A última fronteira

Nos 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami, lideranças divulgam relatório sobre o caos humanitário provocado pelo garimpo ilegal e convocam sociedade a lutar contra o desmatamento

Paula Alzugaray

Publicado em: 21/04/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Marcos Wesley, do Programa Rio Negro do ISA (Instituto Socioambiental), Davi Kopenawa, Dario Kopenawa e Sebastião Salgado no debate de terça, 19/4

Terras indígenas funcionam como um escudo contra o desmatamento. Diferentemente do Cerrado, a Amazônia tem hoje mais de 50% de seu território protegido por Lei. Terras indígenas são unidades de conservação da natureza.

Em 25 de maio próximo se completam 30 anos da homologação das primeiras terras indígenas no Brasil, as terras Yanomami. Mas há pouco a comemorar. Em 2021, a destruição causada pelo garimpo na Terra Yanonami cresceu 46% em relação a 2020. É o pior índice desde a demarcação, em 1992, marcando o retorno dos invasores que no final da década de 1980 disseminaram doenças e dizimaram, segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 14% da população Yanomami em Roraima.

Os dados estão sendo divulgado em um relatório produzido conjuntamente pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Instituto Socioambiental (ISA), apresentado na abertura do ciclo de debates sobre a situação dos povos indígenas no Brasil, no contexto da exposição Amazônia, de Sebastião Salgado, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Vista da exposição; à esquerda, a fotografia Monte Roraima. Fronteira Brasil e Guiana. Parque Nacional do Monte Roraima. Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Estado de Roraima (2018), de Sebastião Salgado

“Hoje são mais de 20 mil garimpeiros na terra Yanomami. A Funai diz que trabalha, mas a Funai fala mentira. Hoje autoridades não têm responsabilidade para cuidar dos povos indígenas”, disse Dario Kopenawa no encontro em 19/4, dia do indígena. “Eu tenho provas aqui no relatório. Se vocês não apoiarem a causa indígena, não existirá a Terra”.

Em sua fala, o líder Davi Kopenawa lembrou a importância da luta de Claudia Andujar para o processo de homologação das terras, quando o território Yanomami estava tomado pelo garimpo ilegal. O relatório Yanomami Sob Ataque: Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami e Propostas para Combatê-lo detalha o caos humanitário provocado pela invasão garimpeira desde 2021 na maior Terra Indígena do país.

Com um histórico da 1ª grande invasão nos anos 1980; uma enumeração de fatores que explicam o aumento do garimpo ilegal; a explanação dos impactos da atividade; registros aéreos da devastação atual; e a listagem de uma série de medidas para combater o mal, o relatório é eficiente e didático para mostrar que a solução só depende de vontade política.

A síntese da situação apresentada por Marcos Wesley, do Programa Rio Negro do ISA, é estarrecedora. O poder de destruição hoje é ainda maior do que nos anos 1980 e os motivos são explícitos: crise econômica e desemprego, resultando em massa de mão de obra barata explorada em condições de alta precariedade; falhas regulatórias na cadeia produtiva do ouro que permitem fraudes na declaração de origem; a escalada da fragilização das políticas ambientais; a alta do preço do ouro no mercado internacional.

Vista da exposição de Sebastião Salgado, em cartaz no Sesc Pompeia

Encabeçam essas causas a tecnologia de comunicação disponível – internet e redes sociais –, que agilizam a logística e se antecipam às ações de combate; e, logicamente, e acima de tudo, a política bolsonarista de incentivo à extração de ouro e cassiterita na Amazônia, apesar de seu caráter ilegal e demasiado destrutivo.

Um dado novo revelado pelo relatório é alarmante: a participação do crime organizado nos ataques criminosos às comunidades indígenas.

“A falência do Brasil passou por cima de dois biomas: a Mata Atlântica e o Cerrado. Hoje vivemos a tentativa de destruição da última fronteira, a Floresta Amazônica”, disse Sebastião Salgado na abertura do ciclo. Em 1986, o fotógrafo ficou conhecido pela documentação do caos ambiental e humanitário na maior mina a céu aberto do mundo, Serra Pelada, no Pará, As imagens foram reunidas em seu projeto “Trabalhadores”.

Hoje, seu olhar se volta para o outro lado da mineração ilegal. A exposição Amazônia é um acervo importante da riqueza cultural dos povos da floresta e da potência vital da natureza amazônica, novamente ameaçados.

“O poder judiciário é aliado na proteção desses territórios. Se apoiarmos a causa indígena, vamos conseguir preservar a Amazônia”, diz Salgado, convocando a cultura e os sistemas de informação a entrar na luta. As três mesas do ciclo fazem parte do Abril Indígena, projeto do Sesc que em 2022 traz o tema SP: Terra Indígena. Podem (e devem) ser acessadas na íntegra em:

Comemoração dos 30 Anos da demarcação da terra Yanomami
Com Sebastião Salgado, Davi Kopenawa, Dário Kopenawa e Marcos Wesley [19/4]

A situação das terras indígenas no Acre
Com Biraci Brasil, Francisco Pyiako e Wewito [20/4]

A situação de populações indígenas isoladas e de recente contato
Com Sebastião Salgado, Beto Marubo, Sydney Possuelo e Tiago Moreira [21/4]

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