À sombra dos vulcões

Encravadas em lugares idílicos, residências artísticas podem ser lugares de experiências festivas ou de reflexão solitária

Paula Alzugaray
Blood Moon Offering (2018), performance de Lydia Ourahmane no Volcano Stravaganza 2018 (Foto: Amedeo Benestante, Cortesia Fiorucci Art Trust)

Episódios de mistério e confusão cercaram a produção do filme de Roberto Rosselini na ilha de Stromboli, na Itália, no fim dos anos 1940. Um artigo do NYT, publicado em janeiro de 1954, considerou aquela que foi a primeira atuação de Ingrid Bergman em uma produção italiana “an almost embarassing fiasco”. Mas nenhum rumor foi capaz de macular a mística da pequena ilha ao norte da costa siciliana, onde está um dos três vulcões em atividade da Itália. Pelo contrário. “Stromboli tornou-se um destino cultural com o filme de Rosselini de 1950, Stromboli, Land of God, que teve, como espontânea consequência, a chegada de diferentes tipos de turismo, principalmente de intelectuais e artistas”, diz Milovan Farronato à seLecT. Curador do Fiorucci Art Trust, ele enumera as personalidades que decidiram comprar propriedades na ilha e viver à sombra do Iddu – nome local do vulcão, que significa “ele” no dialeto siciliano. Entre eles, Mimmo Palladino, artista da transvanguarda, e Marina Abramović, que realizou diante do Iddu um trabalho inspirado na iconografia da Pietá. “Quando, em 2008, Nicoletta Fiorucci e eu, como peregrinos herméticos em busca de iluminação, vagávamos para encontrar um lugar ideal, remoto, onde os artistas pudessem pensar e meditar, e onde a intempérie e o tempo fossem a mesma coisa – assim como a intempérie condiciona o tempo –, nós entramos nesse caminho nunca antes percorrido”, conta Farronato.

Em concordância com o temperamento performático do Iddu – há quem diga que ele contabiliza, em média, uma pequena explosão a cada 15 minutos –, Nicoletta e Farronato estabeleceram ali as bases de um festival que denominaram Volcano Stravaganza. Enraizado nas tradições do vaudeville, cabaré, circo e outros gêneros teatrais de caráter burlesco, o termo stravaganza dá o tom espetacular do evento anual. Seu projeto conceitual é conectar os vulcões Iddu e Vesúvio, em Pompeia, por meio das poéticas de artistas convidados. “Stromboli é um lugar arcaico, onde os elementos se encontram e interagem. Não existe iluminação pública na ilha e à noite o vulcão continua falando e, às vezes, até levanta a voz muito alto”, continua Milovan Farronato.

  • Live Under the Sun (2013), performance de Anna Blessman e Peter Saville no Volcano Stravaganza 2013 (Foto: Anna Blessman, Cortesia Fiorucci Art Trust)

Canto da sereia
Dentro de um leque bastante diversificado de atividades, a instituição desenvolve três programas de residências em Stromboli, Londres e Li Galli, arquipélago na Costa Amalfitana, também conhecido como Le Sirenuse, onde Ulisses foi sequestrado pelas sereias na Odisseia, e onde os espíritos criativos de Nijinsky, Picasso, Stravinsky e Zefirelli até hoje assombram os residentes. “Quase cheguei a ouvir o canto das sereias, de fato”, diz o artista brasileiro Lucas Arruda, que permaneceu dois meses sozinho na ilha de Li Galli. “Foi uma residência mais reflexiva. Eu estava rodeado por uma beleza tão estonteante que não conseguia me concentrar no meu trabalho.” Foi só depois de voltar que a experiência se transformou em produção de obra. “Foi lá que me dei conta do meu mecanismo de trabalho e comecei a entender que a minha pintura vem mais da vivência e das sensações do que da paisagem observada. A luz de minhas paisagens tem uma dimensão mental”, diz Arruda.

Um ano depois da residência em Li Galli, Arruda visitou Strombolli. Foi uma viagem passageira, que rendeu, um ano depois, uma pintura que foi exposta em julho passado no festival Volcano Stravaganza. “Trazemos artistas muito diferentes, como a portuguesa Joana Escoval, que criou novas trilhas nas encostas do vucão, permitindo-nos finalmente ver o corpo da montanha pela primeira vez. Ou como o artista brasileiro Lucas Arruda, que retratou em Stromboli um horizonte perturbado pela forma triangular do vulcão”, diz Farronato.

