A permanência da exceção

Exposição na Casa do Lago da Unicamp reflete sobre a presença de estados de exceção na história recente do Brasil

Felipe Martinez
Vista da exposição Exceção no Espaço Cultural Casa do Lago da Unicamp

1964 parece mais próximo do que 2013. Essa é a impressão deixada pela exposição Exceção realizada no Espaço Cultural Casa do Lago da Unicamp de 10 a 22 de setembro, com curadoria de Gabriel Zacarias, professor do departamento de História da universidade. É sintomático que a mostra tenha sido inaugurada pouco tempo após o chefe do Exército ter dado declarações que mostram que a exceção está sempre à espreita. Alinhada à outras exposições atualmente em cartaz, como a AI-5 50 Anos – Ainda não Terminou de Acabar no Instituto Tomie Ohtake e Estados de Emergência no Paço das Artes (saiba mais aqui), a mostra apresenta trabalhos de Carmela Gross, Graziela Kunsch, Igor Vidor, Jaime Lauriano, Claudio Tozzi, Fábio Morais, Maurício Fridman, Maurício Nogueira Lima e Dora Longo Bahia.

O primeiro núcleo da exposição, Exceção Militar, trata diretamente dos anos de repressão da ditadura civil-militar e traz obras da importância de Multidão e Guevara Vivo ou Morto de Claudio Tozzi. Em seguida, a obra Por Que o Senhor Atirou Em Mim?, de Fábio Morais, abre o segundo núcleo da mostra, chamado Exceção Renovada. A frase que dá nome a obra – dita pelo adolescente Douglas Rodrigues, assassinado pela polícia em 2013 na periferia de São Paulo – é contraposta a uma fotografia aérea da hidrelétrica de Itaipu, grande realização do governo militar nos anos de chumbo. As palavras do jovem quase se apagam na monumentalidade da usina, mostrando que apesar dos anos que separam as datas, a maneira com que o Estado trata os menos favorecidos pouco mudou. De lá para cá, é bom lembrar, permanecem os métodos violentos da polícia militar; os investimentos públicos, no entanto, são uma miragem distante em tempos de austeridade econômica auto imposta.

O segundo núcleo continua na obras Black Bloc e Arte a Serviço do Povo, de Dora Longo Bahia. Na primeira, a forma particular dos instrumentos usados pelos manifestantes de 2013, como garrafas de vinagre, aparece fundida em um bloco escuro, aludindo ao discurso repressor que homogeneizava variadas manifestações na suposta ameaça dos black blocs. A segunda obra traz serigrafias com imagens de maio de 68 e da Revolução Chinesa, intercaladas com frases da Primavera Árabe e das manifestações das jornadas de junho no Brasil, fazendo pensar no desfecho sombrio que tiveram os movimentos deste século.

Entre o primeiro e o segundo núcleo, se destaca o vídeo O Brasil de Jaime Lauriano, no qual são exibidas imagens e propagandas do regime militar com apelos à ordem e à pátria. Uma delas mostra uma cena do filme Independência ou Morte de Carlos Coimbra, em que Dom Pedro I, interpretado por Tarcísio Meira, anuncia sua insubordinação às cortes portuguesas para em seguida declarar independência. A cena foi claramente inspirada no quadro de Pedro Américo; ao vê-la não pude deixar de pensar no combalido Museu Paulista, que abriga a pintura, e na situação agonizante dos museus públicos no Brasil, terrivelmente expressa nas chamas que consumiram o Museu Nacional há poucos dias.

Nem tudo queima, no entanto. No terceiro eixo da exposição, Exceção Estrutural, uma faixa escura, de luto, feita por Graziela Kunsch anuncia em letras brancas que O Racismo é Estrutural. De fato, tanto o racismo quanto o estado de exceção parecem estruturais em um país onde a manutenção dos privilégios de uma minoria estabelece os limites da democracia. A obra de Kunsch lembra que no Brasil, apesar do fogo, algumas estruturas insistem em ficar de pé.

Serviço
Exceção
Espaço Cultural Casa do Lago Unicamp
Av. Érico Veríssimo, 1011 – Campinas
Até 22/9
casadolago.proec.unicamp.br

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