A ótica extática

O interesse nas relações entre os sistemas de crenças e a autenticidade das imagens aproxima as obras do brasileiro Mario Ramiro e do norte-americano Tony Oursler, ambos colecionadores de fotografias de fenômenos paranormais

Paula Alzugaray

N° Edição: 32

Publicado em: 28/11/2016

Categoria: A Revista, Reportagem

Frame do filme My Saturnian Love(s) (2016), de Tony Oursler (Foto: Cortesia CCS Bard College)

No capítulo final de Ilusão Especular, um clássico brasileiro da teoria da imagem, Arlindo Machado discorre sobre os mundos artificiais construídos pela fotografia. Seu ponto está nas distorções manifestas pelas “lentes bizarras” da fotografia – a teleobjetiva e a grande-angular – que geram imagens “da ordem fantasmática de uma alucinação” e impossíveis à percepção do olho nu. Machado recorre aos escritos do cineasta Serguei Eisenstein sobre as estratégias de representação da figura humana em arrebatamento místico, na obra do pintor El Greco. O corpo alargado no centro e afunilado nos pés e na cabeça corresponderia ao efeito produzido pelas objetivas de distância focal curta. A grande-ocular, que o cineasta chamava de “lente extática”, se remetendo ao sentido etimológico da palavra êxtase, está no cerne de seu interesse por El Greco.

Do grego ékstasis, (fora do seu estado, fora da normalidade), a ótica extática que moveu Eisenstein e El Greco também guia o interesse que artistas contemporâneos, como o norte-americano Tony Oursler e o brasileiro Mario Ramiro, nutrem por aquilo que não pode ser visto a olho nu e é impresso em papel fotográfico.

Imponderável
Cientistas do século 18 usavam o termo imponderável para descrever o magnetismo, a eletricidade e outras energias não quantificáveis. Nos domínios do imponderável – e de tudo aquilo que não pode ser determinado com acuidade – está a “fotografia de pensamento”, que envolve a crença de que a chapa fotográfica é sensível a pensamentos, sonhos e outras forças vitais, e que surge como reação cultural espontânea às descobertas científicas que tornaram o invisível visível – notadamente o raio X, no fim dos anos 1880. A fotografia do pensamento, a fotografia de espíritos, a fotografia de óvnis e de outras manifestações do paranormal começam a ser colecionadas por Tony Oursler em meados dos anos 1990. Esse acervo está compilado hoje em projeto exibido no CCS Bard College, em Nova York, até o fim de outubro, e no MoMA NY, até janeiro de 2017.

Frame do longa-metragem imersivo The Imponderable (2015-2016), de Tony Oursler (Foto: Jonathan Muzikar/ The Museum of Modern Art NY)

Frame do longa-metragem imersivo The Imponderable (2015-2016), de Tony Oursler (Foto: Jonathan Muzikar/ The Museum of Modern Art NY)

Tony Oursler: The Imponderable Archive revela dois séculos de interseções entre descobertas científicas, avanços tecnológicos e fenômenos ocultos. O projeto é composto de filmes, uma publicação de 600 páginas e uma instalação com 2 mil documentos. “Um aspecto importante sobre a construção desse arquivo é que aconteceu de forma não objetiva. Em outras palavras, segui meu instinto e explorei os temas visual e culturalmente, deixando-os encontrar sua conexão natural”, diz Tony Oursler à seLecT.

Na instalação, essas conexões estão delineadas em mesas, onde as imagens são organizadas em narrativas diversas, um modus operandi que remete à metodologia do Atlas Mnemosine, do historiador Aby Warburg (1866-1929), inspiração reconhecida pelo artista. Imagens de criptologia conectam com gravura japonesa dos anos 1700; a luz negra do físico Robert Williams Wood relaciona-se à iluminação de sessões espíritas dos anos 1920; e afinidades surgem ainda entre oráculos, testes de Roscharch, filmes de terror, física quântica e radioatividade.

“Eu queria mostrar coleções dentro da coleção, e também justapor certas coisas que poderiam ser consideradas opostas. Realmente, gosto dessas contradições. Há uma pequena sequência relacionada à evolução e à criptozoologia que inclui conexões engraçadas, como o Homem de Piltdown (fraude científica que simulava espécie desconhecia de homem primitivo) e as sereias”, diz Oursler. “Tentei focar em como uma coisa leva a outra e assim ganha um sentido histórico ou conceitual. É como cinema e fantasmagoria, uma relação óbvia, que muitas vezes não é feita.”

Imponderable (2015-2016) é um longa-metragem imersivo, apresentado no MoMA em um ambiente cinemático em 5-D, com efeitos sensoriais, cheiros, vibrações etc., utilizando-se de uma espécie de pepper’s ghost, dispositivo fantasmático do século 19. O roteiro traça uma historia social, espiritual e empírica da imagem virtual, que passa pela intrigante história familiar do artista e o envolvimento de seu avô, Fulton Oursler, com a paranormalidade. O elenco de personagens inclui Sir Arthur Conan Doyle e membros da família Oursler. Já no filme My Saturnian Lover(s) (2016), George Adamski, o primeiro fotógrafo de óvnis, viaja para a Lua, Saturno e Vênus, e vive um enredo de pulp fiction com alienígenas.

