A revista como organismo vivo

Enzyme #2, revista de Jorgge Menna Barreto e Joélson Buggilla, cultiva o pensamento coletivo e pensa em sistemas digestivos como mecanismos de leitura

Paula Alzugaray

Publicado em: Vol. 10, N 51, Julho/ Agosto/ Setembro 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Enzyme #2 (Foto: Divulgação)

O projeto periódico de Jorgge Menna Barreto e Joélson Buggilla nasce da insatisfação dos artistas com os limites do formato expositivo. Enzyme #1 surgiu em março de 2020, como desenvolvimento da pesquisa que relaciona sistemas digestivos e sistemas culturais, iniciada com a escultura ambiental Restauro (2016), e como espaço para sustentar relações a longo prazo. Sua temporalidade expandida é o elemento irrigador dos processos de negociação em que os artistas estão interessados.

Se Restauro, apresentada na 32ª Bienal de São Paulo, propôs um sistema de regeneração cultural e biológica, articulando a superfície da terra (o que se planta) à superfície da mesa (o que se consome), Enzyme – “uma revista para digerir” – agrega nova camada (ou pele) a esse sistema: a superfície da página (o que se digere). A primeira edição teve como tema Page, Table & Earth [Página, Mesa & Terra] e foi produzida durante residência dos dois artistas na Academia Jan van Eyck, na Holanda. A segunda, Life Systems [Sistemas de Vida] é uma obra comissionada ao duo pela Bienal de Liverpool de 2021. Surgiu como acompanhamento do “prato principal”, que seria a itinerância de Restauro, a partir de pesquisa sobre a política alimentar do entorno de Liverpool, caso o mundo não tivesse parado com a pandemia.

Mas, com o profundo processo de autoanálise a que o mundo – não apenas o da arte – foi submetido com a crise do coronavírus, Enzyme pôde realizar de modo integral sua vocação de questionar e se oferecer como alternativa ecológica aos modelos de negócio e formatos expositivos do sistema da arte. “As páginas tornaram-se nosso campo comum e um potencial de criarmos uma comunidade nas ruínas do que foi, um dia, um projeto de restaurante”, escrevem no editorial da #2 Jorgge Menna Barreto e Sarah Kristin Happersberger, curadora do ZKM de Berlim e editora convidada.

A comunidade de Enzyme #2 é formada por artistas, educadores, curadores, pesquisadores e estudantes, cujos debates se materializam em obras denominadas “biomas”. Cada bioma é um caderno solto e todos são envoltos por um invólucro comum, uma capa em formato de envelope, integrando um sistema-revista.

“Por que nossos corpos devem terminar na pele, ou no máximo incluir outros seres encapsulados pela pele?”, é a frase de Donna Haraway destacada pelo artista Cos Ahmet, em um dos eventos on-line que marcaram o lançamento do projeto, em junho. Seu bioma consiste em, além de páginas produzidas com bioplástico, uma série de páginas que reproduzem os cadernos-biomas dos outros artistas, na forma de stickers. “Os adesivos possibilitam transições matéricas entre superfícies, e diálogos entre temas, contaminando outros corpos”, diz Ahmet, propondo a dissolução das peles que delimitam e separam os trabalhos. O leitor-participante é aqui envolvido na tarefa de operar essas articulações entre cadernos-biomas, contaminando outras superfícies, inclusive além do corpo da própria revista. Contribuindo, assim, ao projeto editorial dos artistas de fazer do periódico um sistema de vida, per se.

Enzyme #2
Bienal de Liverpool

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