A refeição do futuro

Laura Lima participa da comemoração do centenário da Bauhaus na Alemanha cozinhando para 2044

Felipe Chaimovich

N° Edição: 46

Publicado em: 15/05/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

No trabalho Encontre-me em 2044 (2019), Laura Lima cria refeições de vegetais para o futuro e lança desafio ao museu alemão de Krefeld de conservá-las até 2044 (Foto: Dirk Rose)

O centenário da Bauhaus foi comemorado, na cidade alemã de Krefeld, com a exposição Alternativas Para Viver, durante a qual a artista Laura Lima trabalhou com o grupo Salt’n’Pepper na cozinha doméstica original projetada por Mies Van Der Rohe para a Haus Lange. A artista colocou em xeque o museu de arte local, que deverá conservar uma obra orgânica criada para ser aberta e comida daqui a um quarto de século. Ao envolver diversos agentes, como o público atual e o futuro, além de cozinheiros e conservadores, ela propõe uma performance coletiva imprevisível, envolvendo aquilo mesmo que nos faz humanos: cozinhar. Laura Lima já havia experimentado cozinhar uma refeição para o futuro dentro de um museu, em colaboração com um chef. Em 2012, ela e José Baratino participaram dos Encontros de Arte e Gastronomia do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Durante uma semana, eles puderam criar uma obra em conjunto, na cozinha de concurso culinário construída para a ocasião, contando com uma equipe de assistentes e com uma horta cultivada na Escola Municipal de Jardinagem, a alguns passos do museu, dentro do Parque do Ibirapuera. Assim, eles produziram duas refeições de vegetais, tendo a primeira sido servida para cerca de 20 pessoas, entre público espontâneo e funcionários do museu. Mas a segunda refeição deveria ser servida 30 anos depois, em 2042. Ela foi preparada com os mesmos ingredientes sólidos da primeira, que começaram a ser desidratados enquanto a outra era preparada e servida. Para tal, foram usados equipamentos de cozinhas profissionais, como o forno combinado. Ao final do processo de desidratação, coordenado por José Baratino, os vegetais foram embalados a vácuo num envelope de plástico, usando-se um aparelho para finalidades culinárias.

Ao criar uma obra que seria devorada no futuro, Laura Lima imaginou como seria o gosto desse público ainda por vir: será que comporiam suas porções da mesma forma que os comensais de 2012? “Cada pessoa que comer essa comida no futuro vai escolher: ‘Eu vou querer aquela que tem mais laranja, a cor laranja’, sei lá! ‘Prefiro essa composição’. Tem uma escolha estética também. Ou até ser distribuído aleatoriamente para essas 10 ou 15 pessoas desse banquete no futuro”, declarou ela no documentário sobre os Encontros de Arte e Gastronomia.

O trabalho Encontre-me em 2044 (2019), de Laura Lima, foi feito em colaboração com a empresa de banquetes Salt’N’Pepper (Foto: Dirk Rose)

Futuro do museu
O convite da Haus Lang a Laura Lima levou a uma nova obra sobre a relação com o futuro, por meio de cápsulas gastronômicas do tempo: Encontre-me em 2044. Ao comemorar os 100 anos da Bauhaus, os museus de arte de Krefeld queriam mudar e expandir as práticas museológicas, refletindo sobre o futuro dessas instituições por meio da mostra Alternativas para Viver. Para tal, foram convidados 14 criadores, entre artistas contemporâneos, arquitetos e designers, para conceberem trabalhos específicos para uma residência particular transformada em museu de arte. Laura Lima escolheu a cozinha da casa Lang, concluída em 1928, dois anos antes de seu arquiteto Mies van der Rohe se tornar diretor da Bauhaus. A artista concebeu novamente uma refeição de vegetais, cozinhada pelos integrantes do Salt’N’Pepper, empresa de banquetes sediada em Krefeld. Foram produzidas 40 porções apenas para serem embaladas, sem que nenhuma comida tenha sido servida no presente. Porém, desta vez, a artista preocupou-se em diminuir a contaminação dos alimentos por polímeros, decorrente da embalagem nos envelopes de plástico, tal como foi feito em 2012. Assim, parte dos componentes foi desidratada a frio e embalada a vácuo, em envelopes de plástico, e parte foi envasada em vidros de conserva: uma técnica decorrente de aparelhos contemporâneos e outra tradicional. A instituição vai acondicionar as embalagens em caixas especializadas para armazenagem de obras de arte e “tentará preservá-las por 25 anos ao menos”, como declara em seu site. Desse modo, Laura Lima testa o futuro do museu de Krefeld, pois cria um compromisso e um desafio para sucessivas administrações, pelos próximos 25 anos.

Distopia
Entretanto, a curadoria de Alternativas para Viver colocou o projeto Encontre-me em 2044 na seção dedicada à distopia. As duas outras partes da mostra eram utopia e mobilidade. A obra de Laura Lima foi interpretada como abertura de um porvir assustador: “Cenários catastróficos do futuro, assim como questões globais tópicas, podem ser associados com a caixa de comida que sobrevive como uma obra de arte no depósito do museu. Num tempo em que o lucro é preferido à sustentabilidade, quando recursos são explorados, as florestas tropicais são queimadas e a comida é destruída às toneladas, esse difícil ato de preservação parece um ritual arcaico em oposição à sociedade do descarte”.

Embora essa visão distópica possa ser contemplada em Encontre- -me em 2044, Laura Lima projeta um futuro em que um público composto de indivíduos autônomos ainda existirá para compartilhar sua refeição. Esse é o sentido de prever que os comensais da década de 2040 farão escolhas estéticas. Alguém escolherá ingredientes de cor laranja, por exemplo. Ora, esse sentido do gosto indica o exercício da escolha individual perante um grupo confrontado com os mesmos ingredientes. A artista não prevê que suas refeições para o futuro só possam ser comidas de um único modo, com uma única composição, autoritariamente. A comida poderá até mesmo ser servida de forma aleatória. Por isso, Laura Lima antevia a possibilidade de sua refeição revelar os valores de hoje para pessoas do futuro, como declarou em 2012: “Acho que no futuro a gente também pode discutir bastante coisa do que foi feito, do que foi pensado esteticamente e talvez até cientificamente também”.

A proposta de um diálogo possível entre presente e futuro sobre estética e ciência indica uma defesa de valores emancipatórios da humanidade. E a refeição coletiva é um modo privilegiado de articular esse pacto antiobscurantista. De fato, tem ganhado sustentação crescente a hipótese científica de que a evolução de nossa espécie só foi possível porque os nossos antepassados começaram a dominar o fogo e a cozinhar há cerca de 1,5 milhão de anos; o domínio técnico da culinária pelo Homo Habilis permitiu mastigar com menos esforço e absorver nutrientes numa extensão intestinal menor, fazendo com que descendentes com maxilares e intestinos menores sobrevivessem. Eventualmente, filhos com caixas cranianas maiores puderam aproveitar o ganho digestivo da comida cozida para manter cérebros maiores, até o surgimento do Homo Sapiens, há cerca de 300 mil anos, cujo cérebro consome cerca de 20% da energia do corpo. Cozinhar foi, portanto, o que nos fez humanos. Ao se debruçar sobre a comensalidade para fundar um pacto com futuros sujeitos livres para escolher aquilo de que gostam, Laura Lima mobiliza uma dimensão profundamente humana.

As refeições para o futuro não são distópicas. Laura Lima lança um convite para que nos reunamos com os nossos descendentes em torno de uma mesa, onde o gosto individual é livre, a ciência é verdadeira e a arte sobrevive em instituições sólidas.

 

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