A floresta, primeiras palavras

No editorial da edição #49 da seLecT, Paula Alzugaray apresenta os conceitos que movem a primeira edição da série Floresta. Iniciamos nossos contatos com a Amazônia por suas margens e periferias

Paula Alzugaray

Publicado em: ANO 09, Nº 49, Jan/Fev/Mar 2021

Categoria: Destaque, Editorial

Midas (2009), de Armando Queiroz (Foto: Cortesia do artista)

Na introdução de Cultura Amazônica – Uma Poética do Imaginário (2015), o poeta e pensador paraense João Jesus Paes Loureiro apresenta o distanciamento, ou o estranhamento, como conceito-chave para sua análise do imaginário amazônico. Extraída da teoria teatral de Bertolt Brecht, a ideia de distanciamento confere um sentido dialético às relações dos homens com outras realidades: “Relações em que a motivação estética e a consciência do real devem permanecer juntas numa mesma atitude de espectador-participante ou receptor ativo”, aponta Paes Loureiro. 

Nesta edição #49 da seLecT, que configura uma introdução à série de publicações que dedicaremos em 2021 aos imaginários da floresta, elegemos como primeiras palavras as margens e periferias. Num gesto de prudência e respeito, nos aproximamos de nosso objeto de estudo pelas margens, cientes do nosso lugar distanciado de “receptores ativos” dessa que é a maior floresta tropical do mundo, que representa dois terços das florestas naturais do Brasil e que cobre quase 50% do território nacional. Amazônia, que neste trágico 2020 teve o maior registro de incêndios de sua história e está gravemente ameaçada pela atual gestão governamental. 

Daqui, deste árido bioma urbano chamado São Paulo, eu, Leandro Muniz e Nina Rahe iniciamos um movimento de aproximação com a floresta no momento auge da primeira onda da pandemia. Começamos a buscar, pelas vias digitais, os informantes e os contadores das histórias que nos abriram as primeiras trilhas de acesso. Estabelecemos uma agenda de reuniões de pauta com diversos artistas e pesquisadores do Norte do país, entre eles, Rafael Bqueer, que nos disse que seu desconhecimento sobre suas raízes étnicas o levou a investigar “as identidades afro-indígenas que nos foram negadas, já que a violência da colonização apagou nossas histórias”. E assim, em busca da própria identidade ancestral, remixar signos locais e globais na construção da própria imagem. 

Decidimos que as quatro edições florestais de 2021 serão escritas com ativa participação de nossos interlocutores, os habitantes das florestas e das cidades amazônicascorpos afro-indígenas que constroem suas próprias narrativas. As vozes que abrem a edição são de Orlando Maneschy e Keyla Sobral, curadores da Coleção Amazoniana da Universidade Federal do Pará, um projeto em movimento que arregimenta obras que ativam reflexões sobre um território múltiplo. As amazonianas se somam e se contrapõem às necrobrasilianas, pesquisa de Moacir dos Anjos com nomes, como o amazonense Denilson Baniwa, que se apropriam de representações do Brasil feitas por artistas viajantes, extraindo delas significados novos e críticos, construindo narrativas contra-hegemônicas e constituindo outra memória de Brasil. 

Imbuídos da atitude de viajantes-participantes das múltiplas Amazônias, investigamos nesta edição os sentidos das margens e das periferias. 

Margem é o partido visual assumido pela designer Nina Lins nesta edição, tensionando os limites das páginas da revista;

Periferia é o encontro da floresta com a cidade, que se processa nas imagens de Dirceu Maués, Nay Jinknss e Armando Queiroz do Mercado Ver-o-Peso, de Belém;

Margem é a zona de atuação de Uýra Sodoma nos igarapés poluídos, nos bairros sem saneamento básico de Manaus; 

Periferia é o berço da cultura YouTube, onde apareceu Leona Vingativa, viralizando imagens em baixa resolução; 

Margem é a borracha queimada de pneus, o asfalto derretido e outros “materiais de fronteira”, trabalhados por Frederico Filippi; 

Periferia são os trânsitos ilegais, a clandestinidade, o não lugar, a deriva praticada pelos filmes de Maya Da-Rin;

Margem é o limite incerto entre o Brasil Nativo e o Brasil Alienígena, como ensina Anna Bella Geiger;

Periferia é o centro da cultura do remix, a cena drag de montação, a afroficção, a Mãe Terra intergaláctica, o Curupira na estrada fantasma rumo à Realidade; 

Margem é sair da periferia de Belém e ocupar os espaços de poder da arte contemporânea; 

Periferia, assim como centro, é um conceito vago e relativo que ativamos neste momento divisor de águas para a vida no planeta.

O aprendizado com a pandemia e com a grave crise ambiental é entender que somos parte de um sistema articulado – um cosmo – e que temos de encarar o futuro com imaginação, invenção, empatia e cooperação. Feliz ano-novo. 

Tags: , , , ,

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.