Frame do longa-metragem imersivo The Imponderable (2015-2016), de Tony Oursler (Foto: Jonathan Muzikar/ The Museum of Modern Art NY)

Frame do longa-metragem imersivo The Imponderable (2015-2016), de Tony Oursler (Foto: Jonathan Muzikar/ The Museum of Modern Art NY)

Ruído branco
O comandante Louis Darget (1847-1923), oficial de cavalaria e amante da fotografia, é tido como o inventor da fotografia de pensamento – hoje considerado o primeiro conjunto de imagens abstratas mecanicamente produzidas. Darget mantinha um espaço de trabalho em seu apartamento, em Paris, chamado cabinet fluidifié. Ali eram guardadas, em pequenos envelopes presos às paredes, imagens de uma coleção de fotografias do fluido vital, do pensamento e de espíritos. O espaço é homenageado por Mario Ramiro na instalação Gabinete Fluidificado (2013), que reúne cerca de 400 reproduções fotográficas de sua coleção de imagens que documentam supostas ocorrências de materializações de espíritos, exalações de ectoplasma e manifestações paranormais, ocorridas no Brasil ao longo século 20.

A coleção de Mario Ramiro começa com três imagens de Militão de Azevedo (1837-1905), que, segundo o artista, parecem fazer um comentário à fotografia espiritualista surgida em 1861 nos EUA. “Depois dele, os primeiros registros no âmbito do espiritismo são de 1921 e, de lá até os anos 1980, a produção dessas imagens se dará num contexto religioso ou de ‘experimentação’ da nova ‘ciência do espírito’. As últimas imagens que tenho foram feitas nos anos 1980, no contexto da fotografia de incorporações do Dr. Fritz”, diz Ramiro à seLecT.

Detalhe da instalação Gabinete Fluidificado (2013), de Mario Ramiro, em exposição no Centro Cultural São Paulo (Foto: Cortesia Mario Ramiro)

Detalhe da instalação Gabinete Fluidificado (2013), de Mario Ramiro, em exposição no Centro Cultural São Paulo (Foto: Cortesia Mario Ramiro)

Segundo o pesquisador, a “última novidade” de contatos com o mundo dos espíritos ocorreu no fim dos anos 1950, com as declaradas comunicações obtidas pelo sueco Friedrich Jürgenson, cantor de ópera e pintor, por meio do rádio. Depois, essa técnica seria praticada no Brasil pela escritora Hilda Hilst, “a mais famosa comunicadora entre nós”, diz ele. “Depois existem registros de supostas manifestações pela tevê e por fax, exatamente no mesmo período em que essas tecnologias foram sendo empregadas na produção experimental dos artistas dos anos 1980. Não é curioso esse paralelismo?”

A radiocomunicação com o Além é abordada em Rede Telefonia (2009), peça sonora criada em parceria com a cineasta Gabriela Greeb, a partir das escutas e gravações realizadas por Hilda Hilst nos anos 1970. Nesse período, ela realizou diversas experiências com a chamada Transcomunicação Instrumental (TCI) – técnica que facilitaria a comunicação entre os vivos e os mortos via aparelhos eletroeletrônicos. “A escritora escolhia um espaço ‘vazio’ entre duas estações de rádio e registrava em fita magnética alguns minutos daquele chiado característico conhecido como ‘ruído branco’. Esse chiado seria o meio utilizado pelos espíritos para entrar em contato com o nosso mundo e se fazer ouvir por breves sussurros”, explica Ramiro.

Rádio Dante (2014) é outra obra que lida com a parafernália espiritual-eletro-magnética. Trata-se de escultura sonora que reúne imagens de moldes de máscaras mortuárias, um aparelho de rádio sintonizado entre estações, um microfone e um amplificador. Suscetível à aproximação do corpo do espectador, o dispositivo produz modulações sonoras monótonas, constantes e “infernais” – o que inspira o título da obra.

Instalação Radio Dante

Instalação Radio Dante

Além do interesse nas relações entre os sistemas de crenças e a autenticidade das imagens, há certa dose de humor macabro e de surrealismo teatral que aproxima as produções desses dois artistas do Norte e do Sul do continente.

“Meu interesse real é nos sistemas de crenças que nós construímos e como eles operam culturalmente”, diz Tony Oursler. “Não estou falando só de crenças religiosas, mas de estruturas de consciência. Uma das coisas que aprendi ao escavar meu arquivo é que o pensamento mágico está vivo e passando bem. Mas o que acredito mesmo é na arte como atividade cultural sustentável e generativa.”

“A pretensa autenticidade dessas imagens é o que menos importa”, diz Mario Ramiro. “Alguém já procurou desmascarar a veracidade da ressurreição de Lázaro retratado por Rembrandt? O segredo que se encerra nos fenômenos descritos por um sistema de crenças ou por outro é o que nos estimula como artistas, escritores ou curadores que se debruçam sobre essas histórias como parte de nosso universo cultural. Essas imagens e sons falam de possibilidades de desvendar o grande segredo por trás da morte. Nisso, essa forma de arte, quando não voltada apenas para uma paródia do paranormal, parece querer apontar para alguma coisa mais essencial na vida que é apenas a ‘crítica institucional’!”

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