A partilha do sensível e a disputa pelo visível

Giselle Beiguelman

Publicado em: 29/12/2014

Categoria: Crítica, Review

Exposição faz história cultural da exclusão social e dinamiza noções de centro e periferia

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Legenda: Intervenção de Vhils no Morro da Providência (RJ). Foto: João Moreira

Com curadoria de Rafael Cardoso e Clarissa Diniz, a exposição Do Valongo à Favela, em cartaz no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), faz uma história cultural da periferia carioca e brasileira. Sem ceder a clichês fáceis de criminalização e exotismo, contextualiza e relaciona circuitos urbanos e imaginários poéticos. Cobre um período que vai do século 18 aos dias de hoje e oferece um percurso entre tensões sociais e estéticas que envolvem as marcas do tráfico de escravos, as favelas, os conflitos entre a população pobre e a polícia e a presença dessas tensões na arte.

Cruzando imagens de desenhos naturalistas oitocentistas de Rugendas, telas modernistas, fotografia documental de arquivos públicos do Rio de Janeiro, fotojornalismo dos anos 1980, a discografia – incluindo aí as geniais capas dos LPs – de Moreira da Silva, com obras de artistas contemporâneos como Ayrson Heráclito, Caetano Dias, Arjan, Laercio Redondo, Matheus Rocha Pita, Vergara e Virginia Medeiros, entre muitos outros, a exposição nos arremessa em um caleidoscópio de linguagens que faz uma cartografia pouco óbvia do que se pode entender por periférico ou periferia.

No dia em que seLecT visitou a mostra, um debate armou-se em poucos segundos em torno da obra do artista português Alexandre Farto (Vhils). Conhecido por sua técnica de “descascagem” de paredes, ele retratou rostos de pessoas que foram despejadas da favela do Morro da Providência recentemente. O retrato, segundo a monitora da exposição, era do morador Humberto. Um dos adolescentes presentes contestou. Não era. Atônita, ela perguntou: Mas você o conhece?! Conhece o Humberto? Ele respondeu direto: Não. Mas moro lá. E se não o conheço… Não é ele. 

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Legenda: Visitantes discutem a obra de Vhils em cartaz no MAR (RJ) até 15 de fevereiro. Foto: seLecT

Há uma correlação direta entre as estratégias políticas de exclusão social e as dinâmicas de criação de invisibilidade. O sociólogo Jacques Rancière dedicou um de seus ensaios mais conhecidos a esse tema – A Partilha do Sensível –, demonstrando como a conquista dos territórios simbólicos passa cada vez mais pela capacidade de tornar-se visível. Dito de outra forma, o diálogo entre o rapaz “dono” do Morro da Providência e a monitora – e a momentânea inversão de papéis – indica um poder temporário e uma situação de emergência. Ela faz com que se revalidem as noções de centro e periferia e remete à sua compreensão dinâmica.

Nas distintas interpretações particulares dos artistas, e também na visão de conjunto enunciada pelos curadores, fica claro que está em jogo uma busca por outra historiografia cultural. Não apenas se coloca a necessidade de uma releitura do passado, mas também a demanda por outra articulação entre visível e invisível.

Do Valongo à Favela: Imaginário e Periferia, Museu de Arte do Rio, Praça Mauá, 5, Centro, até 15/2/2015

Review publicada na edição impressa #21

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