  • Sem Título (2015), de Lucas Arruda (Foto: Cortesia Mendes Wood DM, David Zwirner, Everton Ballardin)
  • Sem Título (2015), de Lucas Arruda (Foto: Cortesia Mendes Wood DM, David Zwirner, Everton Ballardin)
  • Untitled (From the Deserto-Modelo series), 2019, pintura em óleo sobre tela, realizada por Lucas Arruda após experiência na ilha de Stromboli, na Itália (Foto: Cortesia Mendes Wood DM, David Zwirner, Everton Ballardin)

 

A intenção das residências em lugares paradisíacos como esses é fornecer aos residentes “experiências atemporais”. Na ilha vulcânica, as residências acontecem nos meses de inverno, em dois locais – uma casa em frente ao mar, denominada La Lunatica, e uma casa na montanha, que pertenceu a Marina Abramović. Mas não há regra. “Em princípio, quanto tempo ficar e quando chegar fica a critério dos participantes. O que esperamos é poder oferecer uma sensação de tempo dilatado, mesmo quando alguém permanece em Stromboli apenas algumas semanas ou um mês. Há também aqueles que decidiram passar o inverno inteiro”, diz o curador.

Habitada por cerca de 500 pessoas durante o inverno (no verão, o quórum aumenta consideravelmente), Stromboli ainda é um lugar remoto, com escassas conexões por telefone e internet. Mas, como todo paraíso na Terra, é um lugar ameaçado pelo turismo predatório. Sobre a questão incontornável, de como atuar num contexto como as Ilhas Eólias, no Mar Tirreno, deixando um impacto positivo para a comunidade local, o curador é otimista. “Os artistas são dotados de poderes especiais e oferecem ao seu público a possibilidade de ver as coisas com olhos diferentes. Em Stromboli, eles deixam arquétipos, alguns resíduos que são adicionados à natureza já arquetípica da ilha. De acordo com a cosmologia xintoísta, as cores existem mesmo se você não as vê. Cada intervenção artística é como uma latifa, uma presença sutil que provavelmente sempre existiu e nós apenas a iluminamos com o nosso projeto artístico”, diz Farronato.

Parque Nacional dos Vulcões do Havaí, que fornece residências internacionais (Foto: Tanya Ortega Preising, Cortesia National Parks Art Foundation)

 

Áreas de proteção
Os EUA têm cerca de 400 áreas de proteção conhecidas como Parques Nacionais. Ainda que visitados por 330 milhões de pessoas todos os anos, são locais comprometidos com a conservação de recursos naturais e culturais. Desde 1916, com a fundação do Sistema Nacional de Parques, essas áreas atraem escritores, pintores e compositores. A ideia de que a arte contribui para a conscientização ecológica e cultural embasou a criação da National Parks Arts Foundation (NPAF), que, há quase uma década, fornece residências para artistas de todo o mundo. O Parque Nacional dos Vulcões do Havaí é um deles. Situado na Big Island, trata-se de um parque vulcânico de 135 mil hectares quadrados, declarado patrimônio mundial da Unesco. 

O Parque Nacional dos Vulcões do Havaí costuma abrir inscrições uma vez por ano, quando as atividades vulcânicas cessam. A residência é aberta a artistas, casais de artistas, famílias de artistas e coletivos artísticos, via inscrições pagas. Uma vez selecionado, o artista recebe uma bolsa de US$ 2 mil para estadia de um mês em uma casa com ateliê, perto das melhores praias da ilha e a 30 minutos, de carro, dos vulcões. Além de pintores paisagistas, a residência recebeu, na última temporada, o quadrinista Andy Warner, que está elaborando uma HQ documental sobre as histórias dos residentes impactados pelas erupções de 2018.

Outras residências do NPAF ocorrem em Death Valley, no Grand Canyon, em Yosemite, em Yellowstone e no Big Bend, entre os 18 parques nacionais nos EUA.

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