A última fronteira?

Juliana Monachesi

Publicado em: 26/02/2013

Categoria: Reportagem, visuais

Colecionador sai do papel de patrocinador, destrói uma das mais icônicas obras da arte chinesa recente e com isso se iguala e desafia o autor da obra que copiou: Ai Weiwei

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Legenda: Primeira foto de Fragments of history (Fragmentos da História , 2012), tríptico foto gráfico assina do por Manuel Salvisberg

“O que aconteceria se o aparentemente intocável Ai Weiwei se tornasse vítima de seu próprio conceito, o culpado sendo seu maior colecionador? Quanto mais eu pensava nisso e em todas as implicações decorrentes, mais parecia óbvio que isso precisava ser feito. Foi assim que Fragments of History surgiu.” Parece a narração em off de um trailer de filme de suspense artsy.

Mas o thriller teve lugar na vida real, quando um ilustre desconhecido convenceu seu tio, que vem a ser um colecionador também ilustre, a destruir uma das mais icônicas obras da arte chinesa recente, protagonizando (como performer?) uma segunda (suposta) obra, que relê, por sua vez, outra das mais icônicas obras da arte chinesa recente.

Explicando: Manuel Salvisberg, jovem empreendedor suíço, fotografou Uli Sigg, maior colecionador de arte contemporânea chinesa, derrubando no chão a famosa Urna Coca-Cola (1994), de Ai Weiwei, escultura cujo título original – Han Dynasty Urn with Coca-Cola Logo – explicita seu conteúdo, ou seja, um vaso produzido por um habilidoso artesão por volta de 100 a.C., era de inovação cerâmica na China, por sua vez “destruído” por Weiwei quando aplicou com algumas camadas de tinta o logo do refrigerante sobre muitas camadas da história de seu país.

Explicando melhor, nos anos 1990, o dissidente chinês e darling da arte contemporânea Ai Weiwei comprou um conjunto de cerâmica da dinastia Han (206 a.C.-9 d.C.), que utilizou em vários trabalhos, sendo o mais famoso aquele em que derruba um vaso milenar e registra o momento em que este se espatifa no chão, fotografado nos três momentos-chave da destruição: antes (inteiro, entre as mãos do artista, semblante sério), durante (vaso no ar) e depois (aos cacos no chão). A confecção de Dropping a Han Dinasty Urn (1995) “gastou” dois vasos da coleção de Ai Weiwei, porque na primeira “derrubada” o fotógrafo perdeu o “instante decisivo”.

“O colecionador é autorizado a sair de seu papel estritamente definido como simples patrocinador e cliente de um grande mercado? Quanto de elasticidade é possível? E quais os direitos que ele tem sobre a arte que adquiriu legal e moralmente?” Essas são outras perguntas que o novo artista devolve em entrevista a seLecT. Artista? Vejamos.

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Legenda: Dropping a Han Dynasty Urn (derrubando um vaso da dinastia han, 1995), de Ai Weiwei

Fato 1: Manuel Salvisberg foi catapultado, em menos de seis meses, da condição de financiador para empresas em crescimento para a de artista contemporâneo blue chip, com fotografias sendo vendidas por 10 mil euros aos maiores colecionadores de arte chinesa do mundo.

Fato 2: Diante da pergunta – Afinal, você é mesmo um artista? –, ele responde: “Na Suíça, para ser artista, disseram-me que é preciso dedicar no mínimo 60% de tempo ativo para a criação de arte como profissão. Eu não faço isso. Tampouco fui educado formalmente em artes. Por essa definição, assumo eu, não sou um artista. De fato, dedico a maior parte do meu tempo para a construção de jovens empresas de tecnologia e start-ups, fornecendo-lhes financiamento e apoiando seu crescimento. Amo fazer isso. É muito gratificante e diversificado. Minha outra paixão é a arte. Minha família sempre colecionou arte (principalmente dos antigos mestres suíços) e, especialmente um membro da família, Uli Sigg, tornou-se importante para o cenário da arte contemporânea chinesa. Através dele, desenvolvi um interesse e comecei a colecionar arte contemporânea chinesa no ano 2000 (naquele tempo, as obras estavam muito acessíveis e eu pude construir uma bela coleção). Por meio dela estive muito envolvido com artes durante os últimos 11 anos”.

