A vida no mundo que o cão criou

Mundo-Cão significa transformar a miséria alheia em entretenimento, com fins lucrativos. É só business. É diabólico.

André Forastieri

N° Edição: 8

Publicado em: 07/01/2013

Categoria: A Revista, Crítica

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Prova estilingue humano no programa Cante Se Puder, do SBT

Cachorros devoram outro cachorro. Fãs ensandecidas rasgam a camisa de seu ídolo. Terceiro-mundistas idolatram deuses pagãos. Garotas seminuas se expõem nas calçadas. Jovens enchem a cara e aprontam nas ruas. Animais maltratados, escalpelados, mortos, devorados. Funerais macabros. Danças provocantes. Homens vestidos de mulher. Uma máquina esmaga automóveis. E mais: gente como a gente fazendo besteira! Gente diferente da gente fazendo o inimaginável! A vida nua e crua, como ela é! Fim.

Não: começo. O mundo de 2012 nasceu com Mondo Cane, o documentário que deu origem ao termo, e ao entretenimento que domina hoje nossas atenções, formata nossos medos e desejos, e nos leva às compras. Está tudo prefigurado no filme italiano de 1962. É a matriz da moderna mídia de massa. Cinquenta anos depois, vivemos no mundo que Mondo Cane criou. Atenção: Mundo-Cão não é trash. Não é exploitation nem sensacionalismo. Mundo-Cão não tem tradução exata, nem tem nada a ver com cachorro. Cane é o Cão. Mondo Cane é o mundo do capeta. Dos valores invertidos; do anormal; da presença do mal.

Mundo-Cão significa transformar a miséria alheia em entretenimento, com fins lucrativos. Miséria de qualquer tipo: falta de dinheiro, de saúde, de cultura, de normalidade, de noção. É mais que faturar com a desgraça alheia. É empacotá-la como produto. Implica humilhação das vítimas e afetar ares de neutralidade, ou até solidariedade. É só business. É diabólico.

Supernanny

Cena de Super Nanny, programa que apresenta crianças que desafiam a paciência do público

Explorar os outros é o que mais fazemos, desde as cavernas. O homem é o cão do homem. Fazer disso fonte de receita ou espetáculo também não é novo. A novidade, da estreia de Mondo Cane para cá, é a ascensão da comunicação de massa, que simultaneamente massificou e especializou a exploração. Tem grana nas duas pontas e em tudo entre elas. No mínimo denominador comum que anestesia as multidões. E na sub-sub-segmentação, no fetiche para poucos, que pagarão pela exclusividade. Esses estiveram e estarão sempre conosco.

As mídias digitais só facilitam. É mais fácil ser tarado. O entretenimento que mais cresce na internet é a pornografia. O esporte que mais cresce no mundo é a luta livre ou, como se chama agora, MMA, Mixed Martial Arts. A programação que mais cresce na tevê são os reality shows. Os três são rigorosamente Mundo-Cão. É gente de verdade, ganhando entre pouco e nada, para lucro dos donos do circo.

Um e outro ganham um grande prêmio, às vezes. Uns emulam prazer, uns sangram para nosso deleite, outros traem e armam e choram para ganhar os votos do público. Tudo por dinheiro. Alguns shows têm mais script, outros menos. Varia a marmelada, a graça dos palhaços e a voracidade dos leões. Não muda o espírito dos participantes nem o de seus contratantes: tudo por dinheiro. É entretenimento para massa. Mas controlado por poucos. Como o alemão Fabian Thylman, 34 anos, fundador da Manwin, 60 milhões de usuários por dia. Thylman não é um pornógrafo – não só. Começou como programador. É mestre do marketing de afiliados e CEO. A empresa, com mais de 700 funcionários, é baseada em Luxemburgo. Controla megassites de pornografia, como o Brazzers, o YouPorn, o PornHub, o Mofos, o Webcams e outros.

