A ficção visionária de Borges

Angélica de Moraes

Publicado em: 17/12/2011

Categoria: Entrevista, Reportagem

As imensas bibliotecas imaginadas pelo escritor, tornaram-se realidade com a web e os e-books

Borges

Jorge Luis Borges, em foto de 1984. (foto: Horacio VillaLobos/Corbis)

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) previu, com sua imaginação de grande ficcionista, as bibliotecas infinitas que vivenciamos hoje com os bancos de dados digitais. Imaginou uma experiência cognitiva, o Aleph, que abrange o mundo, como a web. Só não conseguiu imaginar o mundo sem livros. Talvez porque eles, mesmo abandonando sua carne de papel, transformados em puros impulsos elétricos, nunca deixarão de ser livros e nos levar ao fascínio da literatura. Nesta entrevista imaginária, baseada em textos de seus livros, Borges fala de livros e leitura.

Boa tarde, senhor Borges. Ou o senhor prefere ser chamado de Jorge Luis?

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura e essa literatura me justifica. Eu haverei de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros… (1)

Imaginava essa relação entre vocês bem mais próxima. Houve até o encontro entre Borges e Borges, descrito no seu conto O Outro. Como reagiu a esse encontro?

O fato aconteceu em fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo, para não perder a razão. Seriam umas 10 da manhã. Eu estava recostado em um banco, de frente para o Rio Charles. Senti de golpe a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta do meu banco alguém tinha se sentado. Eu teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida para não parecer mal-educado. (2)

Mas os dois Borges são escritores e amam os duplos, os espelhos, os labirintos, os tigres e, especialmente, os livros e as bibliotecas. A morte do livro de papel o preocupa?

As emoções que a literatura suscita são, talvez, eternas, mas os meios devem constantemente variar, até mesmo de um modo levíssimo, para não perder suas virtudes. Elas se gastam à medida que o leitor as conhece. Daí o perigo de afirmar que existem obras clássicas e que o serão para sempre. Clássico não é um livro, repito, que necessariamente possui tais ou quais méritos; é o livro que as gerações dos homens, ungidas por diversas razões, leem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade. (3)

A natureza do livro se manterá íntegra mesmo que os meios de editá-lo e levá-lo ao leitor tenham sido transformados pelo livro eletrônico e as livrarias virtuais?

Um bibliotecário de gênio descobriu a lei fundamental da biblioteca. Esse pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as 23 letras do alfabeto. (4)

Cite um dos argumentos que costuma usar para explicar sua bibliofilia.

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão de sua voz; logo temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação. (5)

É possível ensinar o amor à leitura?

Um livro não pode requerer um esforço, a felicidade não deve requerer um esforço. Fui professor de literatura inglesa durante 20 anos, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. Sempre disse aos meus alunos que tenham pouca bibliografia, que não leiam críticas, que leiam diretamente os livros; entenderão pouco, talvez, mas sempre apreciarão e estarão ouvindo a voz de alguém. Eu diria que o mais importante de um autor é sua entonação, o mais importante de um livro é a voz do autor, essa voz que chega até nós. (6)

Seu conto A Biblioteca de Babel parece descrever o que são hoje os bancos de dados on-line (6). A descrição que aparece aí lembra o filme O Nome da Rosa, adaptação do livro de Umberto Eco, que homenageou o senhor criando o personagem Jorge de Burgos, um monge cego.

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que enxergam. (7)

Sua descrição do fenômeno cognitivo que denominou de Aleph aproxima-se do conceito de ciberespaço. Concorda?

O Aleph é o lugar onde estão, sem confundir-se, todos os lugares da terra, vistos desde todos os ângulos. O que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço. (8)

1. Borges y Yo, in El Hacedor (1960), Obras Completas II, pág. 221, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007
2. El Otro, in El Libro de Arena (1975), Obras Completas III, págs.13-20, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007)
3. Sobre los Clásicos, in Otras Inquisiciones (1952), Obras Completas II, pág.184, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007)
4. La Biblioteca de Babel, in Ficciones (1944), Obras Completas I, pág.561, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007
5. El Libro, in Borges, Oral (1979) Obras Completas IV, págs.197-203, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007)
6. La Biblioteca de Babel, in Ficciones (1944), Obras Completas I, pág.558, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007)
7. Posesión del Ayer, in Los Conjurados (1985), Obras Completas III, págs.573, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007)
8. El Aleph, in El Aleph (1949), Obras Completas I, pág.750-753, Ed. Emecé, Buenos Aires, 2007)

As obras de Jorge Luis Borges são publicadas no Brasil atualmente pela Companhia das Letras. Os quatro volumes de As Obras Completas foram editados em português pela Livraria do Globo, de 1998 a 2005.

*Publicado originalmente na edição impressa #3.

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