Fato 3: Fragments of History foi sua primeira obra. “Eu sempre tive vontade de produzir algo eu mesmo, mas abandoneias ideias anteriores até que o conceito de Fragments me atingiu em cheio. Tenho acompanhado AWW ao longo do tempo e fiquei intrigado com a ideia de ver como ele reagiria se fosse feito com ele o mesmo que ele fez com os outros (ou seja, cujas obras ele ‘usou’). O que aconteceria se o aparentemente intocável AWW se tornasse vítima de seu próprio conceito, o culpado sendo seu maior colecionador? Quanto mais eu pensava nisso e em todas as implicações decorrentes, mais parecia óbvio que isso precisava ser feito.”

Fato 4: Sua primeira obra está nas coleções do artista mais influente do mundo (Ai Weiwei é o terceiro no ranking da ArtReview, depois de Carolyn Christov-Bakargiev e Larry Gagosian) e do maior colecionador de arte chinesa do mundo, Uli Sigg, seu tio e protagonista da obra em questão. “Eu precisava me decidir a respeito de onde eu deveria colocar as obras. Era imperativo para mim que elas deveriam estar em coleções de alta qualidade, a fim de ser apreciadas e, com sorte, mostradas no futuro. Uma foi para AWW, claro (a edição 1/8). Uma foi para a coleção particular de Uli. Uma foi para a doação de Uli ao museu M+ HK, o que me torna parte da arte contemporânea chinesa para sempre (como artista). Uma foi para Urs Meile, galerista e colecionador de AWW. O resto eu vendi para colecionadores importantes por 10 mil a 13 mil euros cada (que vai tudo voltar para o circuito das artes).”

Fato 5: Ele contou com a maior divulgação que o trabalho iconoclasta poderia ter, feita pelo próprio autor da obra que ele havia copiado e também da que ele havia destruído. “AWW mostrou o trabalho para Chin-chin Yap, da revista Art Asia Pacific, que escreveu um artigo (Devastating History, publicado na edição de maio/junho da revista), que teve muita repercussão nas feiras Art HK e Art Basel. De repente, estava sendo convidado para jantares de galeria e eventos como o artista que fez Fragments.”

Fato 6: Ele tem plena consciência do sistema que valida o que é arte hoje – o qual ele denomina, criticamente, de circo. “Olhando para o desenrolar dos acontecimentos, sinto que o circo da arte me fez um artista, não importa o meu histórico, formação ou a quantidade de tempo dedicado a isso. Você me contatou como um artista. Mas é uma pergunta interessante que eu continuo me fazendo e que pode conceitualmente aparecer no meu próximo trabalho.”

Fato 7: Sim, ele tem outras obras em vista. “Estou pensando em outra obra que pode ser relativamente ousada, dependendo e todas as coisas funcionarem do jeito que espero. Desta vez junto e não contra o artista. Eu gosto de criar realidades desafiadoras como um meio fundamental. Essa é, provavelmente, a essência de como gostaria de fazer arte e espero que eu tenha mais algumas boas ideias no futuro – se isso vai se qualificar como uma ‘carreira de artista contemporâneo’, eu não sei.”

E o que foi que Ai Weiwei achou disso tudo?, pergunto, por fim. “Uli e eu visitamos AWW em seu estúdio, no início de 2012, para entregar uma das cópias. Ele não tinha ideia de que eu estava trabalhando nisso. Coloquei as três fotos na mesa, deixando à mostra apenas a primeira (Uli com o vaso intacto). AWW circulou ao redor três ou quatro vezes sem palavras, murmurando ‘eu conheço esse trabalho’. Ele, provavelmente, não sabia se devia ficar animado ou chocado. Depois de alguns momentos, ele riu, todos rimos e nós três fomos jantar e começamos a especular sobre possíveis interpretações, como Sigg abandonando seu melhor amigo, Sigg abandonando a arte contemporânea chinesa etc. – a China oficial teria gostado.”

Uma dança das cadeiras no jogo de papéis desempenhados pelos profissionais de arte inclui sem maiores sobressaltos à sensibilidade contemporânea o artista como crítico, o marchand como curador, o curador como artista, o marchand como crítico, o crítico como curador, e assim por diante. Mas, quando a gente pensa que já viu de tudo, uma nova combinação se anuncia no horizonte: o colecionador como artista.

*Publicado originalmente na edição impressa #9.

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