À sombra do Castelo

Coleção “exuma” crônicas, textos de teatro, folhetim de João do Rio, inventor do jornalismo moderno brasileiro

Paula Alzugaray

N° Edição: 29

Publicado em: 03/05/2016

Categoria: A Revista, Review

João do Rio, em caricatura de Emilio Cardoso Ayres, 1911 (Foto: Divulgação)

Entre março de 2016, quando a repórter Malu Gaspar escreveu para a piauí sobre o prefeito Eduardo Paes e sua máquina urbana movida a combustível olímpico (O Samba do Prefeito), e maio de 1903, quando o jornal Gazeta de Notícias publicou uma crônica de João do Rio sobre o prefeito Pereira Passos (A Vida do Rio – O Prefeito), o Rio de Janeiro viveu as três maiores “cirurgias” de sua história (a segunda teve assinatura de Carlos Lacerda, que expandiu a cidade para a Barra da Tijuca). Na alvorada do século 20, sob a poeira levantada pelo desmantelamento do Morro do Castelo, o jornalista Paulo Barreto inventou o autor que varreria ruas e subterrâneos do Rio, dando protagonismo aos personagens de uma cidade em transformação.

A Cidade, coluna diária assinada pelo pseudônimo João do Rio, foi criada para acompanhar o passo a passo do “renascimento”. O texto de estreia tratava o Rio de Janeiro como convalescente, sob os cuidados do médico e da família. “Um aviso, um conselho, um reparo, uma censura, um elogio – tudo haverá, de quando em quando, nesta curta e sóbria coluna”, escrevia o autor. “Os médicos têm bastante competência, mas nunca é demais a solicitude de um filho carinhoso.”

Foram justamente os carinhos desse filho pródigo do Rio que produziram não apenas o mais precioso documento da vida carioca do início do século passado, como vieram a inaugurar o jornalismo moderno brasileiro. “Se a minha ação no jornalismo brasileiro pode ser notada é apenas porque, desde o meu primeiro artigo assinado ‘João do Rio’, eu nunca separei jornalismo de literatura, e procurei sempre fazer do jornalismo grande arte”, dizia o autor em texto encontrado entre seus arquivos, dois anos após sua morte, em 1921.

Escrita quase sempre na forma de diálogos travados com interlocutores que lhe servem de “guias”, a crônica de João do Rio relata suas saídas a campo com sabor e estilo únicos. Nela está documentada a cidade doente e sua “pobre gente”, vivenciada nos presídios, nas ruelas insalubres ao sopé do Morro do Castelo, no interior das fumeries de ópio traficado por chineses, ou na favela – foi o primeiro repórter a subir o Morro da Providência. Mas é nessa crônica que também se revela a “frívola city” e as altas rodas de uma sociedade habituada a destilar uma língua “marchetada de palavras estrangeiras, que fala com grande conhecimento da Europa, da vida elegante da Riviera, das croisières em yachts pelos mares do Norte”.

Sob a caneta de João do Rio se delinearam características marcantes do carioca. Seu gosto por espiar à janela, por exemplo – detectado pelo estrangeiro que passeava de carro com o jornalista pela Avenida Beira-Mar –, anteciparia a poderosa cultura da telenovela, nascida no Rio nos anos 1960 e  exportada para o mundo como traço indelével da sociedade brasileira.

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