A sangue-quente

Fernando Costa Netto

Publicado em: 19/10/2012

Categoria: Perfil, Reportagem

André Liohn escapou do crack e do três-oitão na adolescência e chegou à linha de frente dos conflitos na Líbia e na Síria. Em ação, um dos pioneiros do fotojornalismo mundo-cão

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Legenda: André Liohn já encarou o front sem colete à prova de balas (Foto: Fernando Costa Netto). No destaque da home, rebeldes se preparam para invadir a base de soldados da força militar da Líbia, em foto de Liohn.

De Pedro Álvares Cabral a Dilma Rousseff, o Brasil produziu apenas dois fotógrafos especializados em documentar países dominados por ditadores e grupos radicais de direita ou de esquerda. Um deles é Mauricio Lima, que trabalha para o New York Times e, em 2010, foi eleito Wire Photographer of the Year pela Time Magazine, a revista semanal mais importante e de maior circulação no planeta. O outro é André Liohn, repórter fotográfico freelance da CNN, Der Spiegel, Le Monde, Time, Newsweek e da Human Rights Watch, que este ano se transformou no grande personagem do fotojornalismo mundial ao ser agraciado com a maior honraria da fotografia de guerra, a Robert Capa Gold Medal, pelo registro da rebelião armada que depôs o exótico ditador líbio Muammar Kaddafi. 

Lima afirma que, ao ser apresentado ao conterrâneo, sentiu confiança. “Liohn cobria a revolução Líbia já há alguns meses.Não o conhecia e não reparei como ele fotografava, exceto em um momento em que o vi exposto, num local muito arriscado e sem colete à prova de balas ou qualquer proteção”, diz Lima.

Desde a criação desse prêmio, em 1955, André Liohn é o primeiro sul-americano numa lista dominada por norte-americanos e europeus. A medalha que recebeu em Nova York faz parte do enredo de uma vida que começou na periferia de uma cidade no interior de São Paulo, Botucatu, em 1996. Esta é a data e o local do início do segundo round na vida de Liohn. Envolvido com companhias duvidosas na adolescência, convivendo com todos os problemas de uma região dominada pela prostituição, pelo crack e pelo três-oitão, aos 22 anos viu-se obrigado a tomar uma decisão.

O filho mais velho de dona Maria, auxiliar de enfermagem num hospital público, e de seu Zé, porteiro da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), ganhou uma passagem de ida e mudou-se para a casa de um amigo suíço que havia conhecido em sua cidade natal. “Fui submetido a todo tipo de dificuldade de um imigrante ilegal”, conta. Da Suíça para a Noruega, depois para a Alemanha e de volta à Noruega, arrumou um bom subemprego num asilo de idosos, juntou algum dinheiro e iniciou um curso de comércio exterior. Casou pela primeira vez e comprou uma câmera digital. Começou a clicar sustentado pelo sentimento de questionamento e insatisfação com a própria realidade. Dez anos se passaram rápido e, em 2005, resolveu tirar férias no inferno africano.

Com um amigo, embarcou para Mogadíscio, capital da Somália. A caminho do Quênia, fotografou os campos de refugiados e, quase sem querer, se inseriu no fotojornalismo. “Percebi a importância do trabalho e de criar uma história, explicar uma situação.” André Liohn nascia naquele momento para a profissão. Uma década depois, fotografava e se desviava dos tiros em Misrata, na Líbia, na tarde em que um bombardeio abreviou as brilhantes carreiras de Tim Hetherington, da Vanity Fair, e Chris Hondros, norte-americano da Getty Images.

Apesar de ter sido duramente criticado por divulgar a morte dos colegas pelo Facebook, os corpos dos dois foram levados de barco de Misrata para a cidade portuária de Bengasi, graças ao esforço do colega brasileiro. “Não tive alternativa, foi a maneira mais rápida de avisar a família e as redações de que eles estavam mortos.”

Pai de Lyah e Anton – em homenagem ao amigo e fotógrafo tcheco Antonin Kratochvil –, Liohn esteve no Brasil em agosto para visitar a família em Botucatu. Na semana que a revista chegar às bancas, ele estará entre a fronteira da Síria e da Turquia. “A Síria está pirando os meus amigos”, diz recebendo pelo celular a mensagem do fotógrafo catalão Ricardo Vilanova: “Você pode sobreviver, se tiver sorte. A armada de Bashar al-Assad está bombardeando com aviões agora.”

* Publicado originalmente na edição impressa #8. Leia também Sob a Luz do Camburão.

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