A possibilidade invisível de um quadro

Mostra na Almeida e Dale reúne mais de cem obras de Sidney Amaral, nome central da arte

Juliana Monachesi

N° Edição: 55

Publicado em: 26/09/2022

Categoria: A Revista, Crítica

Vista de Sidney Amaral: um espelho na história [Foto: Divulgação/ Sergio Guerini]

Sidney Amaral (1973-2017) ficou conhecido pelos desenhos e aquarelas que tematizam a história colonial brasileira, assim como as reverberações atuais da escravidão. Este, porém, não era um pressuposto que Amaral defendesse no discurso sobre a sua produção. Assim como a pintora britânica Lynette Yiadom-Boakye, que explicou certa vez em uma entrevista que as pessoas representadas em suas telas são negras simplesmente porque ela vive cercada de pessoas negras e, por consequência, são essas as personagens que retrata, também Sidney Amaral recusava a redução de sua obra à pauta racial. Profundamente ciente das consequências históricas do passado colonial na vida da população negra no Brasil, o artista era não só favorável, mas militante da causa antirracista e de justiça social, bem entendido. Apenas não legitimava o discurso de sua arte por meio desse tipo de leitura crítica. Era cuidadoso e rigoroso com as palavras, com os modismos e com as instrumentalizações da arte.

Uma visita à exposição Sidney Amaral: Um Espelho na História, com direção criativa de Igi Ayedun, curadoria de Luciara Ribeiro e pesquisa expográfica de Lorraine Mendes, em cartaz na AD, possibilita um mergulho na trajetória do artista e a compreensão das nuances que tornam sua obra tão particular na história recente da arte brasileira. Logo na entrada, um guache de grandes dimensões, da série Diálogos (2015), em que representa um jovem negro com uma camiseta branca cobrindo o rosto, demonstra o interesse com que vinha acompanhando as ocupações dos secundaristas naquele ano. Fã confesso de Marcela Nogueira Reis, a estudante que enfrentou a PM de São Paulo, ganhou as manchetes dos jornais em fotografia de Marlene Bergamo e deu aula de ativismo político em defesa da educação nas manifestações de 2015, Amaral trabalhava, meses antes de ser diagnosticado com um agressivo câncer de pâncreas, em uma obra que retrataria a violência policial durante as ocupações, profundamente afetado pela imagem de um estudante que foi imobilizado com uma carteira escolar. Sidney era professor de artes na rede pública.

Alguns passos depois dessa parede que recepciona o visitante da exposição, um conjunto de retratos, majoritariamente de mulheres, é exibido sobre uma parede de espelho. Todas as retratadas sorriem. Vê-se que os assuntos da obra do artista são variados e que os suportes com que trabalhou são ecléticos. A mostra inteira é pontuada por suas esculturas fundidas em bronze, linguagem que primeiro o notabilizou, em fins dos anos 1990, início dos 2000. Naquele tempo, o debate sobre políticas identitárias era menos assíduo no campo das artes visuais, e Amaral conquistou prêmios em diversos salões de arte com as peças tridimensionais que retratam objetos do cotidiano doméstico (um par de chinelos, balões de festa, utensílios de cozinha etc.), sempre com algum elemento disruptivo que retira o item retratado da facilidade de interpretação (corrente de motosserra, acenos metamórficos, espinhos e outros dispositivos). Herdeiro do dadaísmo e do surrealismo, segundo o curador Claudinei Roberto da Silva, que exemplifica seu argumento com a obra Probabilidade (2011), um dado de dimensões agigantadas, redondo, feito de resina de poliéster, Sidney Amaral põe a nu os “absurdos inerentes à condição humana”, nas palavras de Claudinei.

A curadoria e a expografia da mostra na AD cuidam de contextualizar detalhadamente as vertentes plurais da obra do artista: dois pequenos nichos em um painel móvel abrigam alguns livros da biblioteca pessoal de Sidney. Obras estão acompanhadas dos respectivos estudos, em desenho ou fotografia (como a autorrepresentação é uma constante na trajetória do artista, descobrimos uma miríade de “performances” feitas para a câmera fotográfica em que ele registra as poses e ações que vamos ver protagonizadas nas pinturas); painéis e vitrines trazem material documental, entre fotos pessoais, cadernos de notas e desenhos de projetos. Em uma dessas vitrines encontra-se uma pequena aquarela em tons de cinza que retrata o artista com um livro nas mãos, num close fechado sobre a página em que está detido. Autorretrato Lendo Foucault (2005) permite ler com Sidney a página 52 de Isto Não É uCmRCÍaTchIimCbAo, na tradução brasileira de Jorge Coli para a Paz e Terra, de 1988. Ali, Michel Foucault discorre sobre o abismo entre as palavras e as coisas, entre formas reconhecíveis e objetos inomináveis, e sobre a natureza insondável de certas imagens. Nesse jogo, descreve “a possibilidade invisível de um quadro ao mesmo tempo familiar e insólito”.

Ofertando-nos essa leitura, Sidney Amaral parece oferecer uma chave para perscrutar suas obras: nada aqui é apenas o que parece.

Serviço
Sidney Amaral: Um Espelho na História
Galeria Almeida e Dale, Rua Caconde, 152
Encerrada

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