À sombra do Castelo

Coleção “exuma” crônicas, textos de teatro, folhetim de João do Rio, inventor do jornalismo moderno brasileiro

Paula Alzugaray
João do Rio, em caricatura de Emilio Cardoso Ayres, 1911 (Foto: Divulgação)

Entre março de 2016, quando a repórter Malu Gaspar escreveu para a piauí sobre o prefeito Eduardo Paes e sua máquina urbana movida a combustível olímpico (O Samba do Prefeito), e maio de 1903, quando o jornal Gazeta de Notícias publicou uma crônica de João do Rio sobre o prefeito Pereira Passos (A Vida do Rio – O Prefeito), o Rio de Janeiro viveu as três maiores “cirurgias” de sua história (a segunda teve assinatura de Carlos Lacerda, que expandiu a cidade para a Barra da Tijuca). Na alvorada do século 20, sob a poeira levantada pelo desmantelamento do Morro do Castelo, o jornalista Paulo Barreto inventou o autor que varreria ruas e subterrâneos do Rio, dando protagonismo aos personagens de uma cidade em transformação.

A Cidade, coluna diária assinada pelo pseudônimo João do Rio, foi criada para acompanhar o passo a passo do “renascimento”. O texto de estreia tratava o Rio de Janeiro como convalescente, sob os cuidados do médico e da família. “Um aviso, um conselho, um reparo, uma censura, um elogio – tudo haverá, de quando em quando, nesta curta e sóbria coluna”, escrevia o autor. “Os médicos têm bastante competência, mas nunca é demais a solicitude de um filho carinhoso.”

Foram justamente os carinhos desse filho pródigo do Rio que produziram não apenas o mais precioso documento da vida carioca do início do século passado, como vieram a inaugurar o jornalismo moderno brasileiro. “Se a minha ação no jornalismo brasileiro pode ser notada é apenas porque, desde o meu primeiro artigo assinado ‘João do Rio’, eu nunca separei jornalismo de literatura, e procurei sempre fazer do jornalismo grande arte”, dizia o autor em texto encontrado entre seus arquivos, dois anos após sua morte, em 1921.

Escrita quase sempre na forma de diálogos travados com interlocutores que lhe servem de “guias”, a crônica de João do Rio relata suas saídas a campo com sabor e estilo únicos. Nela está documentada a cidade doente e sua “pobre gente”, vivenciada nos presídios, nas ruelas insalubres ao sopé do Morro do Castelo, no interior das fumeries de ópio traficado por chineses, ou na favela – foi o primeiro repórter a subir o Morro da Providência. Mas é nessa crônica que também se revela a “frívola city” e as altas rodas de uma sociedade habituada a destilar uma língua “marchetada de palavras estrangeiras, que fala com grande conhecimento da Europa, da vida elegante da Riviera, das croisières em yachts pelos mares do Norte”.

Sob a caneta de João do Rio se delinearam características marcantes do carioca. Seu gosto por espiar à janela, por exemplo – detectado pelo estrangeiro que passeava de carro com o jornalista pela Avenida Beira-Mar –, anteciparia a poderosa cultura da telenovela, nascida no Rio nos anos 1960 e  exportada para o mundo como traço indelével da sociedade brasileira.

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