A gestação de um espaço

OM.art nasceu sob a égide experimental, sensorial e colaborativa da obra de Hélio Oiticica. Essa herança é agora seu maior desafio

Paula Alzugaray
Montagem de Rhodislandia de Helio Oiticica no Studio OM.art (Foto: Demian Jacob, OM Art)

Em carta escrita para Haroldo de Campos, em 1971, Hélio Oiticica contou que Rhodislandia era o projeto “de mais peso” que faria desde que chegara a Nova York, um ano antes. Realizado na University of Rhode Island, em Kingston, o projeto era composto por uma sala coberta de pedra brita cinza no chão, dividida por telas de nylon “fazendo cubículos para serem feitos ninhos”, segundo a carta de HO. Os ninhos foram o primeiro conceito espacial desenvolvido por Oiticica nos EUA. Foi implantado inicialmente na exposição Information (MoMA-NY, 1970) e depois nos apartamentos em que o artista viveu em Nova York – sempre convertidos em ninhos. A ideia dos ninhos era criar espaços que funcionassem como células, celeiros onde comunidades eram gestadas. Neles, os estudantes da universidade de Rhode Island seriam convidados a improvisar “acontecimentos”.

  • A montagem original de Rhodislandia, em foto de Hélio Oiticica
  • A montagem original de Rhodislandia, em 1971, em foto de Hélio Oiticica

Rhodislandia foi duas vezes remontada: na exposição Hélio Oiticica – O Museu é o Mundo (Itaú Cultural, SP, 2010) – onde José Celso Martinez Corrêa performou, entre outros artistas convidados –, e em maio último para a inauguração da OM.art, no Rio. Com a curadoria de Cesar Oiticica Filho, o espaço artístico de Oskar Metsavaht remontou o penetrável e instaurou seu programa de ações. Ao longo de três meses, os nichos da instalação receberam projetos de Berna Reale, Ayrson Heráclito, Luciana Magno e Solon Ribeiro, e do coletivo Opavivará.

No sábado 4/8, dia de encerramento da mostra com a performance Sofáraokê, do Opavivará, o espaço ainda guardava os rastros das três ações que haviam passado antes por lá. Como um arquivo vivo. Circulando livremente pelo penetrável, o público podia se relacionar com os objetos deixados pelos artistas, imaginando os acontecimentos anteriores, ou soltar a voz no sofá musical do coletivo carioca. Tocar piano também era uma possibilidade já que, a exemplo da montagem original em Rhode Island, um piano estava instalado em um dos ninhos.

  • Piano, na montagem de Rhodislandia na OM.art (Foto: Paula Alzugaray)
  • Piano, na montagem original de Rhodislandia, da University of Rhode Island, em 1971 (Foto: Hélio Oiticica)
  • Sofáraokê, do coletivo Opavivará (Foto: Paula Alzugaray)
  • Rastros da performance Sua Utopia nas Alturas, de Luciana Magno e Solon Ribeiro, e ao fundo projeção da performance A Frio, de Berna Reale (Foto: Paula Alzugaray)
  • Rastro da performance Buruburu, de Ayrson Heráclito (Foto: Paula Alzugaray)

Inaugurar um espaço cultural com uma instalação de Hélio Oiticica é uma potência (benção?), mas também uma grande responsabilidade. A OM.art começou bem. Casa de Rhodislandia por três meses, o espaço incorporou sua identidade experimental, sensorial e colaborativa, integrando ao ninho artistas vitais como Ayrson Heráclito, que na performance Buruburu (2018) engajou o público em um ritual de limpeza espiritual por meio de um alimento sagrado do candomblé, a pipoca, flor de Obaluaê; e artistas experimentais como Luciana Magno e Solon Ribeiro, que propuseram exercícios coletivos de celebração de utopias, evocando o texto Aspiro ao Grande Labirinto, de HO.

Ao longo do tempo em que a obra ficou montada e foi ativada, gestou-se ali um projeto de espaço. Muito pode-se aprender de Rhodislandia e das possibilidades que ela abre. Espera-se, então, que a reverberação da obra de Hélio Oiticica seja levada adiante como uma espécie de statement.

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