A nova era do trabalho

Gisela Domschke

Publicado em: 13/02/2014

Categoria: Da Hora, exposições e bienais

Uma entrevista com Mike Stubbs, curador de Time and Motion: Redefining Working Life, exposição em cartaz na Inglaterra

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Legenda: Fragmento de 75 Watt (2013), de Cohen Van Balen, impressão cromogênica presente na exposição Time & Motion: Redefining Working Life (imagem: Divulgação)

Em entrevista exclusiva para a seLecT, o curador Mike Stubbs fala sobre Time and Motion: Redefining Working Life, uma exposição que reúne obras de arte, projetos de pesquisa, materiais de arquivo e intervenções que perfazem um trajeto pelo universo do trabalho, desde o relógio de ponto nos portões das fábricas até o check-in online em nosso escritório em casa ou em um espaço de networking empresarial da região. A conversa aconteceu no FACT (The Foundation for Art & Creative Technology), um centro de arte e tecnologia localizado em Liverpool, Inglaterra.

Time & Motion: Redefining Working Life propõe a tarefa urgente de repensar nossos padrões quotidianos de trabalho. Utilizando o estudo Time and Motion como ponto de partida, a exposição reflete sobre o conceito e o significado de “trabalho” na sociedade de hoje. O estudo em questão foi criado em um momento de reorganização industrial e de surgimento de novas formas de tecnologia. Agora, 100 anos depois a economia industrial deu lugar a uma economia de serviço e de conhecimento, mas ainda estamos usando os mesmos métodos. Como você prevê os novos padrões de trabalho?

Talvez devêssemos ver o trabalho como uma dança? Pós-indústria de serviços, pós-indústria de manufaturados. Provavelmente, quando o processo de produção é removido e terceirizado em outro lugar, nos sentimos mais confortáveis enquanto consumidores. 75 Watt é uma obra que reverte os valores logísticos na cadeia de abastecimento. O artista Cohen Van Balen colaborou com o coreógrafo Alexander Whitley e um grupo de trabalhadores de uma fábrica chinesa, criando uma coreografia na linha de produção, algo que não é útil nem tampouco um objeto. Em uma sociedade onde lazer e trabalho são intercambiáveis, uma série de movimentos dos trabalhadores pode ser entendida como o produto, que incorpora um conjunto complexo de relações em um palco global, ao mesmo tempo que instiga uma nova forma de confiar em relações. Essas relações fundamentalmente desafiam os pressupostos do trabalho e do consumo industriais. Produzir “nada” é uma proposta altamente relevante e valiosa para uma sociedade “bling”, ainda obcecada com Bentleys banhados a ouro e estilos de vida banhados com champanhe.

Setenta e cinco watts é a produção média de energia que um ser humano pode gastar em um dia. E se explorarmos como essa energia pode ser empregada para criar resultados e produtos, como uma dança? Temos escolha em tudo o que fazemos. Quando o trabalho é canalizado e esses 75 watts são multiplicados por uma força de trabalho de 2.000 homens e mulheres em um armazém de distribuição da Amazon, esses 150 mil watts de energia são utilizados para promover nossa humanidade e dar sentido à vida das pessoas, ou estamos apenas transformando seres humanos em robôs?

O trabalho não só consome a maioria do nosso tempo disponível, mas muitas vezes tem um papel importante na forma como definimos o nosso sentido de identidade. O vídeo Workers Leaving the Factory, de Harun Farocki, nos mostra o ato de partida de trabalhadores, saindo dos portões às pressas, através de onze décadas, o que evidencia o quanto eles não se relacionam com o seu ambiente de trabalho. Hoje em dia, os escritórios são projetados para diluir as fronteiras entre lazer e produtividade, a fim de manter os trabalhadores no prédio o maior tempo possível -– um legado claro da contracultura californiana da década de 1960. No entanto, o quão longe estamos daqueles ideais políticos?

A rubrica de oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de repouso – pela qual os trabalhadores lutaram no século 19 durante a campanha para a jornada de oito horas – se evapora para a maioria de nós, para quem o lazer é trabalho, e o trabalho é lazer. Você tem uma ou duas contas no Facebook? Quanto os subempregados estão contribuindo para as novas economias do mundo, enquanto consumidores e jogadores? Ou isso é apenas uma maneira de mascarar o desemprego em massa e deslocar o problema enquanto mudança de padrões de emprego?

Como nosso futuro mundo do trabalho envolve um híbrido de rede, banco de dados e habilidades de comunicação, os papéis tradicionais do trabalho de escritório se tornam ainda mais vulneráveis. A fabricação de produtos representa apenas um em cada dez postos de trabalho nos EUA, e está cada vez mais automatizada com robôs industriais, o que mostra uma tendência onde a produtividade continua a crescer e o emprego a diminuir. O que ainda resta de trabalho sujo a fazer pode ser transferido para um lugar remoto, onde as pessoas trabalham por um salário mais baixo, onde os robôs são muito caros ou ainda não apresentam as competências necessárias. No entanto, esta é uma fase transitória – enquanto a saúde e a educação são distribuídos através de novas tecnologias, e a mineração torna-se automatizada, nós realmente poderíamos estar caminhando para um estado mundial de desemprego.

