A invenção da xilo-instalação

Inspirado por memórias da infância no sertão do Ceará, Francisco de Almeida cria ferramentas e mescla técnicas em uma xilogravura expandida

Luana Rosiello

Publicado em: 30/09/2022

Categoria: Da Hora, Reportagem

Karatheús V (2013), de Francisco de Almeida [Foto: Cortesia Galeria Leonardo Leal]

Nascido em Crateús, município do Ceará, Francisco de Almeida cresceu observando o trabalho do pai, ourives e fotógrafo; da mãe, bordadeira e costureira; e da avó, rendeira. Aos 15 anos, entendendo-se também um artista, Francisco se mudou para Fortaleza e ingressou em cursos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Começou pintando figuras humanas e paisagens, em pinceladas de tinta à óleo, sobrepostas ao desenho, esboçando os temas que orbitariam sua poética em cinco décadas de trabalho: o misticismo e o imaginário nordestino.  

Os Quatro Elemento II, gravura de 18m de Francisco de Almeida, exposta no Espaço Cultural Unifor

Depois vieram os desenhos a carvão e os retratos a pastel seco e a pastel óleo. Mas a gravura chegou logo para definir sua paixão e o desenho e a pintura foram submetidos à hierarquia da produção gráfica. “Estudei diversas técnicas e fui aluno do gravurista cearense Sebastião de Paula. Quando me aproximei da xilogravura, além de me identificar, vi a oportunidade de juntar todas as técnicas que estudei em um só procedimento”, explica o artista de 60 anos, à seLecT.

Nossa Senhora dos Scribas e os Anjos (2019), de Francisco de Almeida [Foto: Cortesia Galeria Leonardo Leal]

O interesse pela xilogravura nasceu com o prazer do entalhe, na persistente luta gestual contra a resistência das fibras e na inesgotável energia da prensa.  Suas matrizes refletem a religiosidade, o imaginário nordestino e o mundo das alegorias, desafiando regras, tamanhos e normas gráficas ao se expandir em grandes formatos. “Minha avó é a minha maior inspiração. Lembro, ao anoitecer, de ver um terço em suas mãos, e de ouvir suas preces. Meu avô, também. Ele era considerado um curandeiro das fazendas”, conta o artista. Muitas de suas obras, como Nossa Senhora dos Scribas e os Anjos (2019) e A Dança das Velas (2019), são chamadas pelo artista de “altares”, por enaltecerem o divino. Outras podem ser vistas como surreais, como o Dragão e a Serpente (1997), na medida em que misturam realidade e ilusão, em uma narrativa afetiva enraizada na infância.

Invocado os Anjos, o Dragão e a Serpente (1997), de Francisco de Almeida [Foto: Cortesia Galeria Leonardo Leal]

A invenção como método
Como um alquimista da arte, Francisco de Almeida vive em experimentação de técnicas, inventando ferramentas de trabalho. Em determinado momento do percurso artístico, a grande quantidade de matrizes produzidas despertou no artista a vontade de vê-las em conjunto e em continuidade, resultando assim em trabalhos de proporções descomunais. Os Quatro Elementos I – O Dia e A Noite, gravura comissionada para a 7ª Bienal do MERCOSUL, em 2009, intitulada Grito e Escuta, tem 20m x 1,50m e é considerada a maior xilogravura do mundo. O artista conta que, ao total, foram nove meses de produção. O rolo de vinte metros de papel impresso foi desenrolado com a ajuda de um dispositivo de catracas de bicicleta (desenvolvido pelo próprio artista) e a gravura pode, enfim, ser completamente visualizada apenas no ato da exposição. Como um elemento-surpresa. 

Detalhe de Os Quatro Elementos I – O Dia e A Noite, gravura comissionada para a 7ª Bienal do MERCOSUL [Foto: Divulgação]

A literatura de cordel é a inspiração para o mais recente trabalho, exposto na mostra Brasilidade Pós-Modernismo, ao longo do ano de 2021, nas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em Brasília, Belo Horizonte, Rio e São Paulo. A instalação consiste na suspensão de gravuras no espaço arquitetônico, se colocando como uma alusão aos varais que expõem as páginas soltas dos cordéis nas praças públicas das cidades nordestinas.  Mas não tratam tão e somente de xilogravuras, previne o artista. “A múltipla experimentação me leva a questionar essa denominação, pensando se não é redutiva demais”.

  • Vista da instalação na mostra Brasilidade Pós-Modernismo [Foto: Divulgação]
  • Vista da instalação na mostra Brasilidade Pós-Modernismo [Foto: Divulgação]

Suas “xilo-instalações” são um procedimento inédito e altamente inventivo. Possuem o aspecto encantatório das escritas sertanejas, atualizadas para o campo da arte contemporânea. 

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