O UFC, ou Ultimate Fighting Championship, domina o segmento de luta livre. Um lutador ganha de US$ 10 mil a US$ 50 mil por luta, mas, dependendo do campeonato, o cachê pode chegar a meio milhão. Cada lutador tem direito a US$ 50 mil para cobrir seus problemas de saúde, por ano. Os donos do UFC são a família Fertitta, seu garoto-propaganda Dana White e o governo de Abu Dabi. Ganham dinheiro no pay-per-view, com publicidade e merchandising. O UFC vai faturar mais de meio bilhão de dólares em 2012.

Biggest-loser

Competidores do reality show de emagrecimento The Biggest Loser

Reality show não é mais uma febre: é a forma dominante de programação de tevê no mundo. Reality show é automaticamente Mundo-Cão, assumido ou não. As cirurgias plásticas do Dr. Rey, as comidas nojentas de Man x Food, os gordos chorosos de The Biggest Loser, as crianças insuportáveis de Super Nanny, o desafio de continuar cantando coberto de baratas em Cante se Puder… a lista vai embora.

Uma categoria extrema é a da violência de animais contra animais, em canais natureba, verdes.Frequentemente humanizam os bichos, para depois abatê-los. O pequeno impala não é só mais um. É batizado de Billy, e acompanhamos seus primeiros passos e pulinhos sapecas, o amor da mamãe impala – para depois Billy ser devorado por uma leoa malvada. Em câmera lenta.

Pornografia, luta livre e reality shows são caricaturas. Mas a abordagem escandalosa, lacrimosa, esteróidica está em todo canto. Onde você encontrar a miséria humana transformada em atração (ou cenário, o que talvez seja ainda pior), o cão estará solto. A estratégia mais maquiavélica e condescendente embaralha as motivações: estou aqui entre esses pobres diabos, mas para benefício deles, e eles não são demais? É o Programa Legal: Regina Casé adulando os desgraçados, e quanto mais banguela e feio, melhor. Mesmo analfabeto, perneta e faminto, ele toca violão superbem, gente!

Manxfood

No programa Man VS Food, disputas infames para ver quem é capaz de comer mais

Esse espírito está no DNA do jornalismo, desde sempre. E não só nesses programas policiais de fim de tarde, especializados em tortura de meliantes. Exploitation Journalism, batizaram os americanos: como a senhora está se sentindo?, pergunta o repórter galã para a mãe que acaba de perder a família na enchente. Não perca as fotos que o paparazzo tirou da mocinha do Crepúsculo corneando o namorado, chama o portal. Leia a biografia que revela minúcias da implosão de Amy Winehouse, escrita pelo pai da cantora – já nas livrarias.

Mundo-Cão está em toda parte, porque Mundo-Cão funciona. A maneira mais fácil de turbinar a arrecadação de uma ONG é com foto de menininho moribundo, moscas sobrevoando, olhinhos fitando o nada, a mãe uma Pietá esquelética. Poverty Porn, batizaram ianques chateados com cenas tão apelativas. Corta o coração. Motiva a ação. Explicita o contraste: antes ele do que eu.

Claro que rir do tombo alheio é humano. Vide o eterno sucesso das videocassetadas, veneranda diversão dominical da família. Mas colocar a casca de banana na calçada e depois vender o vídeo do tombo para um patrocinador é tão humano quanto desumano.

Nada se compara em audiência e brutalidade aos reality shows modelo Big Brother Brasil – a humanidade reduzida a carne traiçoeira. Burrice, fofoca, alianças se fazendo e se dissolvendo, imposições idiotas, atividades inúteis e tensão sexual permanente, sem possibilidade de satisfação: a única moralidade é a do prostíbulo, faturar. É isso que somos, na escola, na empresa, na vida, diz Bial. É, mas não só. O mundo não é só do cão. A prova é a internet. Agora bilhões de pessoas produzem e publicam conteúdo. Pois uma fatia surpreendentemente pequena é de Mundo-Cão. Há muito mais gatinhos brincando com novelos, mensagens edificantes e criatividade em estado bruto do que exploração das desgraças alheias.

*André Forastieri é jornalista desde 1988, e escreve sobre cultura e tecnologia. Fundou a Editora Conrad, que dirigiu por 12 anos. Dirige a Tambor, a única empresa de comunicação brasileira especializada em games, e escreve diariamente no blog que leva seu nome, no R7.

*Publicado originalmente na #select8.

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