A rainha que gostava de nudes

Pesquisas revelam que as obras mais picantes da Royal Collection, pertencente aos Windsor, foram adquiridas pela rainha Vitória

Mario Cesar Carvalho
Rainha Vitória em detalhe de pintura (1845) de Alexandre Melville (Foto: Reprodução)

A Era Vitoriana (1837-1901) passou para a história como um período marcado pela repressão sexual, pelos costumes rígidos e por uma moral ditada pela religião e pelas proibições implacáveis. A rainha Vitória (1819-1901), de quem a era tomou o nome emprestado, ajudou muito a criar essa imagem de severidade por se apresentar em público como a viúva devastada pela perda do marido, sempre de negro, com golas altas e olhar pétreo.

Gravura de S. W. Reynolds sobre desenho de F. Lock, de 1841, retrata a Rainha Vitória e o príncipe Albert no dia de seu casamento, ocorrido no ano anterior. A rainha escolheu o branco para seu vestido não para simbolizar pureza, mas sim para destacar melhor as rendas do vestido, de modo a favorecer a indústria de renda inglesa

Essa imagem da rainha carola está sofrendo abalos graças a estudos feitos na coleção de arte dos Windsor. A maior das revelações é que a rainha gostava de nudes, não esses de celular, claro, mas telas com mulheres nuas. A exposição Art & Love, realizada no Victoria & Albert Museum em Londres, em 2012, trouxe algumas descobertas sobre suas preferências estéticas. 

A rainha não tinha o menor preconceito contra nus, porque foi criada junto à maior coleção de arte privada do mundo, com 7 mil pinturas, 30 mil aquarelas e 500 mil desenhos, tudo espalhado por 13 propriedades no Reino Unido. Imagine qualquer grande mestre entre os séculos 16 e 19 e você irá encontrá-lo na chamada Royal Collection. Tem Vermeer, Rubens, Mantegna, Tiziano, Rembrandt, Cranach e um grande etc., tudo em quantidade para rivalizar com coleções públicas do porte do Louvre. Só de Leonardo da Vinci, os Windsor têm 500 desenhos.

É óbvio que, numa coleção desse porte, há muitas obras de teor erótico. Segundo a curadora Susanna Avery-Quash, da National Gallery britânica, a obra predileta da rainha Vitória era uma tela do pintor alemão Frans Xaver Winterhalter (1805-1873), da qual o Metropolitan de Nova York também tem uma versão. Batizada de Florinda, a obra mostra um grupo de mulheres nuas se banhando na floresta.

Outro achado da curadora: foi a rainha Vitória quem comprou as obras mais atrevidas da coleção, e não o príncipe consorte Albert, como antes imaginavam os pesquisadores por causa da proximidade do príncipe com o mundo da arte do século 19. “Ela não era uma puritana, com certeza. Descobrimos que foi ela quem comprou a grande maioria das pinturas e esculturas com nus”, escreveu Avery-Quash.

Florinda (1852), pintura em óleo sobre tela do alemão Franz Xaver Winterhalter, a obra predileta da rainha Vitória

 

Erotismo e pornografia
Perto da boçalidade que reina atualmente entre os Windsor, a rainha Vitória e o príncipe consorte parecem reis de conto de fadas. O príncipe Albert de Saxe-Coburgo-Gota (1819-1861), que nasceu na Alemanha e estudou na Universidade de Bonn, era um conhecedor de arte, havia viajado para a Itália para visitar estúdios de artistas e aprender canto num tour que durou dois anos, de 1838 a 1839; ele se casaria no ano seguinte com a rainha Vitória. Com essa bagagem, foi ele quem decidiu organizar a Royal Collection e restaurar uma série de obras que estavam castigadas pelo tempo.

Foi logo após essa reestruturação que a coleção real pode ter perdido o que parece ser a sua mais inusitada subseção: a de arte pornográfica, não erótica (foi no fim do século 19, aliás, que nasceu a expressão pornografia). Não é fácil separar pornografia de erotismo, mas talvez valha aí a definição de um ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos, segundo o qual basta olhar para saber a diferença.

O expurgo da Royal Collection é um mito entre pesquisadores ingleses, uma charneca cercada de brumas, com um agravante: os Windsor não fizeram quase nada até agora para separar a verdade da lenda. Leonardo da Vinci desenhou um esboço de uma obra sua que está desaparecida, O Anjo da Anunciação, na qual a figura angelical está de pinto ereto e com seios, como se fosse hermafrodita.

Não seria a primeira brincadeira de Da Vinci com paus: ele tem uma caricatura de dois pintos que caminham sobre pernas estilizadas em direção a um buraco sob o qual está escrito Salai, o nome do namorado mais duradouro do artista renascentista. Intitulado O Anjo Encarnado, esse desenho já pertenceu à família real inglesa, segundo Walter Isaacson, biógrafo de Da Vinci. “Feito em 1513, quando Leonardo estava em Roma, ele mostra uma versão transexual e lasciva do Anjo da Anunciação nos encarando de forma sensual, com seios e um enorme pênis ereto”, conta Issacson em Leonardo da Vinci.

O Anjo Encarnado (1513), desenho de Leonardo da Vinci mostra uma versão transexual e lasciva do Anjo da Anunciação, com seios e um enorme pênis ereto

 

Reação moral a ícone gay
O crítico Charles Nicholl, que estudou O Anjo Encarnado, dá uma ideia do que era Roma quando Da Vinci viveu por lá: a cidade tinha 50 mil habitantes, dos quais 7 mil eram prostitutas trabalhando em bordéis autorizados pelo Vaticano. O desenho do anjo foi redescoberto em 1991, quando apareceu numa coleção de um nobre alemão e se tornou imediatamente um ícone gay.

O crítico de arte Brian Sewell (1931-2005), que trabalhou no jornal britânico The Telegraph e estudou a sexualidade na obra de Da Vinci, diz ter ouvido de funcionários da Royal Library que os Windsor tinham uma coleção bem maior de obras consideradas pornográficas de Da Vinci e que elas foram expurgadas por um pesquisador alemão no fim do século 19.

Pesquisadores famosos da coleção de arte da família real britânica, como Keneth Clark e Anthony Blunt, teriam decidido esconder deliberadamente as obras mais sexualizadas de Da Vinci que pertenceram aos Windsor, de acordo com Sewell. Nas discussões que se seguiram à descoberta do anjo nos anos 1990 houve muita reação moral ao Da Vinci de pênis ereto, tratado como um desvio do renascentista. Os historiadores mostraram que não é bem assim. Há uma tradição que vem da Grécia clássica de produção de desenhos altamente sexualizados e que esse gosto reapareceu no Renascimento italiano.

Outro detalhe notado pelos historiadores: quem disse que O Anjo Encarnado é um anjo? Parece mais o namorado de Da Vinci, que o próprio artista definia como um capetinha.

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