As tecnologias digitais vêm moldado nossas vidas quotidianas de forma global. Mas frequentemente as condições daqueles que trabalham em fábricas de hardware pelo mundo afora não atendem as regras básicas de trabalho estabelecidas na revolução industrial. Você poderia falar um pouco sobre isso?

O meu avô teve seu primeiro relógio na aposentadoria, quando ele menos precisava dele. Até então, ele havia contado com a sirene do estaleiro Vickers para sinalizar o final do dia de trabalho, assim como sua mulher, para fazer o seu chá. A sirene era o relógio da cidade. É mais difícil de discernir trabalhadores saindo da fábrica quando esses são trabalhadores remotos fazendo o log out de seus computadores. No entanto, embora os portões da fábrica possam ser digitais, eles ainda são reais para a grande maioria. No filme dos Lumière Workers Leaving the Factory Gates, de 1895, existe nitidamente uma fábrica e um lugar de trabalho. Em Workers Leaving the Googleplex – um vídeo com tela dupla – o artista Andrew Norman Wilson investiga a classe marginalizada dos trabalhadores Google Books na sede internacional da empresa no Vale do Silício. Wilson retrata os trabalhadores de “crachá amarelo”, responsáveis pela dura tarefa de digitalização de conteúdo, ao mesmo tempo em que narra os eventos complexos que acabam resultando na demissão de seu cargo na empresa.

Hoje as pessoas alimentam voluntariamente redes sociais e sistemas de crowdsourcing com dados pessoais ou idéias que são depois transformados em ativos de grandes empresas digitais. Como traduzir as tantas camadas diversas da sociedade contemporânea em uma constituição legal, quando o próprio ser humano é um “tecelão de morphisms“?

Quando as fronteiras entre produtor e consumidor entram em colapso, especialmente nas economias digitais emergentes, caracterizadas pelo uso de mídias sociais, é nítido que precisamos de uma rápida revisão de nosso pensamento sobre o emprego. Laborers of Love/LOL, de Stephanie Rothenberg e Jeff Crouse, é um projeto de crowdsourcing que explora a forma como a sexualidade e o desejo são mediados através de novas tecnologias, especificamente, novos modelos de trabalho global terceirizado. O projeto evoluiu a partir de um trabalho mais antigo de Crouse e Rothenberg, intitulado Invisible Threads, um sweatshop virtual no Second Life. LOL tem a forma de um site de entretenimento adulto que utiliza trabalhadores online anônimos para criar em vídeo fantasias encomendadas por “clientes”. Utilizando o Mechanical Turk, uma plataforma de trabalho online criada pela Amazon.com, LOL alavanca uma força de trabalho global de trabalhadores que não são específicos da indústria do sexo, mas sim um grupo diversificado de pessoas que trabalham de casa, usando seu computador. Como na linha de montagem, os trabalhadores de Mechanical Turk coletam imagens e vídeos relacionados a uma certa fantasia de uma diversidade de sites. A visualização de dados em tempo real apresenta no site as diversas locações dos trabalhadores (Waco, Texas, Bangalore, Índia, etc.) e os endereços IP do conteúdo extraído (imagens e vídeo). Esta visualização mapeia o processo e “produção” do vídeo. O produto final é um curta mashup, misto de cinema experimental dos anos 1970 com os filtros enlatados de Photoshop, e reflete, por fim, sobre a forma como o desejo e o prazer estão representados, fragmentados e abstraídos através do consumo de mídia digital online.

Esta é uma das obras em exposição, que utiliza ao mesmo tempo em que reflete sobre o trabalho e o consumo incremental. The Coming Insurrection, um manifesto político francês, descreve assim a vida de trabalho contemporânea: “Hoje o trabalho está vinculado menos à necessidade econômica de produção de bens do que a necessidade política de produção de produtores e consumidores, e de preservar a qualquer custo a ordem de trabalho. Produzir a si mesmo está se tornando a ocupação dominante de uma sociedade onde a produção já não tem um objeto: como um carpinteiro que foi despejado de sua loja e, no desespero, começa a martelar e a serrar a si mesmo.”

Em muitas das obras, incluindo LOL, as definições e representações do trabalho tradicional são confusas, e talvez a imagem derradeira do quão sublime nossa situação se tornou é iPaw Electroboutique – o cão robótico de Aristarkh Chernyshev e Alexei Shulginthat que fica eternamente dando um scroll pelos aplicativos de seu tablet…

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