação”, afirma Carolina Lauriano. Os objetivos do Expresso são propiciar o convívio com a arte como uma questão fundamental para a vida, aumentar o repertório lúdico desses jovens e, ao mesmo tempo, contribuir para o processo de reinserção social. As aulas e vivências artísticas deram-se nos formatos on-line e presencial, com atividades que abordaram temas como artes visuais, literatura, moda e música.

O projeto teve duração de quatro meses, com uma mostra final em uma Fundação Casa desativada, em Parada de Taipas, na Zona Norte de São Paulo. “É muito fácil dizer ‘a favela venceu’ e deslocar a produção periférica de seu contexto para uma galeria do centro, isso facilita o entendimento por parte de certa branquitude e do mercado, porque está dentro de um lugar de funcionamento da sua própria máquina. Mas, quando você força esse deslocamento para a realidade in loco, é mais complexo”, revela Lauriano, que possui uma atuação como curadora e crítica de arte centrada em causas sociais, sobretudo a presença da mulher negra na arte.

É Verão o Ano Inteiro (2019), de Dalila Coelho [Foto: Cortesia da Artista]

O projeto continua com Refúgio, encontros semanais com 14 dos 30 adolescentes que participam do Expresso. Pode parecer pouco, mas são 14 jovens a menos à mercê do sistema social brasileiro, cada vez mais complexo social e economicamente. Para Lauriano, as chances de os espaços da arte voltarem a ser restritos são pequenas, já que “as pessoas descobriram sua própria existência, e isso é um lugar de não se deixar calar mais”.

“Eu colocaria essa frase no tempo contínuo: a favela está vencendo. Ou seja, não significa que chegou nesse lugar de conclusão. Estamos no meio de um processo. Colocar essa frase no passado pode indicar que todos os problemas e questões estruturais foram resolvidos, o que não é verdade. Ainda estamos entendendo o que significa essa vitória e em qual perspectiva ela está inserida. O que é vencer? Vencer em uma perspectiva branca, de elite, de ascensão de capital, acho que isso deve ser questionado.”

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