A inteligência sonora de Gisela Eichbaum

Centenário da artista é celebrado em duas mostras abertas em São Paulo antes da quarentena. Obras na Galeria Mapa podem ser vistas aqui

Publicado em: 04/04/2020

Categoria: Da Hora, Destaque, Review

A vela brava (1950), de Gisela Eichbaum na Galeria Mapa (Foto: Paula Alzugaray)

No silencio das cidades imersas em quarentena para impedir a disseminação da Covid-19, as cenas urbanas pintadas por Gisela Eichbaum, nos anos 1950, parecem ganhar uma sonoridade inaudita. O clima melancólico que paira sobre a fila de operários representada na obra Saída da Fábrica (1955) repentinamente dá lugar à memória de uma sonoridade que não estamos atualmente permitidos a escutar.

Nascida em Manheim, Alemanha, em 1920, Gisela Eichbaum chegou a São Paulo em 1935, acompanhada dos pais, escapando da crise política e social europeia que antecipou o surgimento do nazismo. No Brasil, ela construiu meio século de trajetória artística, com uma produção exuberante, prolixa e uma carreira internacional que inclui duas participações em Bienais de São Paulo. Na ocasião do centenário de seu nascimento, duas mostras foram inauguradas em São Paulo: Poética das Cores, na galeria Mapa, e Trabalhos Sobre Papel 1957-1976, no Museu Lasar Segall. 

Com 12 pinturas sobre tela e 35 pinturas sobre papel, a antologia na Mapa apresenta um recorte criterioso de sua trajetória, organizado de forma temática pelo curador Antonio Carlos Suster Abdalla. Em um primeiro grupo, figuram obras de temática social, em que as atenções da artista estavam voltadas para a vida em sociedade: a saída da fábrica, a sala de aula, a convivência em família. Notavelmente, cenas que parecem pertencer a um passado remoto. 

Vida íntima e vida social, interior e exterior se tramam ao longo de toda a produção de Eichbaum. A série de naturezas-mortas com garrafas e frutas pousadas sobre superfícies de mesas, por exemplo, poderiam remeter às paisagens urbanas e às linhas do horizonte.  Assim como os casarios das cidades evocariam a memória dos objetos domésticos sobre as mesas. Dessas composições de fatura pictórica notável que tende ao expressionismo, sobressaem estudos de volumes, pesos e escalas que revelam uma vontade geométrica que se firmaria como pesquisa após a passagem da artista pelo Ateliê Abstração de Samson Flexor, nos anos 1960. 

Garrafas, copo e fruta (1959) de Gisela Eichbaum (Foto: Divulgação / Cortesia da família da artista)

Cidades misteriosas
Da luz crepuscular das paisagens de beira de estrada – sonhadas ou lembradas – até as urbes cinzentas – de geometria afirmativa e de um “luminoso sóbrio”, segundo o crítico Geraldo Ferraz –, o protagonismo da temática urbana só se fortaleceria ao longo das décadas na obra de Gisela Eichbaum. 

Destaque-se aqui a série das “cidades misteriosas”, realizada ao longo dos anos 1950 e 60, cujas pinturas Leônia (1958), As Torres Misteriosas (1959) e Perínzia (c. 1960) estão em exibição no Museu Lasar Segall. Esses trabalhos dão forma e plasticidade às cidades imaginárias (sempre com nomes de mulheres) que o viajante Marco Polo narrou ao imperador dos tártaros Kublai Khan. “Perínzia – asseguraram os astrônomos – espelharia a harmonia do firmamento; a razão da natureza e a graça dos deuses determinaram o destino dos habitantes”, escreveria Ítalo Calvino, em Cidades Invisíveis, em 1972. 

As narrativas daquele que ficou conhecido como o maior viajante de todos os tempos viriam iluminar as angústias e as surpresas da jovem viajante alemã que atravessara o oceano, vindo encontrar no Sul o seu refúgio.

Obra de Gisela Eichbaum na Galeria Mapa (Foto: Divulgação)

Marinhas e metafísica
Da natureza aventureira da viagem e do porto seguro e, em certa medida, hostil, encontrado no Brasil, chega-se ao fascinante conjunto de trabalhos das marinhas, exposto na Galeria Mapa. Aqui, toda a inteligência espacial da artista conflui em movimentos verticais, oblíquos e circulares, apontando em direção ao céu. Onde melhor se revela a atmosfera metafísica de sua obra é a composição que representa um grupo de pessoas reunido ao redor da haste de uma vela de barco, em confabulação coletiva quase religiosa, evocando uma sonoridade imaginária. 

Em resenha publicada na Folha de S. Paulo, em setembro e 1961, José Geraldo Vieira apontou que a artista deu às suas composições de temas rurais um “efeito quase acústico, de expansão atmosférica”. O crítico atribuía essa qualidade à formação musical da artista, cujos pais eram pianistas, originários de uma família de músicos desde o século 17.  

Essa “virtude híbrida” do gráfico e do acústico, que impregnou tanto as paisagens rurais quanto as marinhas de Gisela Eichbaum, lhe conferem um valor metafísico também atribuído a outra artista que voltou à luz recentemente, Elenore Koch (1926-2018), contemplada na mostra Mínimo, Múltiplo, Comum, na Pinacoteca de São Paulo, em 2019. A homenagem a Gisela Eichbaum, assim como o resgate de Koch, configura capítulo importante da restauração das histórias das mulheres artistas no Brasil. 

Pintura de Gisela Eichbaum em exibição na Galeria MaPa (Foto: Divulgação)

 

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