A poética da atitude

A artista Rochelle Costi soube transformar o mundo à sua volta em um ambiente próprio

Alexia Tala

Publicado em: 24/09/2013

Categoria: A Revista, Crítica

Imagem da obra Cabeça de Boneca (2009)

No mundo em que vivemos, somos bombardeados com uma variedade de coisas materiais que entram em nossas vidas através da publicidade, como aparentes necessidades. Há algo nessas mensagens da sociedade de consumo que faz com que apareça em nós um desejo de adquirir essas coisas. A atitude de Rochelle Costi em relação a isso, no entanto, é muito seletiva e não responde a esse tipo de “publicidade, nem a necessidades adquiridas”. Ela escolhe e coleciona uma infinidade de objetos que muitas vezes vêm de relações de afeto e/ou experiências vividas. Ela soube transformar o mundo à sua volta em um espaço próprio, cheio de encontros inesperados, cheio de vida, eventos, natureza para fotografar, objetos para colecionar e espaços para catalogar.

Para criar suas obras, Costi observa detidamente aquilo que para nós parece invisível, transformando-o em foco de interesse a partir de diferentes operações. Ela o faz, por exemplo, quando se apropria do banal, ressignificando-o, como Andy Warhol fez, nos anos 1960, ao se apropriar da Brillo Box (1964), ou das latas da sopa da Campbell’s (1962) – ícones do consumo popular nos EUA . Ou quando remove certos objetos de um contexto, ao qual eles supostamente pertencem, inserindo-os em um novo, fazendo com que o sujeito, por vezes, perca ou ganhe escala, ou altere seu simbolismo criando mundos desconhecidos que desestabilizam o espectador e o posicionam em um lugar novo, com infinitos significados, tornando esse observador consciente das diferentes experiências do “ver”. Por meio dessa aguda capacidade de observação, a artista cria verdadeiras poesias do cotidiano, usando a imagem tirada de seu próprio mundo e do mundo privado dos outros.

Ela cria cenas onde não há palavras, apenas imagens. No trabalho de Rochelle Costi, “o ver vem antes das palavras”, como diria John Berger, e, mais especificamente, a visão vem antes das imagens. Assim ocorre na forma como ela corrige, seleciona, enquadra e dirige o olhar na captura de suas imagens. Finalmente, não precisa de palavras. A poesia aparece, é reconhecida e compreendida apenas ao parar e olhar. Uma estratégia semelhante é usada por Dziga Vertov no cinema dos anos 1920, em sua proposta de capturar imagens contemporâneas para mostrar a realidade tal como ela era, destacando e expondo o que deixamos passar.

Sua intenção artística se desvincula de roteiros, cenários e atores; seu partido é captar o que o olho humano não consegue apreender e que, em seu caso, o olho da câmera, alcança. Nessa intenção descortina-se uma vertigem de imagens fragmentadas para contar uma história e para experimentar através das estratégias do corte e da seleção. A câmera substitui o olho humano e narra uma verdade objetiva, muito semelhante à que Rochelle Costi detém – por meio da lente de sua câmera fotográfica – naquilo que permanece invisível aos nossos olhos. Isso significa que ela tem uma atitude perante a vida que não se dissocia da linguagem que escolheu para se expressar artisticamente.

Nota-se isso ao entrar em sua casa, ao conhecer seu mundo privado, ao ouvir suas histórias e ao analisar como essa atitude de encarar a vida transcende seu universo criativo. Os críticos Neil Cummings e Marysia Lewandowska dizem que as coisas materiais têm a capacidade de falar sobre quem somos. “Há uma necessidade contínua de controlá-las, classificá-las e interpretá-las. Na verdade, usamos objetos como uma forma sofisticada de nos fazermos a nós, e ao nosso mundo, conhecidos.”

A seção Vernissage é um projeto realizado em parceria com galerias de arte, que prevê a publicação de um texto crítico sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição.

Matéria publicada originalmente na #select13

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