A urgência da vida breve

Na era da selfie, Paulo D’Alessandro afirma que o que fala mais alto é mesmo a imagem não oficial

Paula Alzugaray

N° Edição: 45

Publicado em: 13/03/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Review

A Bigger Splash (2018), fotografia de Paulo D’Alessandro

Paulo D’Alessandro é um fotógrafo da vida urbana. Começou a carreira nos anos 1990, como repórter fotográfico policial do jornal Notícias Populares e, no início dos anos 2000, desenvolveu um trabalho de decomposição formal da arquitetura paulistana. Sete dessas imagens da cidade concreta integram a coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Quando montou sua empresa de fotos de festas e casamentos, D’Alessandro levou para o registro das noites borbulhantes da alta burguesia paulistana o olhar enviesado e o clique indiscreto de quem trabalhou na noite dos excluídos. Essa urgência da vida breve é a tônica das imagens selecionadas pelos curadores Henrique Siqueira e Monica Caldiron para a mostra Não Oficial, na Casa da Imagem, em São Paulo.

A exposição atravessa quase 30 anos de fotografia em 40 imagens. Trata-se de uma mostra de retratos em que a pose está desconstruída, ou captada alguns segundos antes de sua formação. O momento clássico em que o retratado constrói a identidade que deseja imortalizar não interessa ao fotógrafo. O que fica plasmado é uma espécie de anti-imagem, ou anticlímax, em que o sujeito fotografado se despe da imagem socialmente conhecida, para tornar-se um gesto, um movimento transitório. Por esse motivo, o rosto e o olhar não são sempre os elementos centrais da imagem e as mãos ganham acentuado protagonismo, seja na recusa da câmera, como na foto “Por favor!” (1992), seja portando telefones celulares, copos de uísque ou taças de champanhe. O corpo em trânsito também é protagonista das atenções do fotógrafo, como no mergulho para um lugar um Sol, em A Bigger Splash (2018). Na era da selfie, Paulo D’Alessandro afirma que o que fala mais alto é mesmo a imagem não oficial.

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